Kayte perdeu o trabalho numa tarde comum demais para mudar tudo.
Não houve escândalo.
Não houve grito.
Só um pedido frio, um “não vamos mais precisar de você” dito com falsa gentileza.
Ela saiu com a bolsa no ombro, a cabeça erguida e o coração pesado. Como sempre. Kayte não chorava em público. Não pedia explicações. Não implorava por nada.
Mas daquela vez, algo quebrou.
Nos dias seguintes, ela parou de sair de casa.
O bairro continuava o mesmo — barulhento, vivo, perigoso —, mas Kayte se fechou entre quatro paredes, tentando reorganizar a própria dignidade junto com as contas atrasadas e o orgulho ferido. Passava horas sentada na cama, olhando o nada, pensando em como recomeçar sozinha… de novo.
Ela não sabia, mas Kol percebeu no primeiro dia.
Percebeu quando ela não passou pela esquina.
No segundo dia, quando a janela ficou fechada.
No terceiro, quando a luz do quarto apagou cedo demais.
— Ela não saiu — disse Orelha, baixo, observando a casa dela de longe.
Kol ficou em silêncio. O maxilar travado.
Negão cruzou os braços.
— Alguma coisa aconteceu.
Kol sabia.
Mas não podia ir até ela.
Não podia se aproximar.
Ainda.
Dentro da casa simples, o clima pesava.
O pai de Kayte a observava do outro lado da mesa. Homem antigo, cansado, moldado por uma vida dura e por crenças que não acompanhavam o tempo. Para ele, uma mulher sozinha era uma mulher vulnerável demais.
— Kayte — ele começou, pigarreando —, você já tem vinte e três anos.
Ela levantou os olhos devagar.
— E daí, pai?
— Já passou da hora de casar — ele disse, firme. — Mulher sem marido sofre demais. Ainda mais nesse bairro.
Kayte sentiu o estômago revirar.
— Não, pai — respondeu, controlando a voz. — Casar não é pra mim.
Ele franziu a testa.
— Toda mulher casa.
— Eu não quero — ela rebateu. — Eu não quero depender de homem nenhum. Não quero ser presa dentro de uma casa, obedecendo alguém só porque é marido.
— Presa? — ele riu sem humor. — Presa é mulher sozinha, sem proteção.
Kayte se levantou abruptamente.
— Proteção não é prisão, pai. E eu não preciso de um homem pra me salvar.
A verdade era que ela tinha medo.
Não de ficar sozinha.
Mas de perder quem ela era.
Casamento, para ela, sempre significou grades invisíveis, silêncio forçado, sonhos abandonados. Kayte queria trabalhar, decidir, errar, levantar sozinha. Queria liberdade — mesmo que doesse.
Do lado de fora, escondido na sombra, Kol ouviu parte da conversa através da janela entreaberta.
Cada palavra dela o atingia como um soco.
“Não quero ser presa.”
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Ela é igual a você — murmurou Orelha. — Odeia jaula.
Kol abriu os olhos, escuros.
— E mesmo assim… — disse, com a voz carregada — o mundo vai tentar colocar uma nela.
Negão respirou fundo.
— A pergunta é: você vai ser a jaula… ou o escudo?
Kol não respondeu.
Dentro da casa, Kayte entrou no quarto e fechou a porta com força. Encostou-se nela, sentindo as pernas fraquejarem.
Ela não sabia que estava prestes a perder muito mais do que um emprego.
Não sabia que a liberdade que defendia com tanta força seria usada como moeda.
Não sabia que, em breve, um homem que ela nunca quis perto… seria a única saída.
E Kol, observando da escuridão, finalmente tomou uma decisão que mudaria tudo.
— Preparem tudo — disse ele, baixo. — Se ela cair… o mundo dela cai junto comigo.
Porque o ódio estava perto.
O casamento falso já começava a se desenhar.
E o amor… esse viria do jeito mais perigoso possível.