Melissa narrando.
O silêncio cai sobre a sala como um trovão mudo. É tão pesado que sinto meus pulmões se recusarem a puxar o ar. O choque percorre cada um de nós, congelando até o som da minha respiração, eu não consigo, eu... Ninguém ousa se mover, ninguém ousa sequer respirar, abrir a boca é perigoso nesse momento.
O que ele fez? Por que isso? O que eu fiz para merecer tamanha punição?
As perguntas me atravessam como facas afiadas, e nenhuma encontra resposta. Só há dor, uma dor que cresce em ondas, queimando por dentro.
O anúncio ecoa na minha mente como uma sentença c***l, definitiva, como o tilintar de uma corrente sendo fechada em volta do meu pescoço: um casamento, um acordo, um destino imposto. Cada palavra pesa como ferro em brasa.
Sinto um aperto sufocante nos meus órgãos, como se meu próprio corpo rejeitasse aquela ideia, como se não houvesse espaço para respirar diante da noção de que eu agora pertenceria a alguém assim. A ele.
Dante Valente. O homem que tentou matar meu irmão. O nome que carrega medo e sangue. Conhecido por sua maldade, pelo poder que exala como veneno, pelo olhar que nunca hesita em reduzir os outros a pó. Tão bruto, tão controlador, um predador que não aceita ser contrariado. Só de imaginar a vida ao lado dele, meu estômago se revira, meus músculos se enrijecem, meu coração
implora para fugir. Eu não aguentaria. Eu sei que não.
E, ainda assim, ninguém se levanta contra isso.
Henrique é o único que consegue reagir. Sua voz não se ergue, não treme, não quebra. Apenas soa firme, simples, como se fosse a
coisa mais natural do mundo dizer:
— Não.
Esse “não” reverbera em mim como uma oração, como um sopro de vida. É pequeno, uma palavra só, mas contém toda a força que eu não consigo reunir dentro de mim. A coragem que me falta.
Dante, sentado a poucos metros, não diz nada. Apenas me observa. Seu silêncio pesa mais do que qualquer sentença, mais do que qualquer insulto. Ele não precisa falar. O silêncio dele é c***l, arrogante, como se já soubesse que a decisão está tomada, que não há
como escapar. Como se o destino de todos nós já tivesse sido escrito por sua mão.
As mães tentam preencher o vazio que fica. Tentam vestir aquela atrocidade com fitas e perfumes, disfarçar o horror como se fosse presente.
A minha mãe, com a voz doce que sempre guarda uma lâmina escondida, fala em acordos, em destinos, em “o que é melhor para todos”. Cada sílaba é um golpe seco, um lembrete de que a minha dor nunca fez parte dos cálculos dela.
Donatella, a mãe de Dante, sorri com aquele ar elegante e venenoso, como se estivesse oferecendo flores. Mas eu só consigo enxergar espinhos, porque cada palavra que escorre de sua boca soa como veneno:
— É uma união que trará paz… estabilidade. Vocês deveriam agradecer por essa oportunidade.
O sangue me ferve. A palavra “oportunidade” me queima. Para eles, sou só uma moeda de troca, uma peça em um tabuleiro imenso que nunca me pertenceu.
Meus olhos buscam Henrique, desesperados, e é nesse instante que uma sombra se projeta sobre mim. Forte, grande, protetora. É meu pai.
Ele se coloca diante de mim, o corpo rígido, o semblante fechado, como se pudesse me esconder atrás dele e afastar o inevitável.
— Melissa não… — ele começa, mas a frase se desfaz no ar, sem força para sobreviver.
O olhar dele vacila, e o que vejo me despedaça por dentro: medo. Meu pai, que sempre foi imponente, intransigente, um gigante na
minha memória, agora parece menor diante da família Valente. Menor… e derrotado.
É então que a primeira explosão acontece.
O pai de Dante ergue a voz. Grave. Cortante. Um trovão que preenche cada canto da sala como se estivesse num tribunal, ditando uma sentença que não admite recurso:
— Se meu filho não quer essa, que escolha outra. Mas uma união vai acontecer. —
As palavras dele não apenas cortam o ar. Elas rasgam o ambiente, atravessam ossos, se cravam fundo no meu peito como lâminas afiadas. Sinto como se meu corpo fosse apenas uma mercadoria exposta, um bem qualquer, leiloado em praça pública. Não sou filha, não sou mulher, não sou pessoa. Sou um pedaço de terra a ser negociado. Uma moeda. Um contrato.
— Isso não é sobre querer. — Helena, a matriarca da minha família, fala com a firmeza de quem nunca aceita réplica. Sua voz soa como ferro batido, como uma ordem que atravessa gerações. — É sobre dever. Todos aqui querem a paz, vamos conversar e negociar, sem pressa de ninguém.
O olhar dela cai sobre nós, os filhos, afiados como flechas. Não há espaço para fuga, não há ternura, apenas ordem.
— Saiam que vamos conversar.
A palavra reverbera como uma porta sendo trancada. O chão parece se abrir, pronto para nos engolir e nos varrer para fora dali. Como se fôssemos apenas espectadores incômodos de uma cena que nunca deveríamos testemunhar.
Mas Henrique não se move.
O mundo inteiro parece se inclinar contra ele — as vozes dos adultos, o peso da tradição, a presença sufocante de uma sala lotada — mas ele permanece. Finca os pés no chão como raízes que se recusam a ser arrancadas. A respiração dele é firme, medida, como se cada inspiração fosse uma arma silenciosa. O queixo erguido não é apenas orgulho: é desafio.
— Não vou. — A voz dele corta o ar, calma, mas carregada de ferro. Há aço em cada sílaba, uma força inquebrável que nenhum olhar severo consegue dobrar. — Não vou deixar minha irmã aqui sozinha.
O silêncio que segue é pesado, denso, quase palpável. Sinto cada olhar queimando a pele de Henrique, tentando fazê-lo ceder, mas ele não recua. Não pisca. É como uma muralha plantada diante de mim.
Meu coração, ao contrário, se descompassa. Ele bate rápido demais, desordenado, como se tentasse fugir de dentro do meu peito. Cada batida ecoa como um tambor de guerra, lembrando-me do quanto sou frágil ao lado da coragem dele. Eu queria ter essa força. Eu queria poder dizer “não” também. Gritar como ele, desafiar como ele. Mas minha garganta é um nó apertado de medo. O ar se recusa a passar. A dor me sufoca, e toda palavra que nasce morre antes de alcançar minha boca.
Então meu pai se vira para Henrique. O olhar dele pesa, afiado, exigente. Mas, por um breve instante, vejo algo que nunca pensei que veria: hesitação. É uma rachadura quase invisível, uma sombra no rosto de um homem que sempre soube exatamente o que mandar e quando mandar. Uma luta silenciosa se desenha nos olhos dele — entre ser pai e ser líder, entre o instinto de proteger e o dever de impor.
No fim, como sempre, vence o papel que o mundo exige dele.
— Vai, Henrique. Protege tua irmã. Fica ao lado dela.
A ordem não soa como afastamento, e sim como rendição. Não é um “obedeça-me”, é um “não posso impedir o inevitável, mas não a abandone”. É o mais próximo de um gesto de amor que ele consegue me dar naquele instante.
Henrique respira fundo. Ele entende. Eu também entendo. Não se trata de submissão, de obediência cega às regras de sempre. É
escolha. É decisão. É ele dizendo que vai permanecer comigo, mesmo quando o resto do mundo tentar me esmagar.
E quando sinto os braços dele ao meu redor, firmes, sólidos, me segurando como se pudesse recompor as partes do meu corpo que já estavam prestes a se despedaçar, eu finalmente cedo. O peso me arrasta, mas é o abraço dele que me impede de cair no abismo. Minhas lágrimas transbordam sem controle, escorrendo quentes, marcando a minha rendição silenciosa.
— Mel… eu tô aqui. Vou lutar por você irmã — Ele murmura baixo, tão baixo que só eu escuto, como se aquelas palavras fossem segredo e escudo ao mesmo tempo. E, de algum modo, elas se tornam muralhas, sustentando meu peito frágil.
Eu me agarro a ele com todas as forças que ainda restam, como quem se prende a uma tábua em alto-mar. É meu único porto seguro em meio a essa tempestade que ameaça me engolir viva. O medo pulsa na minha garganta, amargo e cortante, uma ânsia que cresce como um grito preso, desesperado — mas não sai. Fica sufocado, engasgado dentro de mim. A dor, por sua vez, se espalha, violenta, dilacerante, rasgando cada fibra do meu ser como fogo que consome por dentro.
E é assim, sufocada no abraço do meu irmão, com o coração em cacos e os olhos marejados de desespero, que a verdade me atravessa inteira, c***l e implacável: eles decidiram por mim.
Decidiram a minha vida, o meu destino, sem que eu tivesse o direito de dizer sequer uma única palavra
A sala gira ao meu redor, como se o ar tivesse se tornado pesado demais para ser respirado. Cada segundo arrasta junto um peso insuportável.
E, no entanto, no meio do caos, Dante continua me olhando.
Não há nojo em seus olhos. Não há pena. O que vejo é muito pior. É algo que me prende, que me fere mais do que qualquer sentença: posse.
Meu corpo inteiro treme. Minhas pernas querem ceder. Mas não desvio o olhar.
Se eu tiver que cair, que seja olhando diretamente para o meu inimigo.