Livia O vestido chegou dentro de uma caixa sem marca, preto como noite sem lua, tecido gelado que escorregou entre meus dedos quando levantei a tampa. No fundo, um cartão com letra inclinada: “Venha sozinha, ou corto o fio.” O estômago virou. Fio de quê? Da luz? Da minha respiração? Do que prende a vida ao corpo? O cheiro do papel tinha algo de ferrugem — o mesmo cheiro do Pulmão que Micael trouxe grudado nele quando voltou. Eu sabia que era isca. E, ainda assim, minhas mãos já procuravam o zíper. Micael entrou no quarto antes que eu fechasse a caixa. Olhos frios, mandíbula dura. Ele leu o bilhete sem tocar. — Você não vai sozinha. — Se eu não for, ele corta o fio. — devolvi, tentando que minha voz não tremesse. — E se eu for, a gente puxa o dele. Ele se aproximou, e por um segundo o

