O Homem Que Observava 2

638 Palavras
Kol nunca esteve sozinho no topo. Atrás dele, encostados na mureta quebrada do prédio abandonado, estavam os únicos dois homens que conheciam o Kol além do líder. Além da gangue. Além do sangue. Orelha e n***o. — Você vai acabar se complicando — resmungou Orelha, mascando um palito de dente, o olhar atento à rua abaixo. Magro, ágil, olhos sempre inquietos. O tipo que escutava tudo, sabia de tudo, e nunca esquecia nada. O apelido vinha da infância, quando sobreviver significava ouvir antes de agir. Negão era o oposto. Grande. Largo. Silencioso. Um muro de músculos e lealdade. Falava pouco, mas quando falava, era direto como um tiro. — Já tá complicado — murmurou n***o, cruzando os braços. — A questão é até onde você vai por ela. Kol não desviou o olhar de Kayte. Ela agora atravessava a rua, passando por um grupo de homens que pararam para encará-la. Nenhum se aproximou. Nenhum ousou. Não sabiam o motivo, mas sentiam — algo ali não devia ser tocado. Kol havia garantido isso. — Vocês dois são os únicos que sabem — disse ele, finalmente. A voz baixa, carregada de algo que não combinava com ele: tensão. — E vai continuar assim. — Kol… — Orelha suspirou. — A gente te conhece desde moleque. Você nunca protegeu ninguém assim. Nunca. Negão assentiu devagar. — Nem mulher. Nem família. Nem você mesmo. Kol cerrou o maxilar. Ele também se perguntava isso todas as noites. Kayte não fazia parte do mundo dele. E talvez esse fosse o problema. Ela era tudo o que ele não podia ter. Tudo o que ele não devia sequer olhar. Ainda assim, Kol sabia cada detalhe da rotina dela. Os horários. Os caminhos. Os lugares onde parava. As noites em que voltava mais cansada. Os dias em que parecia mais triste. E os perigos… Ah, esses ele eliminava antes mesmo que respirassem perto dela. — Se ela souber, vai odiar você — disse Orelha. — Mulher assim não aceita sombra atrás. — Eu sei — respondeu Kol, seco. Kayte odiaria saber que alguém controlava sua segurança sem permissão. Que alguém decidia quem podia ou não chegar perto. Que sua liberdade era, na verdade, uma ilusão cuidadosamente mantida. Mas Kol preferia o ódio dela… Do que o túmulo dela. — E se um dia ela for usada contra você? — n***o perguntou, finalmente, encarando Kol de frente. — Inimigos são criativos. O silêncio que caiu foi pesado. Kol virou o rosto lentamente. O olhar escurecido. — Quem tentar chegar nela… — ele pausou, a voz baixa, mortal. — Não vai ter tempo de pedir desculpa. Orelha engoliu em seco. Conhecia aquele tom. Lá embaixo, Kayte parou em frente a um pequeno mercado. Olhou em volta por instinto. Sentiu algo. Uma pressão estranha no ar. Como se estivesse sendo observada. Franziu a testa. Não viu nada. Nunca via. Ela entrou no mercado, e Kol relaxou apenas um centímetro — o suficiente para acender um cigarro. — Isso não é só proteção — murmurou Orelha. — Isso é obsessão. Kol puxou a fumaça lentamente. — Não — respondeu. — Obsessão é quando você quer possuir. Ele soltou a fumaça no ar, os olhos fixos na porta por onde Kayte tinha entrado. — Eu só quero que ela continue andando livre… mesmo que seja longe de mim. Negão desviou o olhar. Sabia. Aquilo não ia terminar bem. Porque o mundo de Kol era feito de violência, acordos sujos e mortes anunciadas. E Kayte era luz demais para sair ilesa quando esse mundo resolvesse puxá-la para dentro. O destino já tinha escolhido. E muito em breve, Kayte descobriria que: estava sendo protegida, estava sendo observada, e seria forçada a aceitar um casamento que não pediu… Tudo para sobreviver. Mas o amor que nasceria dali? Esse seria real. Perigoso. E totalmente secreto.
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