Livia Acordei antes do sol. A brisa que entrava pela janela tinha cheiro de poeira fria e um traço adocicado que não reconheci de imediato. Levei alguns segundos para entender: sobre o peitoril, repousava um frasco de perfume antigo, de vidro facetado, âmbar no fundo, como mel imóvel. Ao lado, um bilhete curto, a caligrafia estreita, inclinada, quase um sussurro no papel: Senti sua ausência no corredor do vento. — F. A pele arrepiou. Não havia poeira deslocada, nem rastro de sola na moldura. Apenas o perfume e a letra que aprendi a temer. O frasco tinha aquela aura de relíquia: lembrava fotografias sépia, gargantilhas herdadas, promessas feitas à meia-luz. Aproximei o nariz — o cheiro era seco, resinoso, com um fundo floral que me empurrou a uma lembrança que não consegui fixar. Recuar

