Livia O céu ainda era um cinza de cortina quando acordei com um cheiro de maquiagem antiga, algo entre pó de arroz e lembrança. Demorei a entender de onde vinha, até que meus olhos pousaram na penteadeira: um batom que quase nunca uso — vinho fechado, cor de vinho derramado no mármore — estava deitado ao lado do espelho, sem a tampa. O espelho, por sua vez, trazia um rabisco feito com o próprio batom, letras inclinadas como quem escreve num trem em movimento: Teus lábios me devem um adeus. — F. Senti a garganta apertar. O quarto estava trancado por dentro. O vidro da janela não mostrava marcas. Só o vermelho no espelho e a memória recente do perfume deixado no peitoril. Eu, que aprendi a distinguir ameaça de teatro, soube na hora: “F.” tinha voltado a encenar, e eu era o cenário. Pegue

