O relógio marcava 18h47 quando Isla Ferraro apertou os papéis dobrados entre os dedos, tentando impedir que eles tremessem mais que suas pernas. As portas de vidro refletiam o arranha-céu inteiro atrás dela, engolindo a cidade numa névoa dourada de fim de tarde. Ali, no 39º andar da Marchesi & Co., tudo parecia mais limpo, mais caro, mais… inalcançável.
Como ela tinha vindo parar ali?
A resposta ainda queimava em sua mente: Ava precisa do tratamento. E eu não tenho mais tempo.
Sua irmã, de apenas 16 anos, havia sido diagnosticada com uma doença degenerativa rara. O tratamento experimental era sua única chance — mas custava mais do que Isla poderia juntar em uma vida inteira. Até aquele anúncio aparecer.
“Procura-se mulher entre 20 e 25 anos, saudável, sem histórico de doenças familiares. Discrição, sigilo absoluto. Pagamento milionário. Contato por meio restrito.”
A princípio, Isla achou que fosse uma pegadinha. Mas quando respondeu, recebeu instruções precisas, exames exigidos, um número de protocolo… e agora, estava ali, sentada em uma sala luxuosa, com vista panorâmica da cidade e cheiro de madeira polida e poder.
“Srta. Ferraro?”
Ela se virou, engolindo o nervosismo. A mulher que surgiu à porta vestia preto dos pés à cabeça, com cabelo preso em um coque perfeito e expressão inalterável.
— O Sr. Marchesi vai vê-la agora.
Isla levantou-se de um salto. O coração batia tão forte que ela achava que o prédio inteiro podia ouvir.
Caminhou por um corredor silencioso, onde cada passo parecia ecoar com julgamento. Até que a mulher abriu outra porta, mais alta, mais pesada… e o ar mudou.
O escritório dele era amplo, elegante, com tons sóbrios e uma aura que misturava poder com ameaça silenciosa. Mas nada ali chamava mais atenção do que o homem de pé junto à janela.
Darian Marchesi.
Ele se virou devagar, como se já soubesse que ela o observava. Alto. Impecável. Terno preto, gravata escura, o cabelo n***o penteado para trás de forma displicente. E aqueles olhos cinzentos — frios, atentos, perigosos.
Isla prendeu a respiração.
— Srta. Ferraro — ele disse, a voz grave e pausada como quem está acostumado a ser obedecido. — Sente-se.
Ela obedeceu, engolindo em seco.
— Você leu as condições básicas antes de vir até aqui?
— Sim, senhor.
— E mesmo assim aceitou estar diante de mim.
Ela hesitou.
— Eu... só preciso do dinheiro, senhor.
Ele deu um leve sorriso, sem humor. Caminhou até a mesa e pegou uma pasta de couro preto. Abriu-a, puxando folhas com marcas d’água e selos dourados.
— Aqui está o contrato. Leia tudo com calma. Há cláusulas que podem chocar você.
Ela tentou manter a compostura, mas as mãos tremiam quando pegou os papéis. Leu a primeira página. Depois a segunda. E parou na terceira, onde os olhos vacilaram.
“A concepção será feita de forma natural. Relações clínicas ou laboratoriais não serão utilizadas.”
— Isso… — ela murmurou, sentindo o rosto esquentar — ...isso é mesmo necessário?
Darian se inclinou para a frente, os olhos cravados nos dela.
— Eu não confio em laboratórios. Já perdi o suficiente por confiar em terceiros. Tudo será feito sob meu controle. Inclusive isso.
Ela segurou o papel com mais força. As palavras se embaralhavam, mas o rosto da irmã vinha à sua mente como uma súplica silenciosa.
Darian a observava como um predador paciente. E quando Isla finalmente levantou o olhar, ele completou:
— Se você quiser salvar sua irmã, Srta. Ferraro... vai ter que me dar o que eu quero.
Isla abaixou os olhos para o contrato novamente. As letras pareciam dançar sob seus olhos marejados.
“Virgem. Método natural. Residência supervisionada.”
A garganta apertava como se algo estivesse preso ali — e talvez estivesse. Seu orgulho, sua dignidade... ou sua coragem.
— Eu entendo que os termos sejam... invasivos — Darian disse, quebrando o silêncio pesado. — Mas não estou procurando uma relação. Só um filho. Biologicamente meu. Legalmente meu. E criado sob os meus valores.
— E... e a mãe?
Ele não hesitou.
— Irrelevante.
A palavra cortou como uma lâmina.
Isla quis levantar e ir embora. Quis dizer que ele era um monstro arrogante, frio, manipulador.
Mas o rosto de Ava surgiu de novo em sua mente. A irmã, com os fios de cabelo caindo. O sorriso fraco. O tempo acabando.
— E se eu mudar de ideia no meio disso? — perguntou baixinho.
Darian se recostou na cadeira de couro, cruzando os braços.
— Está tudo aí, cláusula quatro. Você devolve o valor recebido, e o contrato é anulado. Mas saiba que isso significa abandonar sua irmã à própria sorte. Porque nenhum hospital de elite aceitará você novamente depois disso. Eu garanto.
Ele sabia. Sabia do desespero dela. Sabia que ela estava encurralada. E usava isso.
Isla mordeu o lábio com força. A caneta prateada estava sobre a mesa. Brilhava, fria como ele. E ela sabia que, ao segurá-la, não estaria só assinando um papel.
Estaria assinando o fim da sua liberdade. Do seu corpo. Talvez... do seu coração.
Ela respirou fundo.
— Se eu disser sim... — começou, hesitante — ...como vai ser?
Darian apoiou os antebraços na mesa, inclinando-se levemente. A voz saiu baixa, firme e carregada de intenção.
— Você vai para uma das minhas casas amanhã. Vai se alimentar bem, fazer todos os exames que meu médico solicitar, e vai dormir na cama que eu escolher.
Quando eu disser que chegou a hora... você estará pronta.
O estômago de Isla revirou. Era mais do que um contrato. Era controle. Total.
E mesmo assim, as palavras saíram.
— Então... me dê a caneta.
Darian não sorriu. Apenas deslizou o objeto até ela, os olhos cravados nos dela com uma intensidade que quase queimava.
Isla segurou a caneta com mãos trêmulas. Levou até a linha marcada com seu nome.
Assinou.
Em silêncio, Darian pegou o contrato, girou para o lado dele e assinou também.
Quando terminou, empurrou a pasta para o lado. Ficou apenas olhando para ela, como se a estivesse avaliando.
Como se, agora que ela era dele, não tivesse pressa.
— Parabéns, Srta. Ferraro — ele disse, levantando-se. — Você acabou de vender seu corpo... e talvez sua alma.
Ela também se levantou, sem conseguir sustentar o olhar dele por muito tempo.
— Não vendi nada — respondeu, com a voz mais firme do que imaginava. — Eu fiz uma escolha. Por alguém que eu amo. Algo que você claramente não entende.
Ele parou. O olhar dele ficou levemente mais estreito, como se as palavras dela tivessem tocado algo que ele mantinha trancado.
Mas não respondeu.
— Amanhã, 9h. Estarei esperando. Não se atrase.
E então ele saiu da sala, deixando Isla sozinha com a pasta, a vista milionária e a certeza de que sua vida nunca mais seria a mesma.