Ela colocou o bebê no carrinho, pegou a menina do colo. Rebeca se sentou no sofá, nervosa. Logo Suzan voltou, sentou ao lado dela, abraçou-a chorando junto, disse que podiam continuar a conversa no outro dia e perguntou se ela estava se alimentando. Rebeca pediu para ela continuar, contar tudo. Suzan respondeu:
— Nada disso é culpa sua e você é muito especial, uma joia rara. Eu amei seu pai demais um dia, e é por isso que estamos aqui hoje!
— Ele era tudo pra mim, sabe? Meu melhor amigo, meu primeiro namorado, até que sua mãe apareceu em nossas vidas. Ele foi um bobo, todos os homens são.
— Ela gostava de provocar os dois, era divertido ser disputada. Seu pai sempre foi mais explosivo, cabeça quente, eles viviam brigando, às vezes era até fisicamente.
— Seu pai me deixou do nada, mas, na esperança, eu não quis perder a amizade dele. Seu tio era o filho preferido, sempre foi. Ele viajou para estudar e, na ausência dele, você foi concebida.
— Eu acho que ela queria mesmo ficar com os dois, estava conseguindo até, mas tudo mudou quando eles sofreram um acidente, seu pai e seu tio. Foi muito grave, os dois quase morreram, até hoje nunca se sabe o que realmente aconteceu naquele dia.
— Seu pai foi melhorando logo, mas seu tio caiu de cama, ficou em coma. Os médicos disseram que ele não ia mais voltar a ser normal. Na época, não estavam morando no Brasil. Ninguém soube da gravidez dela.
— Você nasceu e ela escolheu ficar com seu tio, mas teve um preço. Em troca de guardar o segredo, sobre o dom, e ficar com você, seu pai deixou você ajudar a salvar ele.
— Durante a gravidez toda, ela chorou e amou aquele homem. Foi fácil, você sentia tudo que ela sentia, só te colocaram perto dele pouco a pouco e ele foi se recuperando.
— Ele nem sabe da sua existência, porque, se soubesse, ia largar ela! Os boatos da traição começaram a surgir. As pessoas diziam que, na verdade, um irmão tentou matar o outro.
— Seu tio já sabia do caso deles e acredito que por isso aconteceu o acidente, mas ela mentiu, saiu como vítima. A família toda se virou contra seu pai.
— Quando seu pai veio até mim com você nos braços contando tudo isso, eu achei que ele estava louco, mas eu o conhecia como ninguém. Acreditei e ajudei como pude. Ele dizia que ia te contar a verdade quando você fosse maior.
— Nem eu sabia onde vocês moravam, até recentemente. Ele se escondeu do mundo. Pagou muito caro, pela proteção do Célio, que era da polícia ainda na época.
O bebê começou a chorar. Suzan levantou e foi trocá-lo. Deu água para Rebeca e pediu para ela se acalmar. Rebeca só perguntou se ela sabia onde sua mãe estava. Suzan falou:
— Acho que sei, mas, seja lá o que você pretende fazer, ela vai te decepcionar. Escolheu viver um amor e ter dinheiro, ao invés de criar você. Durante esses anos todos, ela não te procurou. Você é uma ameaça pra ela, entende?
Rebeca balançou a cabeça que sim. Suzan a convidou para ficar na casa dela alguns dias. Rebeca perguntou se não ia incomodar. Ela disse que ela era da família. Chamou-a para ajudar com o banho das crianças e contou sobre o relacionamento dela com Antônio. Rebeca perguntou se ela tinha fotos. Suzan falou:
— Só algumas escondidas no fundo do baú. Vou pegar pra você, meu marido está trabalhando, só chega amanhã.
Enquanto ela foi pegar, Rebeca viu Célio ligando para ela. O celular estava no silencioso. Suzan não viu. Voltou com as fotos falando:
— Vamos ter muito tempo pra conversar. Quero saber tudo de você, já é uma mulher, tem dezoito anos e fiquei sabendo que tem um namorado. Que é louco por você.
Rebeca balançou a cabeça que não, disse que tinham terminado. Suzan respondeu:
— Ele está muito preocupado com você, todos estão, seus amigos, as pessoas que gostavam do seu pai. O que você acha de avisar que está tudo bem? Falar que está em um lugar seguro!
— Pode tirar o tempo que for preciso pra ficar mais sozinha, minha casa é simples, mas tem espaço pra você e eu te amo muito, Rebeca. Esses dias sem notícias me deixaram sem sono, estou muito feliz que te encontrei.
Rebeca falou que ia ficar. Suzan tinha dado banho na menina e ia dar no bebê. Rebeca foi para o quarto com Kayla. Aproveitou a distração, enquanto ela estava brincando, pegou suas coisas, roubou as fotos de Antônio e foi embora. Suzan estava ocupada. Até perceber, demorou e ela não ia alcançar Rebeca com duas crianças à noite.
Rebeca pegou o primeiro ônibus que achou só para sair da cidade. Passou a noite em uma rodoviária. Sua vontade era simplesmente de morrer. Estava sozinha e sabia que nunca mais seria a mesma de antes.
Estava economizando o máximo possível o dinheiro, e não era pouco. Ficou tomando muito cuidado para não ser roubada, mas, suja e m*l vestida, passava a impressão de não ter dinheiro algum.
Demorou dias para voltar à sua cidade. A cada dia que passava, seu medo de ser encontrada pela mãe só aumentava.
Também ficou com medo de Célio a denunciar por roubo ou soltar um alerta de desaparecimento, sabia que a polícia ia achá-la fácil. Pensou até em pintar o cabelo, e estava usando boné, touca, o tempo todo.
Quando estava chegando de volta, ligou para Neto, achou que a única opção viável era voltar, tentar construir uma vida ao lado dele, afinal, só confiava nele. Ele nem estava mais mandando mensagens. Atendeu e perguntou friamente onde ela estava. Rebeca ficou quieta. Ele falou:
— Se não vai voltar e nem me dizer onde está, pode esquecer que eu existo. Se você tivesse me pedido o dinheiro, eu teria te dado, eu faria qualquer coisa por você.
— Faz dias que eu não como e não durmo preocupado, você tá achando graça disso? Eu não posso te ajudar se você mesma não quer receber ajuda.
— Está com alguém? Engraçado que o Noah, sumiu daqui, na mesma semana que você.
Rebeca desligou o celular. Desceu do ônibus na entrada da cidade, estava frio, ventando. Ela sentia raiva de todos, e de si mesma. Colocou a touca da blusa para não ser notada. Foi para o único lugar que poderia deixá-la bem de alguma forma. A Arena, era fim de semana, ainda não tinham muitas pessoas.
Sabia que precisava voltar para casa, devolver o dinheiro. Achou que sozinha, sem rumo, não ia chegar a lugar algum mesmo.
Ela foi para o canto mais afastado, ficou sentada no escuro, pensando, observando. O pessoal começou a chegar.
Ela decidiu ir embora. Estava se sentindo indisposta, com muitas dores de cabeça. Deu a volta por trás do campo de futebol, pulou um alambrado só para não ser vista, andou um pouco. Quando foi passar a linha de trem, ouviu Noah virando a rua, de carro. Pulou e parou para olhar, sentindo que precisava falar com ele, queria muito ver Aisha. Voltou andar cabisbaixa, confusa.
Noah a viu de um pouco longe, tirando a touca da cabeça, nem estacionou e desceu do carro, a chamou.
O trem começou a passar entre eles, ele foi andando até mais perto, tentando ver se ela ainda estava lá. Ficou angustiado, sentindo que ela não estava bem, seu primeiro pensamento foi de ir pra estrada da casa dela.
Rebeca estava no escuro parada, ele não podia vê-la. Quando o trem terminou de passar, ela ainda estava lá. Ficaram se olhando em silêncio. Ele disse, aproximando-se sério:
— E aí ruiva. Oi.
Rebeca olhou para os lados, com medo de ser vista conversando com ele. Noah falou a olhando fixamente reparando no quanto estava abatida:
— Fiquei sabendo do que aconteceu, sinto muito pela sua perda. Meus sentimentos.
Ela falou séria, o olhando profundamente nos olhos:
— É, aposto que sente. Você não ia embora? Da cidade?
Ele respondeu, chegando mais perto:
— É. Eu vim resolver umas paradas. Me despedir desse lugar. Algo me dizia que eu devia vir aqui hoje. E você? Acho que tá todo mundo te procurando!
Ela falou chutando pedras no chão, cabisbaixa:
— Não deveriam estar.
— Tô tão cansada, você não faz ideia. Preciso de um favor!
Ele falou surpreso, percebendo que ela não estava nada bem:
— Claro, pode pedir. Qualquer coisa.
Rebeca respondeu:
— Me leva com você, eu não tenho nada aqui, nem ninguém. Eu estava olhando aquele trem querendo ter coragem de me jogar na frente dele. Só quero recomeçar, preciso de um lugar, longe.
— Você deve ter contatos, lugares. Já ouvi falar das boates. Preciso recomeçar.
Ele disse que não dava, que por pior que estivesse sendo o luto dela, ela ia superar e deveria ficar onde era seu lar. Rebeca continuou falando, parecendo desesperada:
— Eu tenho dinheiro e pode fazer o que quiser comigo também. Eu não me importo, sei que pessoas como você não fazem nada de graça pra ninguém. Eu faço o que você quiser, só preciso ir pra longe.
— Posso trabalhar e eu sou maior de idade, ninguém vai me procurar.
— Não tenho família. Se eu soubesse, pra onde ir, não te pediria ajuda. Eu nunca, saí da cidade, até esses dias.
Ele respondeu de imediato:
— Não dá, Rebeca, não é assim a vida. Não posso te ajudar com isso, desculpa!
— Vai pra casa, seu amigo com certeza vai estar te esperando. Se quiser, eu te dou um dinheiro, nem precisa devolver!
— Não posso ser responsável por você. Isso é loucura. Você tá surtada, tudo vai melhorar.
Começou a chover. Rebeca falou, chorando:
— Eu tô cansada de sonhar com as malditas opções que nunca existiram pra mim de verdade. Você não entende, eu tô sozinha, Noah, quero ver o mundo que eu nunca vi antes, quero encontrar a minha alma e levantar.
— Me deixe aqui e eu já sou uma garota morta, você será tão responsável, quanto quem me abandonou, maltratou. A morte é simples, não é? A vida é bem mais difícil.
— Você me deve isso.
Ela disse sem pensar muito bem. Ele falou confuso, percebendo que era incapaz de simplesmente dizer não pra ela, a olhando tão vulnerável triste:
— Vem, vamos sair daqui, entra no carro.
Ela ficou parada e perguntou se ele iria levá-la para longe, se não, nem entraria. Ele estendeu a mão e respondeu:
— Tenho certeza que vou me arrepender disso. Anda logo, vou te tirar daqui. Eu vou te ajudar, você vai comigo!
— Não está mais sozinha. Se acalma. Vai ficar tudo bem.
FIM DA PARTE 1!!!
Obrigada por chegar até aqui.
Esse foi o Volume 1 da série Donos do Asfalto. E acredite… isso é só o começo. Muitas emoções, segredos, paixões perigosas e personagens intensos ainda estão por vir nessa série.