EPISODIO 11

1701 Palavras
O homem desconhecido estava me olhando de cima a baixo agora, com um rosto que não consegui distinguir. Os seus olhos pararam no sangue que já havia parado de jorrar do meu pescoço e ainda estava molhado no meu moletom. Quando os nossos olhares se encontraram, comecei a tremer. Não importa o quão bem você se esconda, eles sempre podem te encontrar se quiserem. Eu me perguntei se ele tinha vindo me matar, embora o seu rosto, como o meu, foi uma surpresa total. Ele era muito mais forte, pelo menos 100 quilos de músculo, mais barbado e mais espesso. Aos 16 anos, ele quase não tinha pelos faciais, agora ele tinha muitos. O seu cabelo ainda estava um pouco comprido, agora preso num r**o de cavalo baixo, com algumas mechas escapando. Ele estava vestido de uma forma muito elegante, que eu nunca teria pensado que ele poderia gostar. Sob toda aquela fachada que emanava poder e violência, havia algo que não havia mudado, o rosto mais lindo que eu já tinha visto e os mesmos olhos castanhos, de quem quer que fosse meu melhor amigo. Por alguns segundos pensei ter visto o mesmo reconhecimento neles, mas não havia nenhum sentimento presente no seu rosto. Embora ele sempre tivesse sido muito bom em esconder isso, eu me perguntei se isso também teria mudado. A maioria das pessoas pensa que ele é arrogante e convencido, e não estou dizendo que ele não seja nem um pouco disso, mas no fundo também existe um menino sensível e bom, que sempre cuida da sua família e que é muito mais inteligente do que as pessoas pensam. Eles não param para conhecê-lo, porque é muito mais fácil ver tudo sozinho. Com certeza era muito mais fácil para eles me esquecerem, porque nós éramos os bandidos e eles sempre tinham um ao outro. Por que eles se lembrariam de uma garota que nem era da família deles? Eu nunca descobri onde Olivia estava naquela noite. Eles nunca me deixaram perguntar. Eu tentei descobrir tudo de Gavril, mas as únicas coisas que ele me disse foram para me magoar, como o fato de Antonio estar noivo, provavelmente casado agora. O dia em que ele me disse isso, fiquei bêbada e perdi a virgindade. Eu nem sabia se Oleg estava enterrado. Talvez eles o tenham deixado deitado em qualquer lugar como um cachorro. Talvez nas fundações de um prédio entre o cimento ou, no fundo do mar. Daniel gesticulou para que eu entrasse no carro e abriu a porta traseira. Eu sabia muito bem que já tinha perdido, que não adiantava mais correr e gritar, eram três contra um e no meu bairro, mesmo que passasse alguém na rua, eles não iriam tentar me ajudar, as pessoas aqui, geralmente se mete em problemas para os outros. Entrei e sentei o mais próximo que pude da janela oposta, esperando Gavril ocupar o lugar ao meu lado, mas foi Daniel quem ocupou aquele lugar. O silêncio foi absoluto por 20 minutos, eu podia até ouvir o meu coração batendo nos meus ouvidos, imaginando se mais algum irmão Volkov estava por perto. Eu tinha ouvido histórias sobre eles de Gavril ou de outros durante anos quando ele estava operando em Los Angeles ou Las Vegas, afinal, eles são os chefes do império. Eu sabia que Nikolai passou um ano preso e que quando saiu era um assassino letal, muitos já achavam que ele era o melhor Dom que a Irmandade Volkov poderia ter. Antonio também passou um tempo na prisão. Eu também sabia que Antonio era o executor mais c***l que eles tinham visto em anos, um amante da tortura e da violência. Disseram que só gostava de matar e que era é o irmão mais inteligente e calculista, perfeito para arquitetar vinganças. A ideia não me tranquilizou muito. Não falavam muito de Daniel e, quando falavam, sempre o comparavam aos irmãos. Ele é muito forte e tenho certeza que já matou também, mas as histórias sobre ele estão mais relacionadas à sua fama de galã e às vezes por ter dormido com mulheres com quem não deveria. Mulheres casadas com outros membros da Bratva, embora ele sempre conseguisse sair da situação. Eu queria saber se ele continuaria fazendo isso. Ele nunca foi capaz de ser fiel ou de manter as mãos afastadas. Gavril me disse anos atrás que os três haviam feito uma promessa de me matar se me encontrassem novamente, porque disseram que Oleg atirou em Olivia na noite do ataque à casa dela, então era justo. — Disseram-me que você não fala russo muito bem. Daniel me disse numa voz que novamente não continha nenhum sentimento, nenhum reconhecimento. O seu sotaque era ainda mais forte quando falava em inglês. Ele falava comigo com muita gentileza, sem gritar e a única coisa que me transmitia era calma. Respondi apenas com um movimento de cabeça, toda aquela situação me dominava e às vezes parecia que ia desmaiar. Eu realmente mudei tanto nesses seis anos que ele não me reconheceu? — Temos que levar você a um lugar para que você atenda algumas pessoas. Já me disseram que você tem experiência com ferimentos de bala. Ele me disse Foi muito difícil para mim manter o meu olhar. Eu nunca fui tão boa quanto eles fingindo. Toda vez que ele falava comigo, eu sentia uma pontada no peito. Novamente respondi afirmativamente com a cabeça. — No começo ela era apenas uma assistente de sala de cirurgia, mas o Dr. Petrov, médico residente do Los Angeles Bratva e uma eminência no mundo da cirurgia em geral ele a orienta há anos. Gavril respondeu por mim, como se eu não estivesse lá, provavelmente farto de não ser o centro da conversa. O doutor Petrov sempre me disse que fui a melhor aluna que ele já teve. A minha especialidade como a dele são ferimentos à bala. Quero dizer na Bratva, porque na vida real, quando tudo acabar, eu gostaria de ser um cirurgia cardíaca ou uma cirurgia pediátrica. Já vi sangue suficiente por toda a vida e deveria me tornar uma médica de família ou uma cirurgia plástica, ganhar muito dinheiro por alguns anos e desaparecer. Daniel nem respondeu. O seu olhar ainda estava fixo em mim. Agora empoleirada no hematoma que já devia estar marcando a minha bochecha, cada segundo que passava doía mais, senti o golpe mesmo quando pisquei. Depois de tantos anos eu já deveria estar acostumada com golpes assim, um ano sem senti-los fez quase eu esquecer como era. Claro que Gavril tinha que vir me lembrar. — O meu nome é Daniel Volkov, o seu é? Perguntou o meu ex-melhor amigo, agora aparentemente desconhecido, quase num sussurro. Dessa vez resolvi responder, para ele não pensar muito. Fiquei tão chocada que nem consegui falar. — Anna, o meu nome é Anna Winter. Não fui muito esperto quando mudei de nome quando cheguei, mas a verdade é que só tive umas horas para pensar num novo nome, e nunca imaginei que voltaria a cruzar-me com alguém da Bratva. Ou eu teria escolhido um muito mais elaborado. Quando eu disse a ele meu nome, notei uma pequena reação, mas em segundos o seu rosto novamente não me deixou ver mais nada. O meu sobrenome é uma tradução literal do russo 'Zima' para o inglês e Anna é simplesmente o meu nome real, na Rússia usava apenas o diminutivo. No dia em que escolhi o meu nome pensei até, por um momento, em colocar Wolf, que é a tradução de Volkov. Nunca fiquei tão feliz por não ter feito isso. — Anna, estamos numa situação de emergência e você não pode ver para onde estamos indo, tenho que vendar você. Daniel me disse novamente com sua voz calma. Não era incomum para a Bratva, mas eu não conseguia parar de tremer. Eu seria vendada por um dos homens que o meu pai traiu, e que poderia ser o assassino de Oleg. Eu só queria sumir e aparecer na minha cama e provavelmente adormecer chorando em posição fetal. E se for Alex quem os enviou para me matar e estiver esperando em outro lugar, que ameaça posso representar para ele depois de tantos anos? — Não vamos machucar você. Ele me disse, adivinhando os meus pensamentos. Precisamos urgentemente de um médico, é só isso. Mais uma vez, as suas palavras me acalmaram, mas enquanto as dizia, tirava um lenço preto de um dos bolsos. Imagino que era normal levar com ele quando você está na máfia e sequestra pessoas todos os dias, mas isso me causou muita ansiedade. Daniel se aproximou o suficiente no banco para amarrar o lenço sobre os meus olhos. O pano era perfeito para isso, não dava para ver nada. — Ainda falta um tempo até chegarmos lá, tente descansar. Ele me disse novamente com a sua voz suave e mais profunda do que quando éramos pequenos. O aquecimento havia aumentado, mas eu ainda estava com muito frio, a adrenalina estava diminuindo e eu já estava sentindo todos os golpes. O cansaço estava tomando conta de mim, mas eu não queria baixar a guarda. Algo macio e quente, imaginei um cobertor, apareceu de repente no meu colo. Achei que teria sido Daniel, Gavril nunca se incomodaria em me dar algo para me aquecer. A sua mão roçou a minha quando ele colocou em mim e deixou mais tempo do que o necessário, isso era um sinal? Eu não queria aceitar nada deles, mas acabei espalhando um pouco mais em mim, de tanto frio que eu estava. Pelo menos desta vez as minhas mãos não estavam amarradas. Me enroscar no cobertor era a última coisa de que me lembrava antes de acordar em algum tipo de fazenda. No meio sonhei que tínhamos viajado de helicóptero, embora fosse real demais para ser só isso. No sonho, Daniel me pegava no carro e me sentava no meio do banco, sussurrando para mim que eu poderia voltar a dormir e sentava ao meu lado novamente. Devo ter adormecido chorando porque quando acordei a venda estava encharcada, pela primeira vez fiquei feliz por terem vendado os meus olhos e não terem visto as minhas lágrimas.
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