Capítulo 41

1727 Palavras
Ela levantou sem fazer barulho e foi embora arrasada. Pegou algumas coisas do Neto, incluindo o dinheiro que ele estava guardando para comprar o carro. No fundo, queria um motivo para não poder voltar, ir sem o direito de mudar de ideia. O que mais doeu foi não ir se despedir do tio, no velório, enterro, mas cresceu ouvindo que deveria se proteger. E deduziu que com a morte dele, lá não era mais um lugar seguro. Ainda de madrugada, andou por horas, foi pegar um ônibus na beira da estrada e, antes do meio dia, já estava bem longe. Só precisava de respostas, ver com os próprios olhos que a madrinha não a queria por perto. Viajou por dias, sem dormir, sem comer direito. Tirando força, do sofrimento, foi se virando sozinha. Quando chegou no nordeste, na cidade em que achava que iria encontrar respostas, ligou o celular do tio. Chegaram várias mensagens de um número que não estava salvo. No começo, perguntava se estava tudo bem, pedia notícias dela, queria saber se ainda estava dando trabalho. No dia em que o tio passou m*l, as mensagens e ligações aumentaram. Até um dia depois da morte, pararam. Depois, as mensagens começaram a ser enviadas diretamente para ela. Suzan sua madrinha, estava pedindo para ela voltar, disse que podia ajudar e explicar tudo. Deu a entender que ela não estaria segura indo atrás dos pais, porque eles não eram de confiança. Rebeca sempre achou que ela fosse sua mãe, mas percebeu que não. Somente ignorou as mensagens e ligações. Foi ao endereço que encontrou nas coisas do tio. Ficou olhando de longe. Estava anoitecendo. Foi passar a noite em uma pousada, tomou banho, dormiu um pouco e tentou comer. Quando perdeu o sono, durante a maior parte da noite, ligou os celulares, os dois. O dela ainda não tinha ligado, desde a fuga. Havia muitas mensagens do Neto pedindo para ela voltar, falando que ninguém além dos dois ia saber do dinheiro. Ele disse que, se preciso fosse, iria embora de lá com ela. Pediu para ela ligar e dar notícias. Tassiane e Felipe também estavam muito preocupados. Rebeca estava lendo tudo ainda quando um número desconhecido ligou. Era de madrugada. Atendeu e ficou quieta. Suzan falou: — Rebeca? Onde você está, querida? Por favor, volta pra casa. Fala comigo, por favor. Rebeca falou: — Que casa, Suzan? Não tenho mais uma. Suzan falou chorando: — Eu sinto muito, me fala onde você está, eu vou te encontrar, vamos sentar e conversar. Vou te contar tudo! Querida, por favor, fala comigo, estamos preocupados com você. Rebeca perguntou: — Você não é minha mãe, né? Suzan disse que não, que nunca fingiu ser. Ficou pedindo para vê-la, disse que iam conversar e que tudo ia ficar bem. Começou a tocar no nome do Antônio, dizendo que ele tinha pensado em tudo, no futuro dela. Rebeca desligou na cara dela e desligou o celular. Era difícil acreditar que ela ia simplesmente contar a verdade, já que mentiram a sua vida toda. De manhã, impaciente, ligou o celular. Tassiane estava falando que Neto estava muito m*l, pediu para ela voltar e disse que poderia ficar na casa dela. Aquilo tudo estava a deixando pior, muito culpada. Rebeca ligou para Suzan e ficou quieta. Ela atendeu: — Rebeca? Oi, querida, você está bem? Passei a noite acordada tentando te ligar, eu sei que tudo parece perdido e tudo bem em duvidar de mim agora. Mas você não está sozinha, deixa eu te encontrar! Vou te contar tudo. Rebeca falou que ia ligar marcando, mas que era para ela ir sozinha e, se levasse alguém, qualquer pessoa, ela ia sumir no mundo. Suzan aceitou, passou o endereço. Rebeca respondeu: — Nem pense em tentar me enganar, eu não tenho mais nada a perder e, se você realmente gosta de mim, faz o que tô pedindo. Desligou, nem deixou que ela respondesse. Depois do almoço, foi vê-la em uma lanchonete. Antes do horário marcado, ficou de longe observando, com medo. Só quando estava esperando se deu conta de que não sabia quem esperar, não tinham fotos, nem lembranças. Entraram algumas pessoas: uma mulher com crianças, um casal e uma senhora. Rebeca desistiu. Tinha muito medo do que a verdade podia trazer. Foi chorando para um ponto de ônibus próximo. Já tinha ficado espiando por mais de uma hora lá. Achou que Suzan nem tinha ido também. Estava com o celular desligado. Subiu no ônibus e sentou na frente. Porque o fundo a deixava muito enjoada. Foi na janela, olhando para a rua. O ônibus parou em um ponto. Subiram várias pessoas. Uma criança caiu na direção dela. Já estava chorando quando subiu, parecia uma sirene. Rebeca pegou nela para ajudar a levantar. A mãe voltou do fundo, com um bebê nos braços, falando nervosa já sem paciência: — Aí, moça, muito obrigada. Essa menina é teimosa. Rebeca reconheceu a voz. Levantou a cabeça assustada, ainda segurando a criança pelo braço. A mulher a olhou nos olhos, como se a conhecesse. Ficou sem reação, com os olhos cheios de lágrimas. O ônibus começou a andar. Ela sentou na direção dela. Rebeca soltou a criança e voltou a sentar, evitando olhar para ela. Suzan falou: — Seus olhos, eu os reconheceria em qualquer lugar. Eu não pude ficar te esperando por mais tempo, por causa das crianças. Você nem chegou a ir, não é mesmo? Rebeca ficou quieta, pegou sua blusa na mochila e vestiu. A menina que caiu começou a falar oi, olhando para ela. Rebeca deu uma olhadinha para elas, estava com medo, mesmo sem saber exatamente do que. Suzan falou tentando se aproximar, diminuindo a tensão: — Ela não é de conversar com qualquer um, gostou de você. Por que não senta aqui, pra gente conversar melhor? Rebeca ficou quieta. Ela continuou falando: — Você está assustada, eu sei, em seu lugar também estaria. Como você pode ver, não temos a menor semelhança na aparência física. — Sou sua madrinha, sua amiga, e há meses venho tentando te encontrar! Por isso seu pai nos afastou. — Eu nunca quis que achasse que sou sua mãe. Rebeca olhou para ela séria. Suzan continuou falando: — Por favor, não vá embora, eu te conto tudo o que sei, é o mínimo que posso fazer. Enxugando as lágrimas, Rebeca balançou a cabeça que não e voltou a olhar para fora. O bebê estava chorando e a menina maior pedindo algo. Suzan estava falando já sem paciência: — Vocês não podem se comportar assim, xiuuu, por favor, crianças, calma que eu já vou dar. Será que a Rebeca quer um biscoitinho? Ali, filha, a Rebeca. A menina foi até Rebeca, segurou-se na perna dela, esticou a mão com um biscoito e falou oi. Rebeca respondeu, olhando ela, reparando nas mãozinhas pequenas delicadas: — Não quero, come você! A menina falou: — Não. Rebeca respondeu encantada com os olhinhos escuros de jabuticaba: — Não, eu não quero. Come você! A menina começou a comer fazendo graça, apoiada em Rebeca. O ônibus fez uma curva, e ela quase caiu. Rebeca a colocou sentada no banco ao lado. Suzan falou apreensiva: — É melhor você não ficar muito próxima, ela anda doente, por isso eu não pude ficar te esperando mais tempo. Vem, filha, vou te dar água! Rebeca falou, olhando a menina: — O que ela tem? Por isso estava querendo tanto me ver? Suzan franziu a testa, percebendo o quanto Rebeca estava arisca, falou esticando a mão, chamando a menina: — Não, é claro que não, querida, ela só está gripada. Fiquei dias na sua casa esperando você voltar, tive que vir por causa das crianças. A menina estava se jogando em cima de Rebeca. Ela nem sabia brincar com criança, ficou séria, só olhando as gracinhas dela. Acabou encostando um pouco, segurando para ela não cair. Do nada, a menina dormiu encostada nela. Quando percebeu, Rebeca olhou para Suzan. Ela estava olhando para elas e falou que podia ir para a casa dela, passar a noite, descansar um pouco. Rebeca ficou quieta o trajeto todo. Segurou melhor a menina. Suzan também parou de conversar. Quando estavam chegando ao bairro dela, ela falou: — Vamos descer logo ali. Você me ajuda com a Kayla? Por favor! Rebeca balançou a cabeça que sim. Estava exausta, dias e noites sem dormir, com dor no corpo todo. Sabia que só Suzan podia dar as respostas de que precisava. Quando desceram, Rebeca carregou Kayla. Suzan falou desconcertada: — Faz dias que ela está m*l, acredito que esse sono todo seja por sua causa. Rebeca falou incomodada: — Não vou ficar, me conta tudo logo. Suzan respondeu: — Eu só queria te agradecer por me ajudar com ela. Não podemos conversar na rua, vamos pra casa, você pode ficar o tempo que precisar. — Rebeca, meu marido não sabe de nada. O que você precisa saber agora é que seu pai e eu éramos muito próximos, no passado, antes de você nascer. Mas já fazem muitos anos! — Eu só aceitei ajudar porque eu sabia do amor que ele tinha por você. Ele preferiu morrer a te prejudicar, então saiba que foi por amor, do jeito dele, mas foi. Ele e sua mãe não deram certo, eram amantes. — Ela tinha um jeito de ser, sabe, muito intensa, cheia de vida. Ela era namorada do seu tio, sempre foi louca por ele e seu pai louco por ela. Ele achava que ia te manter mais segura se você achasse que ele era seu tio. Rebeca falou confusa: — Como eu vou saber que isso é verdade? Se ele era meu pai, por que não me disse? Eu cresci esperando ser resgatada pelos meus pais. Não faz sentido nenhum! Suzan respondeu chateada: — Querida, se ele fosse apenas seu tio, por que iria dedicar toda a vida dele a você? Pensa um pouco. Ele se isolou, escondido na simplicidade. — Ele te amava mais do que qualquer coisa nesse mundo. Abriu mão da família, da vida e das boas condições que tinha para te proteger. Não era à toa que vocês viviam em uma situação tão humilde, era tudo por você. Rebeca começou a chorar, sentindo-se m*l, culpada, ingrata. Chegaram à casa de Suzan. Era pequena, bem humilde. Foram entrando, não tinha ninguém...
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