Melissa narrando.
Aliso a manga da camisa de Henrique pela terceira vez, embora cada dobra esteja perfeita, cada botão ajustado no lugar exato. O algodão claro contrasta com a pele dele, ainda marcada pelo ferimento recente, lembrança viva da noite passada. Tento controlar a respiração, tento concentrar-me nos detalhes, mas minhas mãos tremem levemente, traindo a ansiedade que me percorre. O fio da costura parece vibrar sob meus dedos, e cada ponto que ajusto parece carregar mais do que apenas tecido: carrega preocupação, medo, e uma responsabilidade que me pesa como chumbo.
Henrique me observa em silêncio. Seus olhos são profundos, atentos a cada gesto meu, como se soubessem ler não só minhas ações, mas cada pensamento que tento esconder. Há algo quase palpável na tensão entre nós, como se o mundo tivesse diminuído para a sala, para o simples ato de ajeitar uma camisa. E, então, de repente, ele solta um comentário que me pega desprevenida, arrancando-me do turbilhão de pensamentos:
— Esse vestido rosa ficou bem em você, Mel.
O calor sobe às minhas bochechas de maneira quase física. Levanto o olhar, encarando-o, e sinto uma pontada de constrangimento misturada com algo mais delicado, indefinido. O vestido simples, que fiz para mim mesma semanas atrás, nunca foi pensado para impressionar; era apenas confortável, leve, quase um refúgio. Mas agora, à luz do dia e com Henrique me observando, parece carregado de uma importância que eu não tinha previsto. Ele brilha com o contraste da delicadeza rosa contra a tensão que nos rodeia, contra o medo que paira sobre nós.
— Obrigada… — digo, e a voz sai mais baixa e triste do que pretendia. Sinto o peso de cada sílaba, e quase me arrependo do gesto, como se admitir aquilo fosse abrir uma brecha para toda a fragilidade que me invade.
Henrique percebe. Ele sempre percebe.
— Não fique assim, irmã — diz, com aquele meio sorriso cansado, que não chega aos olhos, mas tenta iluminar o ambiente pesado.
— Eu também quero matar aqueles filhos da p**a, mas você sabe… quando o pai e a mãe mandam algo, a gente só obedece.
Meu coração aperta, apertado demais para caber no peito. Morderia os lábios até sangrar se isso ajudasse a conter as palavras que
insistem em se formar, mas não consigo evitar. Minha voz sai em um fio, carregada de raiva, de dor e de incredulidade:
— E Isabela? Você acha justo ela perder a vida assim? Jogar fora todos os planos, os sonhos? Ser obrigada a ficar em um casamento sem amor?
O silêncio se instala, pesado, sufocante. Henrique respira fundo, quase como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros, e me encara com olhos que misturam tristeza e resignação.
— Nossa irmã é forte, Mel — diz ele, finalmente, e há um tremor na voz, apesar da firmeza das palavras. — Vai saber lidar com ele… se proteger. — Suspira novamente, longo e cansado, antes de continuar. — A minha preocupação é se fosse você, irmã.
Engulo em seco, sentindo cada palavra ecoar no peito como um aviso silencioso do perigo que se aproxima.
— Eu? — arrisco, quase sem força.
Ele acena lentamente, o olhar sombrio fixo em mim.
— Você é a bebê da família, a alegria dessa casa. — A voz dele se quebra levemente. — Não quero nem imaginar você vivendo uma prisão dessas, sem liberdade, sem chance de respirar…
Sinto o nó na garganta se formar, e minha boca se abre para protestar, para argumentar, para afirmar que sou forte o suficiente, que sei enfrentar qualquer coisa.
— Mas, Henrique… — começo, a voz vacilando.
Não consigo terminar. Uma batida seca ecoa na porta, interrompendo qualquer tentativa de conversa, e o peso do mundo parece se materializar naquele som. Antes que possamos reagir, minha mãe fala com a autoridade de quem comanda cada movimento da casa:
— Eles chegaram. Desçam. —
É uma ordem, simples e definitiva. Não há espaço para questionamentos, nem tempo para hesitar. Sinto o frio percorrer minha espinha, um misto de medo e adrenalina, enquanto Henrique me lança um olhar rápido e firme. Ele aperta meu ombro com força, um gesto silencioso de coragem compartilhada, e juntos começamos a descida, lado a lado, com Gabriel e Daniel logo atrás, todos conscientes de que cada passo que damos está carregado de tensão, como se atravessássemos um campo minado emocional.
Cada degrau que alcanço parece ecoar no corredor, cada respiração nossa se mistura com a expectativa, e a sensação de que estamos prestes a encarar o impossível aperta meu peito. É o começo de algo que ninguém de nós pediu, mas que teremos que enfrentar.
Troco um olhar rápido com Henrique. Ele assente, apertando meu ombro com a mão firme, como se me passasse coragem. Então descemos juntos, lado a lado, Gabriel e Daniel logo atrás, Isabela já à frente, com a postura impecável que sempre a acompanhou.
Somos como um pequeno exército, mas não um exército de carne e osso: um exército falso, de fachada. Um teatro montado para agradar os inimigos.
No hall da casa, a atmosfera é quase sufocante. Meu pai e minha mãe caminham até a porta da frente, os passos firmes, o rosto rígido. Não há ternura, não há sorriso. Apenas máscaras. Quando a porta se abre, o ar parece mudar.
Lá estão eles. Os Valente.
Salvatore patriarca, imponente, transmite força só pelo modo de entrar. Donatella, sua esposa, elegante e observadora, mede cada detalhe como quem já traça conclusões silenciosas. E então… Dante.
Ele surge como uma sombra, olhos escuros brilhando com algo que não sei se é ódio ou prazer em provocar medo. O sorriso contido nos lábios me faz arrepiar até a espinha.
O silêncio que se instala é quase ensurdecedor. Não há aperto de mãos caloroso, não há abraço, não há menção de boas-vindas. O ódio entre nossas famílias é evidente, quase palpável, e ninguém sabe como reagir sem escancarar o quanto nos detestamos.
As únicas que falam são as duas mães.
— Sejam bem-vindos — diz Helena, a minha mãe, forçando uma doçura que não existe.
— Agradecemos a recepção — responde Donatella, no mesmo tom falso, como se as palavras fossem apenas cordas que seguram um barco prestes a virar.
No meio desse teatro cuidadosamente montado, meus olhos inevitavelmente encontram os de Dante. Ele não precisa dizer nada; o modo como observa Henrique, ainda tenso e se recuperando do ferimento, diz tudo. Há algo na maneira como Dante sorri com os olhos, aquele brilho c***l e calculista, que faz o sangue subir do estômago para o peito, queimando com uma raiva instantânea e irracional. Sinto o calor percorrer cada veia, o coração acelerar como se tentasse escapar do peito. Henrique se mantém ereto, mas a tensão nos ombros, a mandíbula rígida, denuncia cada segundo de esforço para conter a fúria que ele também sente.
Sem pensar, sem medir consequências, me coloco à frente dele. Meu corpo, pequeno e aparentemente frágil, torna-se uma barreira instintiva. É um gesto quase infantil, sim, mas inevitável — um reflexo puro de proteção que não consigo controlar. Sinto a responsabilidade pesar sobre meus ombros, uma força silenciosa que me empurra a não recuar.
Olho diretamente para Dante com ódio, e não tento, nem quero, esconder. A fúria é transparente, uma chama que salta dos meus olhos e parece desafiar cada músculo do corpo dele. Não há necessidade de cortesia, de sorrisos falsos ou polidez calculada como a de Isabela. Meu ódio fala por mim, cru e evidente, e a sensação de poder surgir dessa raiva me dá uma estranha força, mesmo com o
coração disparado.
Por um instante que parece durar uma eternidade, os olhos de Dante se prendem aos meus. Sinto como se pudesse atravessar minha alma, ler cada pensamento, cada medo, cada desejo que tentei enterrar ou esconder ao longo da vida. Ele observa com uma intensidade quase dolorosa, como se estivesse despedaçando cada camada de proteção que construí com cuidado. Meu corpo reage
automaticamente: as mãos suam, o peito aperta, e cada fibra do meu ser se alerta. Mesmo assim, não desvio o olhar. É um duelo silencioso, invisível para todos os outros, mas intenso demais para ser ignorado.
Ele sorri de canto, mas não é um sorriso de alegria ou cordialidade. É um sorriso de desafio, provocador e frio, que parece dizer que está pronto para lutar não com punhos, mas com tudo que somos — com nossa alma, nossa força, nossa vulnerabilidade. Um sorriso que corta, que marca, e que deixa claro: ele não está ali apenas para observar; ele quer dominar, impor e testar limites.
Enquanto o ar entre nós se carrega de eletricidade, sinto que a atenção da sala se fragmenta. Isabela, impecável, avança graciosamente, como se cada passo tivesse sido coreografado. Postura perfeita, ombros eretos, cabeça erguida. Cada gesto, cada inclinação delicada, cada olhar medido, parece projetado para impressionar, para mostrar controle absoluto e elegância calculada. Ela se aproxima de Donatella, cumprimenta a futura sogra com uma leve inclinação de cabeça, lábios curvados em um sorriso estudado, e por um instante toda a atenção da sala se volta para ela, como se todos esperassem a reação de Dante.
É impossível não perceber o contraste entre nós naquele momento. Isabela, a imagem da perfeição estudada, elegante e silenciosa, e eu, pequena, tensa, com raiva evidente nos olhos, corpo ligeiramente inclinado à frente de Henrique em um gesto de defesa. A disparidade entre o teatro da cortesia e a brutalidade do olhar de Dante me deixa consciente do campo minado emocional que estamos prestes a atravessar. Cada respiração dele, cada movimento sutil, parece um aviso: ele lê o que sente, entende cada impulso,
e parece pronto para responder de acordo.
Meu corpo vibra com a tensão. Sinto Henrique atrás de mim, seu braço firme quase como uma âncora silenciosa, e percebo que ele também sente a presença esmagadora de Dante. A sala, os convidados, todos desaparecem por um momento, e tudo se resume ao campo minado invisível entre nós três: Dante, Henrique e eu.
É então que Helena, minha mãe, força Dante a desviar os olhos de mim.
— Sua noiva, filho — diz Donatella, com a frieza de quem apresenta uma transação comercial.
Todos aguardam.
Dante lança um olhar rápido para Isabela, avaliando-a de cima a baixo em segundos. Não há ternura, nem interesse verdadeiro. Apenas cálculo.
O silêncio é absoluto. Sinto o ar preso nos pulmões, como se o mundo inteiro esperasse a resposta.
E ela vem, cortante, c***l, definitiva, após um leve suspirar entediado:
— Não. Eu não quero essa Monteiro. —
As palavras dele caem como um trovão no meio da sala.
Meus olhos se arregalam, o sangue some do meu rosto. Sinto Henrique segurar meu braço com força, como se tentasse me ancorar. Gabriel e Daniel congelam, pálidos. Isabela, por um instante, perde a máscara: os olhos dela vacilam, e é como se toda a fachada de frieza tivesse rachado.
Meu pai dá um passo à frente, o rosto vermelho de fúria, mas é contido pela mão de minha mãe em seu braço. O silêncio que se instala é tão brutal que parece gritar.
E, no meio de tudo isso, sinto novamente o olhar de Dante em mim.
Ele não quer Isabela.
Ele me quer.