EPISODIO 10

1272 Palavras
Talvez os meus amigos ainda estejam no bar, posso perguntar se alguém me deixa dormir na sua casa. Pensei. Só voltei mais cedo porque estava muito cansada e um pouco de saco cheio, eles entenderiam isso, mas como justificar o fato de estar sendo perseguida por um russo tatuado? Eu não conseguia nem inventar uma história plausível. Em segundos Gavril conseguiu me agarrar pelos cabelos e me empurrou com força contra o portal de um dos prédios. Aparei com o ombro em vez da cabeça, mas ainda assim caí no chão. Saquei a faca o mais rápido que pude, mas ele começou a rir quando me viu. — É muito perigoso portar uma arma quando não se sabe como usá-la e quando não se tem coragem de usar. Os seus olhos brilhavam com pura raiva enquanto ele falava comigo. Eu estava tentando tanto não chorar, mas não conseguia mais. Não é que eu seja fraca, era de dor. O meu ombro, as minhas costas, a minha cabeça doíam e eu sabia que ele não ia parar. Eles vão me levar para o hospital desta vez ou alguém como eu vai me curar, outro estudante de medicina que teve que fazer um pacto com eles? Gavril estava cada vez mais perto e eu não conseguia parar de tremer. Ele estava certo, não sei usar a faca. Se eu tivesse uma arma tudo seria mais fácil. Ainda assim, consegui cortar o seu braço, embora com ele me bloqueando eu não tivesse força suficiente para afundar a faca. Mesmo assim, apliquei o máximo de pressão possível para causar o máximo de dano possível. Ele era grande demais para eu ter uma única opção. Em segundos ele me colocou contra a parede e com a faca no meu pescoço. — Você é uma p*uta ingrata como a sua mãe. Ele me disse quase sem fôlego, tanto álcool o fez perder a forma. O seu cheiro de drogas com álcool estava em toda parte agora, ele respirava com dificuldade e o seu olhar de puro ódio me fizeram estremecer. Ele não estava pressionando, se fizesse eu já estaria morta, mas ele havia me cortado um pouco com a lâmina e podia sentir o sangue escorrendo pelo meu peito. Ele seguiu o rastro de sangue com os olhos, a sua expressão a mesma assombrada com a qual ele me observou por mais de dez anos, mesmo enquanto morávamos em Moscou. — Se eu forçar um pouco mais, Anna, isso acaba. Claro que seria uma pena matar uma coisa bonita como você. A sua respiração estava muito perto do meu rosto e era ainda mais nauseante do que eu lembrava. — Você vai vir comigo agora e vai se comportar. Não quero uma palavra, nem um grito, nada. Você vai fingir que m*al me conhece e que não me viu nesses anos e não vai dizer uma palavra sobre o seu pai, se você fizer, você está morta. — As pessoas que você vai atender vieram de Moscou. Lembre- se de que não perdoamos traidores. Você é americana, não fale russo na frente daqueles homens. Você pode conhecer alguém, mas não vai dizer nada. Na verdade, eu não entendi muito bem o que ele estava me dizendo. Por um momento me perguntei se o golpe estava realmente me afetando. Ele me disse como se eu ainda pudesse falar russo fluentemente, o meu cérebro preferiu bloquear. Às vezes eu continuo ouvindo alguma palavra, mas apenas nos meus sonhos. Quase sempre quem fala comigo é o Oleg. Outras vezes ouço a voz rouca de Antonio, mas ele só diz o meu nome, aquele que eu tinha antes de vir para os Estados Unidos, o verdadeiro. — E se alguém me reconhecer? Eu digo num sussurro, imaginando tudo o que eles poderiam fazer comigo se algum m****o da Bratva de Moscou descobrisse quem eu era. Traição e fuga? Todo mundo sabe que você só pode sair morto da máfia russa. Sam, o novo chefe da Bratva em Los Angeles e o meu tio, até agora garantiu que quase ninguém que conhecesse bem o meu pai me visse em Las Vegas. Foi fácil, quase não havia ninguém. Isso fazia parte do acordo, para que eu pudesse recomeçar este ano e construir uma vida para mim. — Muitos homens não vão, e quem quer que reconheça, eu prometo a você, eles não vão dizer nada. Você vem comigo, vai salvar o meu filho, vai me fazer mais um favorzinho e depois vai embora. Ele me disse com os olhos raivosos. — Você me deve muito Nina, também por ter sustentado a sua mãe todos esses anos, você não quer que nada aconteça com ela, quer? Novamente outra da suas ameaças veladas, com as quais ele apenas faz você querer perguntar a ele o que mais poderia acontecer com ela. A lâmina da faca agora brincava no meu maxilar e eu só conseguia pensar porque não tinha me matado até agora, pensei que dessa vez eu teria um pouco mais de silêncio. Ao longo destes anos, por vezes, gritei para ele 'fazer', mas a verdade é que não é bem o que penso. Quero viver e fazer todas as coisas que ainda tenho que experimentar, conhecer outros países, me apaixonar de novo de verdade, se possível, ter uma vida longa e feliz e uma família. Hoje deveria ser o dia mais feliz da minha vida, pensei enquanto o meu sangue continuava a escorrer pelo meu pescoço. Um dia de libertação depois de finalmente deixar a Bratva para trás. Gavril estava me arrastando pelo braço, os seus dedos cavando como garras na minha pele. Quase na entrada do meu prédio, esperava um carro preto, o típico carro que a máfia russa. Eu não sabia se teria mais medo que ele tivesse vindo sozinho ou que ele tinha vindo com essas pessoas. Não reconheci nenhuma das pessoas no carro como membros da Bratva em Las Vegas ou Los Angeles, então só podiam ser de Moscou. Gavril andava cada vez mais rápido e era difícil para mim acompanhá-lo, ele praticamente me arrastava, me empurrava e me sacudia, com a mão o tempo todo apertando o meu pescoço e segurando a minha cabeça para baixo. Eu não conseguia ver quase nada e era difícil para mim respirar. O meu ombro doía e estava frio. Uma única lágrima escorreu pelo meu rosto quando chegamos ao carro. A única que pela dor não tinha conseguido conter. O homem que estava no banco do passageiro desceu e começou a falar rapidamente em russo com um sotaque bem característico, com certeza tinha acabado de chegar da Rússia. O sotaque da minha avó soava quase o mesmo, e a sua voz era um pouco familiar. A única coisa que entendi foi meu nome e a palavra doutor, sempre achei o russo uma língua linda. Agora só quero nunca mais ouvir isso. Eu m*al ousava levantar a cabeça do chão, mas pelo que pude ver, Gavril parecia ter uma altura normal ao lado dele, apesar de ser meia cabeça mais alto que eu. Aquele homem, que devia ser apenas alguns anos mais velho do que eu, ou talvez da minha idade? Tinha quase dois metros de altura e costas enormes. Se Gavril levasse alguns minutos para me derrubar, ele certamente o teria feito em segundos. Ele teria chutado a minha porta e ela teria explodido em pedaços. Ele continuou gesticulando e a sua voz estava ficando cada vez mais alta, mas parecia que o objeto da sua raiva era Gavril e não eu. Este me soltou imediatamente e se afastou um pouco de mim.
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