Vocês que precisam

1517 Palavras
Melissa narrando. Eu não queria estar ali. Cada músculo do meu corpo gritava por fuga, mas a casa estava cheia demais, e os olhares, pesados demais. Henrique segurava meu braço com firmeza, o polegar roçando levemente a minha pele em um gesto de carinho quase imperceptível, mas que para mim era como um respiro em meio ao sufoco. Ele estava tentando me acalmar, eu sabia. Só que nada no mundo seria capaz de acalmar a tempestade que me devastava por dentro. Mesmo afastados, no corredor ao lado da sala, podíamos ouvir tudo. As vozes não precisavam ser altas: o peso de cada palavra atravessava as paredes e se cravava fundo em mim. — Não faz sentido, não é certo. — A voz do meu pai veio primeiro, firme, mas já tingida pelo desespero. — A mais velha é quem deveria se casar. Isabela é a melhor opção, a mais preparada. Melissa ainda é uma menina. Meu peito se contraiu com força, como se tivesse levado um soco invisível. A frase dele bateu em mim em duas direções: como um abraço e como uma facada. Ele queria me proteger, eu sabia disso. Mas ao mesmo tempo, estava oferecendo minha irmã em meu lugar. Estava escolhendo por nós, como se fosse apenas questão de avaliar valores, comparar vantagens, decidir qual filha serviria melhor ao negócio da família. Isabela. Sempre ela. Sempre a mais bonita, a mais admirada, a mais “pronta”. No fundo, parte de mim queria gritar que não era justo, que nenhuma de nós deveria estar ali sendo leiloada. Mas minha voz continuava aprisionada no medo, enquanto minha mente rodava em círculos, tentando encontrar uma saída que não existia. Senti a mão de Henrique apertar a minha. Seus dedos envolveram os meus com tanta força que doeu, mas foi essa dor que me impediu de desmoronar no chão. Ele me puxou um pouco mais para perto, e naquele gesto havia tudo: proteção, desespero, promessa. Eu quase desabei ali mesmo, soluçando contra o ombro dele, mas me forcei a resistir. Porque se eu caísse, se mostrasse fraqueza, eles teriam ainda mais certeza de que eu era apenas uma menina incapaz de se erguer sozinha. O corpo de Henrique se tornou minha muralha. Ele estava entre mim e o mundo hostil que nos rodeava, entre mim e os olhares frios que me mediam como se avaliassem um objeto. Ainda assim, nada conseguia silenciar a voz de Dante que cortou o ar, grave e certeira, com a precisão de uma lâmina: — Ou é Melissa… ou nada. A frase explodiu dentro de mim como um trovão. Tão alta, tão avassaladora, que até o silêncio que veio depois parecia ecoar. Ele não precisou levantar a voz. Não precisou de argumentos, nem de justificativas. Bastou a firmeza seca, absoluta, imutável. Foi um decreto. Um ultimato. Senti meu coração disparar de maneira irregular, como se quisesse arrebentar as grades do meu peito e fugir dali antes de mim. O nome que ele pronunciou — o meu nome — soou como uma sentença. Ele me escolheu. Entre tantas possibilidades, entre tantas vidas, ele me apontou com o dedo invisível da sua vontade e disse: “ou ela, ou nada”. Engoli em seco, mas a saliva parecia pedra descendo pela minha garganta. Minha pele se arrepiou inteira, e tive a sensação de que o ar tinha ficado mais denso, mais difícil de puxar. Era como se cada palavra dele tivesse roubado um pouco do oxigênio que eu precisava para continuar respirando. E, antes que eu pudesse me recompor, a voz de Dante voltou, ainda mais fria, ainda mais c***l: — Eu não preciso fazer acordo com vocês. As sílabas caíram como aço sobre o chão. A arrogância não estava apenas no que ele dizia, mas na forma como dizia, como se fosse o único dono da verdade, como se segurasse todas as rédeas em suas mãos. Meu estômago revirou de imediato, embrulhando-se em náusea. A certeza que se instalava dentro de mim era devastadora: não havia negociação, não havia saída. Dante não falava como um pretendente, mas como um carrasco. A mão de Henrique deslizou pelo meu braço, tentando me ancorar, tentando me impedir de me perder no pânico. Mas nada conseguia apagar a sensação sufocante de que eu já estava marcada, já estava presa na mira dele. Engoli em seco, mas as lágrimas já queimavam meus olhos. Eu tentei segurá-las, mas era impossível. Escorreram silenciosas, denunciando meu medo. Henrique levantou a mão e enxugou uma delas com o polegar, sem dizer nada. O gesto era doce, mas só me fez chorar ainda mais, porque me lembrava de que eu estava sendo escolhida, forçada, sem ter voz, sem ter saída. Foi então que a voz da minha mãe rompeu, embargada, desesperada: — Basta… se isso vai trazer paz… que seja. Eu não acreditei no que ouvi. Paz. Ela estava me entregando em nome de uma paz que não existia, que nunca existiu. Henrique endureceu ao meu lado. Eu senti antes mesmo de olhar para ele. Os músculos do seu braço ficaram tensos, o maxilar rígido. Quando ele se afastou um passo, percebi. — Não, não… — sussurrei, assustada. — Henrique, não vai… Mas era tarde. Ele saiu do meu lado, entrou na sala com o peito aberto e o olhar em fogo. A minha última proteção se expôs. — Não! — A voz dele reverberou, clara e firme. — Vocês não vão decidir isso por ela. O silêncio caiu como um golpe. Mas durou pouco. Dante se levantou. Ele não disse nada. Não precisou. O corpo dele, erguido, imponente, preenchia o espaço como se fosse maior do que todos nós. O olhar dele se cravou em Henrique, e um duelo silencioso se iniciou. — Ou é ela… ou eu não tenho o que conversar com vocês. — A frase veio baixa, mas tão carregada de autoridade que parecia não admitir réplica. — Vamos pensar direito… — a mãe de Dante interveio, colocando uma mão suave sobre o ombro do filho, tentando contê-lo. Mas ele não se moveu. Nem piscou. — Essa ideia de casamento é absurda! — Daniel, de apenas quinze anos, explodiu. — É só a gentinha de vocês ficarem na sua! O coração me gelou. Daniel não sabia o peso do que dizia. Vi quando Isabela o puxou, apertando o braço dele com força, o olhar dela severo, tentando calar a imprudência antes que fosse tarde. Dante, por sua vez, ergueu o rosto, ainda em silêncio. Mas a sombra de um sorriso frio se desenhou em sua boca. — Vejo que não estão dispostos a cumprirem o acordo que prometeram. — A voz dele era um veredito. E então, sem mais, se virou para sair. Eu quase tremi quando vi o pai dele se levantar também, seguindo-o sem questionar. Era estranho, quase absurdo: o homem mais velho, supostamente o líder, era guiado pelo próprio filho. Como se Dante fosse o verdadeiro dono de todos ali. Meu corpo fraquejou. Eu encostei na parede, tentando me tornar invisível, lutando contra as lágrimas. Mas o choro escapou em pequenos fungos, denunciando minha presença. E foi nesse instante que ele me viu. Dante parou. O olhar dele encontrou o meu. Era fixo. Era forte. Era possesivo. E, para o meu horror, ele sorriu. Um sorriso discreto, quase imperceptível, mas que queimou como fogo na minha pele. Eu senti minhas pernas ficarem moles, a respiração travar. Aquele sorriso não era de ternura. Era de vitória. Era como se ele já tivesse me marcado, mesmo sem me tocar. O pânico percorreu meu corpo inteiro. Eu queria correr, gritar, desaparecer. — Espere. — A voz do meu pai cortou o silêncio. Dante se virou novamente, agora de frente para ele. Meu pai parecia menor diante dele, mesmo sendo mais velho, mesmo sendo o anfitrião da casa. — Irei conversar com Melissa. Vamos dar sequência ao jantar. Precisamos dessa paz em nossas famílias. Dante não respondeu. Apenas o observou em silêncio, como quem mede um adversário antes de decidir se o derruba ou não. — Alguém sabe pensar, pelo menos. — A provocação veio seca, da boca do pai de Dante. Foi a própria esposa dele quem interveio, pousando um toque leve sobre a mão do marido, uma repreensão silenciosa. — Estamos em paz. Vamos todos ter modos. — Ela disse em tom brando, mas todos sabíamos: aquela frase não era para todos. Era para ele. Eu continuei encostada na parede, tentando não tremer, tentando não chorar alto. Mas não conseguia parar de sentir o peso daquele olhar. Dante. Fixado em mim como uma corrente invisível. Tão forte que parecia atravessar minha pele, minha carne, minha alma. Eu queria me rebelar. Queria gritar que não. Que não seria dele. Que ninguém poderia me tomar à força. Mas minha voz estava soterrada pelo medo. Então fiz o único movimento possível: dei um passo para trás. Afastei-me dele. Como se esse gesto mínimo pudesse me proteger. E dentro da minha cabeça, martelava uma única palavra, insistente, ensurdecedora: Fugir. Era isso. Era a única saída. Fugir antes que fosse tarde.
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