Capítulo 2

964 Palavras
O corredor branco do hospital estava silencioso demais para o coração acelerado de Isla. Seus passos ecoavam no chão encerado como um lembrete: ela havia assinado. Havia dito sim. O contrato estava dentro da bolsa, dobrado, escondido… mas pesava como se fosse feito de ferro. Ela parou diante da porta 213 e respirou fundo antes de abrir. Lá dentro, a luz fraca iluminava o quarto pequeno, o som do monitor cardíaco pulsando em um ritmo calmo. E ali, deitada sob um cobertor azul claro, estava Ava Ferraro. — Isla! — a voz da menina se iluminou ao vê-la. Mesmo pálida, com os cabelos ralos e os olhos um pouco fundos, Ava sorria como se nada no mundo estivesse errado. Isla forçou um sorriso e entrou, sentando-se na beirada da cama. — Trouxe seu suco favorito — disse, tirando da bolsa uma caixinha de maçã. — Você é a melhor irmã do mundo — Ava disse, pegando com as duas mãos fracas. — Mas… por que tá com essa cara? — Que cara? — A que você faz quando vai dizer algo que eu não vou gostar. Isla riu baixo, tentando disfarçar a lágrima que ameaçava subir. Pegou a mão da irmã entre as suas. — Ava... eu consegui um emprego. — Sério? — os olhos da menina brilharam — Onde? — É… um trabalho temporário. Em outra cidade. Um contrato com pagamento adiantado. — Nossa! Mas… você vai ter que viajar? Isla assentiu, sentindo um nó se formar na garganta. — Vou precisar ficar alguns dias fora. Mas você não vai estar sozinha, tá? Já falei com a enfermeira Talita, ela vai vir todo dia. E eu vou ligar, sempre que puder. Ava franziu a testa. — Mas... por quê agora? Logo agora? Isla respirou fundo e sorriu, mesmo com os olhos começando a se encher. — Porque… eu consegui o dinheiro pro seu tratamento, Ava. Todo ele. Você vai poder começar já na semana que vem. A boca da irmã se abriu em choque. — Você tá falando sério? Isla assentiu, engolindo o choro. — Estou. Consegui tudo. Você vai ter a chance que merece. Eu prometi que faria isso acontecer, lembra? Ava se levantou um pouco na cama, emocionada. — Isla… como? Que tipo de emprego paga assim? Isla desviou o olhar e deu um sorriso fraco. — Um que exige muita coragem. Ava não perguntou mais. Apenas se jogou nos braços da irmã, abraçando com toda a força que tinha. Isla segurou a irmã com cuidado, o queixo pousado sobre a cabeça dela, como fazia desde pequena. O cheiro dela, a respiração suave, o calor do abraço… tudo aquilo seria sua força nos próximos dias. Ela não disse que estaria vendendo o corpo. Nem que estaria à mercê de um homem que a via como uma ferramenta. Nem que aquele “emprego” a apavorava mais do que qualquer coisa. Ela só disse: — Eu te amo, Ava. E volto logo, tá? Ava apertou mais forte. — Também te amo. Muito. Vai dar tudo certo. Isla fechou os olhos. Que bom que ao menos uma de nós acredita nisso. O céu começava a escurecer quando Isla saiu do hospital. O ar lá fora estava abafado, pesado — ou talvez fosse só o reflexo do que ela sentia por dentro. A cidade seguia seu ritmo alheio: buzinas, passos apressados, vozes atravessando a calçada. Tudo seguia normalmente… enquanto a vida dela mudava de rumo para sempre. A cada passo em direção ao ponto de ônibus, Isla se sentia menos ela mesma. Como se deixasse partes de si pelo caminho. Ao chegar em casa — um pequeno apartamento no quinto andar de um prédio antigo — foi recebida pelo silêncio. As paredes pálidas, os móveis simples, os livros de enfermagem empilhados no canto… tudo ali era familiar. Tudo ali era seguro. Ela fechou a porta devagar e recostou-se nela, por um instante permitindo que o peso desabasse. Respirou fundo e passou as mãos pelo rosto. — Só alguns meses, Isla — murmurou para si mesma. — Depois tudo volta ao normal. Ava vai ficar bem. Você vai voltar. Vai terminar a faculdade. Vai esquecer isso. Mas nem ela acreditava. Seguiu para o pequeno armário no quarto. Pegou uma mala velha e começou a dobrar algumas roupas: pijamas, camisetas, roupas íntimas, escova de cabelo. As mãos tremiam levemente. Por impulso, levou uma blusa de lã azul que Ava tinha lhe dado no último aniversário. Não sabia por que… talvez por precisar de algo que a fizesse lembrar quem era. Separou também os medicamentos da irmã e colocou em uma sacola para deixar com a enfermeira Talita na manhã seguinte. Na escrivaninha, viu um porta-retrato com uma foto das duas — ainda mais novas, sorrindo, com os pés na água de uma fonte pública. Pegou o objeto e o abraçou contra o peito por alguns segundos. Ela estava indo embora. Por um tempo… ou por muito mais do que isso. O celular vibrou. Era um número desconhecido. Atendeu com hesitação. — Srta. Ferraro — disse a voz formal de uma mulher — aqui é Alessia, assistente pessoal do Sr. Marchesi. O carro estará na sua porta às 8h da manhã. Recomendamos que traga apenas o essencial. O restante será providenciado por nossa equipe. Isla engoliu em seco. — Está bem… obrigada. — E um lembrete — a voz acrescentou antes de desligar — a mansão segue regras específicas. Ao chegar, será orientada pela governanta. Pontualidade e discrição são esperadas. A ligação caiu. Isla soltou o ar devagar, olhando para a mala aberta sobre a cama. Ela não sabia o que esperar da mansão. Não sabia o que esperava de si mesma. Mas sabia que, a partir daquela noite, sua vida não pertencia mais só a ela.
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