Micael O cheiro metálico do sangue seco e do álcool medicinal ainda impregnava minha pele quando acordei naquela noite. Os pontos em meu ombro queimavam; o braço latejava com a memória do último tiroteio. Mas foi outro tipo de dor que me arrancou da cama, a que pulsa silenciosa, corroendo por dentro: o pressentimento de que algo estava errado, de que alguém — alguém que era meu — podia estar escorregando pelos dedos. Levantei num sobressalto, xingando baixinho. Vesti a camisa escura, fechei o coldre, deslizei a mão pelo balcão de vidro: a mansão estava quieta, mas não como uma casa protegida deveria estar. Era o silêncio do abandono, do medo, da traição. Saí no corredor — o eco dos meus passos parecia zombar da minha fragilidade. Perguntei ao rádio pelos corredores. Nada. Dois homens de

