02 - Fábio

1307 Palavras
Fábio Narrando Meu nome é Fábio Rossi. Tenho 32 anos, sou natural do Rio de Janeiro, esse lugar que carrego dentro do peito como se fosse uma extensão da minha alma. De pele clara, cabelos castanhos claros e olhos igualmente claros, sempre ouvi que herdei o melhor do meu pai. Tenho 1,70m de altura, corpo atlético, que cuido com dedicação. Não sou de academia, prefiro usar o que tenho em casa pra manter o corpo ativo, respeitando o templo que Deus me deu. Vivo no Vaticano desde os 16 anos. Metade da minha vida. Vim pra cá por causa de uma promessa feita pela minha mãe quando ainda era muito pequeno. Ela acreditava que, se eu sobrevivesse a uma doença grave que tive, eu serviria a Deus. E eu sobrevivi. Cresci com esse destino desenhado pra mim. Não posso negar que aceitei, não por revolta ou mágoa, mas por amor. Amor à minha mãe e ao que ela acreditava com tanta fé. Ser padre nunca foi um sonho meu, mas é a realidade que abracei. Não me sinto preso nem enjaulado. Apenas... às vezes, me pergunto como seria minha vida se eu tivesse tido escolha. Apesar disso, busco encontrar beleza no caminho que sigo. Cada missa celebrada, cada palavra de conforto que ofereço, cada sorriso que arranco de quem precisa, me mostra que, mesmo sem ter sido minha primeira vontade, existe valor no que faço. Não sou completamente feliz, mas também não sou infeliz. Existe um espaço dentro de mim que ainda está em construção, e eu acredito que Deus, em Sua infinita sabedoria, está trabalhando nisso. Sei que a felicidade verdadeira é algo que não se encontra de uma vez só, ela é feita de pequenos momentos, de escolhas diárias. E eu escolho, todos os dias, acreditar. A solidão, às vezes, pesa. Não nëgo. Existem noites em que o silêncio parece querer me engolir, mas é nesse momento que eu mais sinto a presença de Deus me segurando firme. É estranho: quanto maior o vazio, maior também a chance de ser preenchido por algo bom. Continuo cuidando de mim, da minha fé e da minha saúde, porque acredito que ainda tenho muito a viver. Talvez, em algum momento, eu encontre uma nova missão. Algo que vá além da promessa feita por minha mãe. Algo que seja só meu. Não perco a esperança de que, no tempo certo, o que falta em mim será completado. Por enquanto, sigo. Um dia de cada vez, com fé, com gratidão e com a certeza de que, mesmo quando parece difícil, Deus nunca solta a minha mão. Terminei de celebrar a missa com o coração leve. Tinha dias em que o peso era maior, mas hoje, curiosamente, a esperança parecia pulsar dentro de mim com mais força. Cumprimentei alguns fiéis, dei a bênção final, e enquanto tirava os paramentos, senti o celular vibrar no bolso da batina. Atendi sem pensar duas vezes. Era uma das minhas tias, a irmã mais velha da minha mãe. A voz dela tremia, e meu peito se apertou antes mesmo das palavras chegarem. — Fábio... sua mãe está muito doente. Já tem uma semana que ela tá no hospital. Na mesma hora, o chão pareceu sair debaixo dos meus pés. — Uma semana?! Por que vocês não me avisaram antes? perguntei, a voz falhando. Ela suspirou do outro lado da linha, como se carregasse o peso do mundo. — Foi a pedido dela, meu filho. Ela não queria te preocupar. Disse que você tinha sua missão aí, que Deus ia cuidar dela aqui. Senti a raiva e a tristeza se misturando dentro de mim. — Tia, isso não se faz! Eu sou filho dela. Eu tô indo agora pro Brasil — respondi, sem pensar duas vezes. — Vem logo, Fábio. A gente não sabe quanto tempo mais ela tem — ela disse, num tom quebrado, e desligou. As lágrimas vieram antes mesmo que eu pudesse impedir. Segurei firme o celular e corri até a sala do bispo, atravessando os corredores frios do Vaticano como se o tempo fosse inimigo. Bati na porta, entrei sem esperar resposta e, com a voz embargada, expliquei o que estava acontecendo. O bispo, homem sábio e de coração enorme, apenas assentiu, compreendendo tudo com o olhar. — Vá, meu filho. Cuide da sua mãe. Fique o tempo que precisar. Abaixei a cabeça, emocionado, e beijei a mão dele em sinal de respeito. Ele, então, traçou o sinal da cruz na minha testa, me abençoando. Saí dali direto pro meu quarto, com o coração acelerado, as mãos tremendo e uma única certeza: eu precisava estar com ela. Voltar para o Brasil, voltar pra casa... Era como se o destino estivesse me chamando de volta às minhas raízes. Arrumei minhas malas quase no automático, cada peça de roupa dobrada com pressa e com carinho. Pela primeira vez em muitos anos, senti que estava voltando não só pra cumprir um dever, mas pra viver algo que poderia mudar tudo. Dentro de mim, a esperança crescia. A esperança de que eu ainda teria tempo. De que eu poderia segurar a mão dela, agradecer por tudo, e quem sabe, encontrar, nesse reencontro, a felicidade que sempre procurei. Fui para o Aeroporto, Comprei minha passagem, consegui mostrando que sou padre. Peguei o bilhete de avião com o coração apertado, mas cheio de fé. Sabia que Deus estava comigo, e sabia também que o amor de mãe é o tipo de amor que nem o tempo, nem a distância conseguem apagar. Eu estava voltando. Pra ela. Pra mim. Pra nossa história. O voo parecia interminável. A cada minuto, a ansiedade apertava mais o meu peito. Sentado na poltrona, olhava pela janela e via apenas o escuro da noite cortado por pequenas luzes. Mas, dentro de mim, uma chama acesa me dava força. Eu ia voltar pra casa. Fechei os olhos por um momento e rezei baixinho. Pedi a Deus que me deixasse chegar a tempo, que me desse a chance de abraçá-la de novo. A cabeça fervilhava de lembranças, infância, quando meu pai Faleceu e ficamos só nós dois, O cheiro de café passado na hora, o sorriso dela me esperando na porta. A saudade era quase física. Uma dor boa, que apertava, mas também aquecia. Eu não lembrava da última vez que tinha sentido algo tão forte assim. Quando o comandante anunciou que estávamos em processo de aterrissagem, meu coração disparou. Olhei pela janela e vi as luzes do Rio se espalhando como um tapete brilhante. Era lindo. Era casa. Senti meus olhos se encherem d'água outra vez, mas dessa vez não era tristeza. Era gratidão. O avião tocou o solo, e foi como se eu também voltasse a pisar nas minhas próprias raízes. Desci do avião com pressa, quase tropeçando de tanta vontade de sentir o mundo lá fora. Assim que atravessei as portas de vidro do aeroporto, o ar quente e úmido do Rio me envolveu de um jeito que nenhuma lembrança conseguia reproduzir. Fechei os olhos por um instante, respirei fundo, enchendo os pulmões daquele cheiro único de mar, cidade e vida misturados. Era como se, de alguma forma, eu estivesse renascendo. Ali, parado no meio da correria do aeroporto, percebi que, apesar de tudo, a vida ainda podia me surpreender. Mesmo depois de tanto tempo longe, meu coração reconhecia aquele lugar como lar. Limpei uma lágrima teimosa que escorreu pelo rosto e sorri pequeno. Tinha uma missão pela frente. Uma missão de amor, não de obrigação. E eu estou pronto. Chamei um táxi às pressas e dei o endereço do hospital. Cada quilômetro que me aproximava da minha mãe era um pedaço do meu próprio quebra-cabeça se encaixando de novo. Não sabia o que me esperava nas próximas horas, mas uma coisa eu tinha certeza: eu estava no lugar certo, na hora certa.
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