Capítulo 3
Conversaram só um pouco, só o básico. No final do dia, quando a enfermeira voltou, Rebeca estava cochilando. Acordou assustada com um barulhinho de nada que a moça fez. A enfermeira falou, se aproximando da cama:
— Oi, está melhor? Como se sente hoje?
Curiosamente, a Rebeca respondeu sendo sincera:
— Sei lá, enjoada. Se eu tomar esses remédios pra dormir, vou sonhar e me lembrar quando acordar? Ou só desligar?
Ela disse que provavelmente não, mais que não podia garantir. Então, exausta após semanas sem dormir uma noite toda, Rebeca pediu pra tomar a medicação e, muito rápido, adormeceu profundamente, acordando só no dia seguinte, se sentindo melhor.
Ela tomou banho sozinha, comeu bem no almoço, comparado a antes pelo menos. À noite, pediu medicação novamente para dormir. Decidiram encaminhar ela a um psiquiatra porque não podiam ficar administrando remédios fortes assim sem uma avaliação e suspeitaram da história dela.
Facilmente ele passou as receitas, indicou terapia. Por várias vezes ela pensou em ligar para o Noah, mas não teve coragem. Ele a deixou sozinha de propósito e aquele celular era monitorado por ele o tempo todo. Foi assim que ele descobriu a existência da Suzan.
Estando doente depois de ajudar a Kayla, Rebeca ficou muito preocupada com ela e decidiu ligar pra ter notícias. A Suzan atendeu já achando que podia ser ela, por ser um número restrito. Ao ouvir a voz, se desesperou, chorou muito, pedindo pra ela voltar.
Garantiu que ninguém saberia de nada sobre ela ser especial. Rebeca mentiu, dizendo estar bem, quis saber das crianças, se desculpou por ter fugido, prometeu manter contato, mandar notícias, desde que ninguém soubesse de nada.
A Suzan não podia fazer nada a não ser aceitar. Disse que as crianças estavam bem e que a Kayla não ficou mais doente desde que recebeu ajuda de alguém muito especial. Lá no fundo, Rebeca queria poder ir pra lá, mas o medo de se ver frente a frente com o passado era aterrorizante demais. Antônio a deixou paranóica.
O Noah só ligou duas vezes em dias. No dia em que ela ia receber alta, ele soube até antes dela. Apareceu logo cedo. Ela acordou com ele no quarto. Ele só falou oi e perguntou se ela estava melhor. Ela disse que sim, sonolenta. Ele falou:
— Vou resolver tudo, ir na farmácia, se arruma pra ir embora. Rápido!
Enquanto ele saiu, ela se trocou, pegou tudo e ficou sentada esperando. Ele voltou quando o médico estava lá. Ela recebeu alta, com mais de cinco receitas de remédios pra tomar. Logo foram saindo. Ela falou pensativa:
— Obrigada por ter voltado.
Ele perguntou se ela tinha falado com alguém. Ela respondeu cética, encarando ele:
— Como eu faria isso, se você levou meu celular?
Ele encarou olho no olho, querendo intimidar, e disse que foi por segurança, que ainda dava tempo dela desistir. Ela falou, se olhando no espelho do elevador, notando que estava muito abatida, com olheiras e os lábios ressecados, rachados:
— Eu quero o mundo que eu nunca vi antes. Não quero seguir um caminho que eu já tenha feito. Se não puder me ajudar, apenas saia do meu caminho!
— Você não precisa virar minha babá, é só falar. Se posso ou não, contar com você.
Ele ficou olhando pra ela, sorriu debochado, olhando ela mentir descaradamente bem na sua frente, ainda olhando nos olhos. Ela pegou o batom vermelho na mochila, passou, saiu do elevador soltando o cabelo.
Bem na porta do hospital estava a Aisha, com um balão de coração metalizado nas mãos, segurando uma cesta de café da manhã junto. Rebeca ficou surpresa e sorriu. Aisha falou:
— Você não achou que ia ficar sozinha não, né? Maluca! Que saudades de você.
Se abraçaram forte, Rebeca começou a chorar. A Aisha falou, limpando suas lágrimas:
— Não chora. Você é muito mais forte do que imagina. Deixe seus demônios irem embora. Se é uma oportunidade que você quer, vai ter até opções. Toda essa merda de problemas não é novidade pra mim! Você vai superar, minha linda!
— Vou cuidar de você, eu te prometo.
Rebeca sorriu, se sentindo acolhida, mais segura. Aisha falou:
— Vou ter que te ensinar mais coisas. Você é muitooo ingênua!
O Noah falou com deboche:
— Nem tanto quanto parece. Se fosse, não estaria aqui. Vamos embora, vocês vão ter tempo pra conversar.
Ele estava com outro carro, uma Range Rover Evoque preta, Rebeca foi no banco de trás e os dois na frente. A Aisha abriu os vidros, colocou uma música em inglês, "Enough", de Hippie Sabotage, e começou a cantar perfeitamente no ritmo, dançando e gesticulando bastante. Quando ela repetiu uma pequena frase da música, Noah falou o mesmo em inglês, completou a frase:
— É sério? Nunca é tempo demais! Não seja boba.
Rebeca não entendeu nada, mais a tradução da frase era "Eu nunca posso fazer o suficiente". A música toda falava sobre raiva, sobre ser menosprezado. A Aisha revirou os olhos pra ele e continuou cantando a viagem toda.
Depois de algumas horas viajando, foram para um hotel. Noah pediu só um quarto pra elas, conversou a sós com a Aisha alguns minutinhos, deixou as duas lá e saiu. Rebeca estava olhando para tudo, entretida, dava pra ver a piscina de longe. Aisha se aproximou e falou animada:
— E aí? Tá afim de fazer o quê? Aqui tem muita coisa legal. Por sorte, eu trouxe mais de um biquíni, apenas uns cinco. Vamos nos trocar logo! Quero saber tudo o que aconteceu com você nesse tempo que não nos vimos.
— Minha vida ficou bem louca.
Foram para o quarto, Rebeca ficou deslumbrada com a decoração e o luxo. Sentou na cama um pouco cansada, disse que não podia se molhar nem ficar exposta ao sol. A Aisha então sugeriu que fossem ao spa, fazer massagem, tomar uns drinks. Fez a Rebeca rir um pouco, obrigou ela a colocar biquíni e falou orgulhosa de si, sendo debochada:
— Olhaaa só quem aprendeu a se depilar, boa menina. Acho que temos muito pra conversar, né? Tô vendo no seu olhar que algo mudou!
— Você não é mais a mesma. Quando isso acontece, dói demais.
Rebeca balançou a cabeça que sim, mas disse que antes queria saber da vida dela, que com certeza era mais legal. As duas foram aproveitar o hotel. Rebeca contou tudo o que aconteceu com o Neto, se emocionou um pouco e disse que não o amava mais, não como antes. A Aisha respondeu:
— Não, amar a gente ama. A verdade é que você só não confia! E isso é algo que não se recupera na maioria das vezes. Sinto muito por tudo isso, eu não pude estar com você.
— As coisas estão bem complicadas em casa! Meu irmão está assumindo o lugar do meu pai, mas ele quer trabalhar de uma maneira diferente.
— Nesse mundo dos negócios errados, sujos, não é fácil ter opinião própria. Qualquer vacilo pode pôr tudo a perder! A vida, sabe?
— Tentaram sequestrar minha mãe, invadir nossa casa.
Rebeca perguntou se tinha alguém atrás de Noah ainda, querendo prejudicar. Aisha acabou falando várias coisas que não devia, desabafou, confiou na amiga, disse que os sócios do pai eram falsos, a maioria, que dinheiro mandava em tudo. E um dia tentaram até matar o Noah e, por sorte, ele conseguiu se salvar, e nem sabiam se podiam confiar em um antigo parceiro, que naquele dia do ataque, desapareceu. Rebeca estava super interessada e falou curiosa:
— Mais o que aconteceu? Acharam o culpado?
Aisha respondeu:
— Dizem que sim, mas eu não acredito que foi ele. Por isso nos mudamos pra bem longe, cidade pequena é um porre né, plantão de tudo nas fazendas, muitas estufas e lavagem de dinheiro com gado.
— A nossa casa parece uma fortaleza, tem muros altos, cerca elétrica, câmeras e seguranças. Os monstrinhos do meu irmão... o canil parece um hotel de luxo pra cachorro.
— Chega a ser ridículo viver assim, com medo. Você acredita que ele leva o cachorro pra passear todos os dias e conversa com ele por chamada de vídeo se estiver longe? Patético!
— Estou esperando uma cria nova, pra pegar mais um.
Rebeca concordou que era exagero conversar com um cachorro por chamada de vídeo, disfarçou o interesse em saber mais detalhes. Discretamente, foi fazendo várias perguntas, incentivando a Aisha a se abrir. Deu pra notar que a família toda estava inclusa nos negócios sujos, Aisha citou alguns nomes, mas não falou quem era quem. Era um negócio milionário, hotéis, boates, lojas de carros, oficinas, contrabando, roubos de artigos de luxo colecionáveis. Tudo interligado.
No final do dia, as duas voltaram para o quarto. Aisha não bebeu nada alcoólico, só comeu bastante coisas diferentes, agridoces. Rebeca não conseguiu comer bem por causa dos remédios fortes. Ela ainda não estava tão bem. Enquanto Rebeca foi tomar banho e fechou a porta do banheiro, ouviu a Aisha bem alterada, discutindo no celular.
Rebeca não tinha entrado no banho ainda, abriu a porta pra pegar outra roupa e ouviu escondida um pouco. A Aisha estava frustrada, brava, brigando com alguém, falando em um tom de ameaça, que era para ele resolver até o dia seguinte.
Deu pra notar que, do nada, ela ficou em silêncio, como quem desligou sem se despedir. Rebeca saiu do banheiro e pegou Aisha chorando. Perguntou o que tinha acontecido. Ela falou, disfarçando:
— Aí, meu pai está enchendo o saco. Vai tomar banho de banheira, madame? É isso mesmo?
Rebeca riu e disse que sim. Se aproximou da cama, Aisha estava deitada. Se sentou, puxando Rebeca pela mão. Ficaram sentadas próximas, de mãos dadas. A Aisha começou a falar:
— Preciso te contar uma coisa, mas você precisa prometer não contar a ninguém nunca, sob hipótese alguma. Nem pro meu irmão ou minha família!
Confusa, Rebeca falou que ia guardar segredo. Aisha respondeu, enxugando as lágrimas:
— Eu tô gostando de alguém, muito. Desde que começou a acontecer, eu voltei a me sentir viva e sinto que nada mais importa!
— Iria morar embaixo da ponte com ele, se precisasse. Já faz um tempo que a gente fica, mas é recente a minha paixão. Você é a primeira pessoa a saber e eu tenho tanto medo.
Rebeca perguntou por que do medo, se era alguém legal. Aisha continuou falando desconcertada:
— Ele é muito legal comigo, mas pra minha família não. Você não entende essas coisas ainda, esse mundo é podre, Rebeca. Nunca entre nele ou vai se tornar igual a nós. E você não é assim, você é pura!
— Ficar com ele, vai atrapalhar os negócios. Ninguém vai nos apoiar.
O celular dela começou a tocar. Era um número que não estava salvo. Ela saiu do quarto pra atender, falou sim várias vezes, garantiu que sim. Pareceu estar confirmando algo. Falou "te amo" até. Rebeca foi tomar banho. A Aisha logo entrou atrás, junto na banheira.
O semblante dela mudou, ficou mais animada. Disse que elas iriam sair para curtir a noite, colocou música, ficou cantarolando. Fez a Rebeca colocar um vestido curtinho, cheio de brilho de mangas longas. Escovou o cabelo dela, fez uma maquiagem mais elaborada, olhos esfumados preto, delineador dourado brilhante, batom vermelho vivo. Foram a uma balada perto do hotel, de Uber.
Chegando lá, a Aisha quis ir dançar. Dava pra ver que ela estava muito feliz. Um pouco desanimada, com sono, cólica e enjoo, Rebeca ficou mais de canto, só admirando a amiga, que estava dançando, como se estivesse tentando impressionar alguém.
Aisha sumiu do nada no meio das pessoas. Logo mandou uma mensagem pra Rebeca, falando que já voltava. Sem entender, Rebeca mandou mensagens, fazendo perguntas, tentou ligar. Aisha não visualizou, nem atendeu.
Em menos de cinco minutos, Noah começou a ligar para a Rebeca, porque ele estava monitorando o celular dela e viu que a Aisha tinha saído de perto. Com medo, ela não atendeu. Ele mandou uma mensagem falando que era importante, queria saber onde elas estavam.
Disse que podiam estar correndo perigo. Com medo, Rebeca mandou a localização. Ele respondeu:
"Acha a minha irmã, não deixe ela sozinha."
"Tô chegando."
Ela procurou um pouco na pista de dança, foi pra fora, foi nos camarotes, rodou tudo até que tomou um susto com a gritaria vinda do banheiro. Ela ficou parada alguns instantes, sentiu que era algo muito r**m. Tomou um susto com o Noah falando, segurando nela:
— Cadê ela? Rebeca?
Ela olhou pra ele e balançou a cabeça que não. Ele foi correndo até o banheiro e entrou empurrando as pessoas. Ela foi logo atrás. Tinham muitas pessoas em cima, aglomeradas, homens barrando a entrada.
Com dificuldade, ela entrou, falou que estava com eles, que era amiga da Aisha. O rapaz liberou a passagem dela.
Ela viu a Aisha nos braços do Noah, inconsciente. Se aproximou rápido, muito nervosa, segurou na Aisha, foi pegando nela, pensando em curar ela, de qualquer coisa que tivesse acontecido. Ele estava chorando.
Ela falou com espanto, percebendo que nada estava acontecendo, mesmo ela tentando ajudar:
— Ela tá viva? Noah?Ela tá respirando? O que aconteceu?
Ela gritou com ele desesperada:
— Noah!