Micael O recado do morto não me deixou em paz: “Ele dorme onde a cidade não respira.” No meu mapa mental, isso tinha nome. Um prédio abandonado no alto do Maré, antigo centro de ventilação de uma obra que nunca saiu do papel. A boca do povo chamava de Pulmão — ironia: ali dentro o ar pesava como concreto. Rafael encostou o fuzil no peito, máscara preta cobrindo metade do rosto, olhos inquietos como sempre foram desde moleque. — Você tem certeza? — ele perguntou, baixo. — Eu não erro dois passos seguidos. — respondi. — Hoje a gente tira o sono de F. Descemos do carro sem luz, cortando por trás do cemitério de ônibus. O Pulmão se erguia cinzento, janelas vazias, respiração presa. Chão de cacos, ferrugem com cheiro de água velha. Dei o primeiro passo e o eco respondeu. Sinalizei: luzes b

