Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Eu sempre acreditei que mudar de cidade seria como abrir uma porta para uma vida completamente nova.
Mas ninguém nunca me disse que algumas portas escondem segredos.
Quando o autocarro finalmente parou na pequena rodoviária da cidade, o sol já começava a se esconder atrás das colinas. Eu desci com minha mochila nas costas e uma mala que parecia pesada demais para alguém que estava apenas começando uma nova fase.
O ar ali era diferente.
Mais frio.
Mais silencioso.
Ou talvez fosse apenas a sensação de estar sozinha em um lugar onde ninguém me conhecia.
— Respira, Helena — murmurei para mim mesma.
A cidade não era grande. Pelo contrário. Parecia o tipo de lugar onde todos sabem a vida de todos. Ruas tranquilas, casas antigas e árvores altas que formavam sombras compridas sobre as calçadas.
Peguei um táxi até a casa que eu tinha alugado.
Era pequena, mas bonita.
Uma daquelas casas antigas com varanda de madeira e janelas grandes. Assim que o carro parou diante dela, senti algo estranho no peito.
Não era medo.
Era mais como… curiosidade.
Desci do carro e olhei em volta enquanto o motorista tirava minha mala do porta-malas.
A rua era silenciosa demais.
Não havia crianças brincando.
Nenhum carro passando.
Apenas o som distante do vento nas árvores.
— Primeira vez na cidade? — perguntou o motorista.
— Dá pra perceber? — respondi com um sorriso tímido.
Ele riu.
— Um pouco. Essa rua é tranquila. Boa para estudar.
Assenti.
Era exatamente o que eu queria.
Paz.
Silêncio.
Um lugar onde eu pudesse me concentrar na universidade e construir meu futuro.
Peguei minhas malas, agradeci ao motorista e caminhei até a porta da casa.
As chaves estavam comigo desde a semana anterior. A dona da casa havia me enviado tudo pelo correio.
A fechadura fez um pequeno estalo quando girei a chave.
Empurrei a porta devagar.
O cheiro de madeira antiga tomou conta do ar.
Entrei.
A casa estava vazia, mas não parecia abandonada. Pelo contrário. Tudo estava limpo, organizado e pronto para ser habitado.
Havia uma pequena sala logo na entrada, com um sofá simples e uma estante vazia. Ao lado ficava a cozinha, pequena, mas aconchegante.
Subi as escadas com cuidado.
Meu quarto ficava no andar de cima.
Quando abri a porta, encontrei uma cama, uma mesa de estudos e uma grande janela.
A primeira coisa que fiz foi caminhar até ela.
E foi aí que eu vi.
A casa ao lado.
Era impossível não notar.
Era maior do que todas as outras da rua.
Antiga.
Escura.
E… estranhamente silenciosa.
O jardim estava cheio de plantas crescidas demais, como se ninguém cuidasse dele há anos.
As janelas estavam fechadas.
Todas.
Ou quase todas.
Observei a casa por alguns segundos.
Algo nela me causava uma sensação difícil de explicar.
Não parecia apenas abandonada.
Parecia… observando.
Balancei a cabeça.
— Helena, você está imaginando coisas — murmurei.
Afastei-me da janela e comecei a organizar minhas coisas.
Levei quase duas horas arrumando tudo.
Livros na estante.
Roupas no guarda-roupa.
Alguns objetos pessoais na mesa.
Quando terminei, já estava completamente escuro.
Meu estômago roncou.
— Ótimo — falei sozinha. — Primeira noite na cidade e eu já estou morrendo de fome.
Desci até a cozinha e preparei algo simples.
Enquanto comia, peguei o telemóvel e enviei uma mensagem para minha mãe.
"Cheguei bem. A casa é linda. Amanhã conto tudo."
Ela respondeu quase imediatamente.
"Tenho orgulho de você. Cuide-se."
Sorri.
Apesar da saudade, eu sabia que precisava estar ali.
Esse era meu sonho.
Depois de comer, subi novamente para o quarto.
Peguei um livro na mochila e me sentei na cama.
Mas minha atenção não estava nas páginas.
Estava na janela.
Eu podia sentir isso.
Como se algo estivesse me chamando para olhar novamente.
Suspirei.
Levantei-me e caminhei até lá.
A rua estava escura, iluminada apenas pelos postes de luz.
Tudo parecia calmo.
Silencioso.
Foi então que aconteceu.
Uma luz se acendeu.
Meu coração deu um pequeno salto.
A luz vinha da casa ao lado.
Mais especificamente…
Da janela do último andar.
Franzi a testa.
— Mas… — murmurei.
A casa parecia abandonada.
Então quem estava ali?
A luz não era fraca.
Era uma luz quente, amarelada, como de um abajur.
Fiquei observando.
Talvez fosse um cuidador.
Ou alguém que tivesse acabado de voltar para casa.
Sim, devia ser isso.
Mesmo assim, algo naquela cena me deixou inquieta.
A janela iluminada ficava exatamente voltada para o meu quarto.
Como se estivesse… me encarando.
Balancei a cabeça novamente.
— Você precisa dormir, Helena.
Fechei a cortina.
Mas antes de me afastar completamente, olhei mais uma vez.
A luz ainda estava acesa.
E por um segundo…
Tive a estranha sensação de que havia alguém ali.
Observando também.
Afastei-me rapidamente.
Talvez fosse apenas impressão.
Ou talvez eu estivesse cansada da viagem.
Apaguei a luz do quarto e me deitei.
A casa estava silenciosa.
Tão silenciosa que eu podia ouvir o vento batendo suavemente contra as janelas.
Fechei os olhos.
Mas o sono demorou a chegar.
Minha mente continuava voltando para a casa ao lado.
Para aquela janela.
Para aquela luz.
Quanto mais eu pensava nisso, mais estranho parecia.
Se alguém morava ali… por que a casa parecia tão abandonada?
E por que eu não tinha visto nenhuma movimentação durante o dia?
Nenhum carro.
Nenhuma pessoa.
Nada.
Suspirei.
Talvez eu estivesse exagerando.
Provavelmente havia uma explicação simples para tudo aquilo.
Ainda assim…
Eu não conseguia tirar a imagem da cabeça.
A luz no último andar.
Brilhando no meio da escuridão.
Como um segredo esperando para ser descoberto.
Virei-me na cama.
Olhei para o teto.
— Amanhã eu pergunto para alguém — murmurei.
Talvez algum vizinho soubesse quem morava ali.
Sim.
Era o mais lógico a fazer.
Com esse pensamento, finalmente comecei a relaxar.
O cansaço da viagem pesou sobre mim.
Pouco a pouco, meus olhos começaram a se fechar.
Mas antes de adormecer completamente…
Algo chamou minha atenção.
Um som.
Abri os olhos.
Silêncio.
Fiquei imóvel por alguns segundos.
Então ouvi novamente.
Um leve rangido.
Como se uma porta antiga estivesse sendo aberta.
Meu coração acelerou.
Sentei-me na cama.
O som não vinha da minha casa.
Vinha de fora.
Da direção da casa ao lado.
Levantei-me lentamente.
Caminhei até a janela e abri a cortina apenas o suficiente para olhar.
A luz ainda estava acesa.
Mas agora algo era diferente.
A janela estava aberta.
Um vento leve balançava a cortina do lado de dentro.
Olhei com mais atenção.
Meu coração disparou.
Porque eu não estava sozinha olhando.
Havia uma silhueta ali.
Um homem.
Alto.
Parado diante da janela.
Por um segundo, fiquei completamente imóvel.
Ele parecia estar olhando para a rua.
Ou talvez…
Para minha casa.
Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir.
Fiquei ali, escondida atrás da cortina, tentando entender o que estava vendo.
Quem era ele?
Por que vivia naquela casa?
E por que ninguém parecia falar sobre isso?
De repente, o homem se moveu.
Dei um pequeno passo para trás, assustada.
Mas antes de fechar a cortina completamente…
Aconteceu algo que fez meu estômago gelar.
Ele virou o rosto.
Diretamente na direção da minha janela.
Mesmo com a distância e a escuridão, tive certeza de uma coisa.
Ele sabia que eu estava ali.
Observando.
Meu coração disparou.
Rapidamente fechei a cortina e me afastei.
— Isso foi estranho — murmurei.
Muito estranho.
Voltei para a cama, mas agora o sono parecia ainda mais distante.
Fiquei olhando para o teto, tentando me convencer de que aquilo não era nada demais.
Talvez ele tivesse apenas olhado para fora.
Talvez nem tivesse me visto.
Sim.
Devia ser isso.
Mesmo assim…
Uma pergunta continuava ecoando na minha mente.
Quem era o homem da casa ao lado?
E por que eu tinha a sensação de que aquela não seria a última vez que nossos caminhos se cruzariam?
Sem perceber, um pequeno sorriso surgiu no meu rosto.
Porque, no fundo…
Eu sabia exatamente o que iria fazer.
Eu ia descobrir.
Nem que precisasse investigar aquela casa inteira.