Capítulo 3

821 Palavras
O carro preto parou diante de um portão alto, de ferro trabalhado, ladeado por muros cobertos de hera. O motorista, que não dissera uma única palavra durante toda a viagem, tocou um botão discreto e esperou. Isla apertava a alça da bolsa como se aquilo fosse impedir seu peito de desabar. Os portões se abriram lentamente, revelando uma estrada pavimentada que atravessava um bosque bem cuidado. Árvores alinhadas dos dois lados pareciam vigiar o caminho como sentinelas silenciosas. Ao final da trilha, surgiu a mansão Marchesi. Imensa. Impecável. Intimidadora. A fachada de pedra clara se erguia com colunas robustas e janelas altas, como um castelo moderno que deixava claro — aqui, você é apenas mais uma peça no jogo dele. O carro parou e, antes que Isla pudesse pensar em recuar, a porta foi aberta. — Srta. Ferraro? — uma mulher aguardava do lado de fora. — Seja bem-vinda. Ela usava um uniforme preto impecável e os cabelos grisalhos estavam presos em um coque firme. Sua expressão era neutra, quase hostil. — Sou Sra. Donatella, governanta da residência. Siga-me, por favor. Isla engoliu em seco e saiu do carro. Ao cruzar a entrada, sentiu o ar mudar. O mármore do chão refletia a luz suave dos lustres. Cada móvel parecia de museu — polido, caro, sem vida. — Suas refeições serão servidas nos horários estipulados. O cardápio será ajustado conforme orientação do médico particular do Sr. Marchesi. Atividades físicas leves são permitidas. Contatos externos serão restritos. O quarto de hóspedes dois foi preparado para você. Toque o sino apenas se necessário. Isla apenas assentia, sentindo-se cada vez menor. — Há regras aqui, Srta. Ferraro. O Sr. Marchesi exige silêncio, pontualidade e… compostura. Recomendo que as siga à risca. A escada principal subia em espiral, e Isla seguiu a governanta por corredores que mais pareciam de um hotel cinco estrelas. Pararam diante de uma porta de madeira branca com detalhes dourados. — Este é seu quarto. Donatella abriu e deixou que Isla entrasse. O ambiente era bonito, mas frio. Tudo em tons neutros — bege, cinza e marfim. Uma cama grande, armário embutido, cortinas pesadas, e uma única poltrona perto da janela. Sobre a cama, um conjunto de roupas dobradas perfeitamente a aguardava. — O Sr. Marchesi chegará esta noite. Até lá, recomendo que descanse. — A governanta fechou a porta sem esperar resposta. Sozinha, Isla largou a mala no chão e se sentou na beirada da cama. A pressão nos ombros era quase física. Ali, naquela casa silenciosa e elegante, ela não era Isla Ferraro, estudante de enfermagem. Era apenas um corpo com um contrato assinado. E ele estava prestes a vir buscá-lo. Isla andou até a janela. Lá fora, os jardins se estendiam como um quadro pintado com perfeição — grama cortada milimetricamente, arbustos esculpidos, flores plantadas em ordem estratégica. Nenhum traço de vida espontânea. A casa era linda. Mas não era um lar. Ela se levantou e foi até o banheiro anexo. Mármore branco, metais dourados, cheiro de lavanda no ar. O espelho era grande demais. E não refletia apenas seu rosto — refletia sua insegurança, o medo, a sensação de estar prestes a perder o controle. Ligou o chuveiro. A água morna caiu sobre seus ombros como um abraço que ela não tinha. Não chore agora, ela pensou. Você já tomou a decisão. Só cumpre. Só aguenta. Só respira. Depois do banho, Isla vestiu as roupas deixadas sobre a cama: uma calça de tecido leve e uma blusa branca simples. Nenhuma renda, nenhum decote — tudo neutro. Como se já soubessem que ela não deveria parecer… desejável. Ou, pior, como se o contrário fosse exatamente o que ele queria evitar por enquanto. Um leve toque na porta a despertou de seus pensamentos. — Jantar servido, senhorita Ferraro — disse uma voz atrás da madeira. Ela desceu as escadas com passos tímidos. A sala de jantar era grande demais para uma só pessoa. Uma mesa comprida de madeira escura, louças finas, taças alinhadas. Ao centro, um prato fumegante a esperava, já servido. Ela se sentou. Comeu devagar. O estômago apertado rejeitava cada garfada, mas ela insistia. Precisava manter-se forte. Quando terminou, voltou ao quarto. Já era noite. Ela se sentou na poltrona e ficou ali por longos minutos, com os dedos entrelaçados no colo. O relógio marcava 21h13. A cada som vindo dos corredores — um passo, uma porta, o estalar distante do piso de madeira — o corpo de Isla se enrijecia. Ele viria? Ela não sabia se esperava por isso… ou temia. Quase às 22h, ouviu a movimentação no térreo. Portas abrindo. Vozes abafadas. E passos firmes, ritmados, subindo a escada. Ela ficou de pé. Os passos se aproximavam. Pararam diante da porta. O coração de Isla batia tão alto que ela achou que ele ouviria do outro lado. Uma batida firme. Duas. Ela não respondeu. A maçaneta girou. A porta se abriu. E Darian Marchesi entrou.
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