Jaqueline

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Jaqueline Narrando Meu nome é Jaqueline Santos, mas na quebrada nëgo me chama só de Jak. Tenho 20 anos bem vividos, pele clarinha, cabelo preto liso até a metade das costas e uns olhos azuis que chamam atenção onde eu passo. Mas o que mais marca em mim não é isso não. Meu corpo é 70% coberto de tatuagem. Cada desenho tem sua história, sua cicatriz, seu motivo. Piercing também não falta: tenho no mamïlo, na língua, no nariz e no umbigo. Sempre curti enfeitar o que é meu. Cresci no meio do corre, sem romantizar nada. Sou filha única do Ratão, dono do morro, nome pesado no mundo do crime, respeitado por quem é do certo e odiado pelos que sonham em tomar o que é nosso. Desde que eu me entendo por gente, eu sei qual é meu lugar nesse mundo: no topo. E eu tenho orgulho disso, orgulho do que meu pai construiu e do que um dia vai ser meu de direito. Entrei pro comando cedo, com 14 anos já tava na linha de frente. Não foi escolha não, foi no sangue, na veia. Eu não me iludo com muita coisa não. Sei quem eu sou, de onde vim, e o que preciso fazer pra manter o que é nosso. Agora, não vai pensando que minha família é só porrada e fuzil não. Minha mãe é totalmente o oposto do meu pai. Uma mulher de fé, daquelas que não perde uma missa, que anda com terço na bolsa e vela acesa em casa. Quase uma carola. No começo eu achava estranho, mas hoje eu entendo. É ela que segura tudo de pé. Quando o bicho pega, quando o mundo parece que vai virar do avesso, é minha mãe que mantém a calma, que ora por nós, que acende uma luz no meio da guerra. Meu pai nunca esquentou com isso e, pra ser sincera, eu também não. Se isso faz ela feliz, se isso deixa a casa em paz, quem somos nós pra falar alguma coisa? Minha mãe é o alicerce da nossa família, é ela que segura as pontas quando ninguém mais consegue. E eu amo ela por isso. Eu sou desapegada de muita coisa. De dinheiro, de luxo, de gente falsa. Mas tem uma parada que eu não largo: meu poder. O respeito que conquistei dentro da quebrada não tem preço. Eu conquistei na raça, na atitude. Quando eu gosto de alguém, é de verdade, de corpo e alma. Dou tudo de mim. Agora, quando eu odeio. Ah, pode sair de perto, que não tem reza nem pedido que me faça mudar de ideia. Cabeça feita e vontade própria, sempre foi assim. Eu não sou marionete de ninguém. Não me iludo com promessas, não espero migalha de ninguém. Se quiser andar do meu lado, anda direito. Se não, sai do caminho. Essa sou eu. Sem filtro, sem máscara, sem medo. A vida nunca foi um conto de fadas pra mim. Minha primeira desilusão amorosa veio pesada, dessas que a gente nunca esquece. Eu era novinha ainda, apaixonadinha pelo meu primeiro namorado. Achava que tava vivendo uma história linda, daquelas de filme. Mas aí, veio a bomba. Meu pai descobriu que o safädo era X9. Tava passando informação pros inimigos. Não deu nem tempo de eu entender direito. Meu pai, resolveu o problema do jeito dele: no ferro. Frio e rápido. Foi minha primeira lição de vida: no nosso mundo, confiança é mais preciosa que amor. Chorei? Chorei. Sofri? Sofri e chorei de novo. Mas aprendi que aqui, emoção demais é fraqueza. Desde esse dia, jurei pra mim mesma: pode até bater forte o coração, mas minha cabeça é quem manda no meu corpo. Depois desse tombo, ainda tive um lance com um dono de morro aí. Um cara da responsa, bom de papo, sabia tratar uma mulher. Ficamos um tempo juntos, foi maneiro, mas acabou. Cada um pro seu lado, sem briga, sem mágoa. Mas ele ainda insiste, de vez em quando manda mensagem perguntando como eu tô, falando que sente saudade, pedindo "só uma última vez". Eu dou risada. Menino, a fila anda! Eu não sou muito de jogar fora não, gosto de fazer uma reciclagem boa, mas nesse caso. Melhor deixar no passado. Apesar de tudo, eu sou uma mulher que leva a vida no alto astral. Não vivo me martirizando pelo que passou, nem me lamentando. Aqui na quebrada, nëgo me respeita, mas também me ama de verdade. Não é só porque eu sou filha do Ratão não. É porque eu me importo. Sempre me importei. Pra mim, comunidade vem em primeiro lugar. De que adianta ter poder, ter respeito, se meu povo tá sofrendo? Eu botei pra frente um projeto pros muleques da favela, pras mães solteiras também. Ensino pras crianças que elas podem sonhar além do morro, além da nossa realidade dura. A igreja dá uma força, minha mãe tá sempre no meio, rezando, correndo atrás de doação, fazendo bazar. É bonito de ver. Eu amo criança. Amo mesmo. Tenho aquele sonho meio bobo de um dia ter a minha cria correndo pela casa, bagunçando tudo. Quem olha pra mim, toda tatuada, cheia de piercing, traficante assumida, acha que eu sou feita de pedra. Mas quem convive sabe: com quem merece, eu sou coração puro. Agora, pisa na bola comigo ou com quem eu protejo, aí esquece. Não tem perdão, não tem segunda chance. Porque na vida a gente aprende: quem trai uma vez, trai duas, três. E eu não sou mulher de ser feita de boba. Eu curto viver o presente. Gosto de um pagode, de um funk pesado, de churrasco de beira de laje, de jogar conversa fora com a rapaziada. Sou daquelas que ri alto, que dança, que abraça, que zoa. A vida já é dura demais pra gente andar com cara fechada o tempo todo. Prefiro espalhar leveza onde eu passo, mas sem nunca esquecer quem eu sou e de onde vim. Ser herdeira de uma quebrada é carregar no peito uma responsabilidade enorme. É ser a herdeira de um império construído no meio da guerra, mas também é ser esperança pra muita gente que acredita em mim. É saber equilibrar o poder com a humanidade. É viver entre o tiro e o sorriso, entre o ferro e o abraço. E eu vou seguindo assim: de cabeça erguida, com meu jeitão marrento, minha alma leve e meu coração cheio de amor pra dar, pra quem merece, é claro.
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