Fábio Narrando
Desci do táxi com o coração apertado. Paguei a corrida, agradeci com um aceno breve e puxei minha mala do banco de trás. A rodinha arrastou um pouco no asfalto irregular até eu alcançar a entrada do hospital. O lugar parecia ainda mais frio e impessoal do que o normal. Ajustei o terço pendurado no meu pescoço, aquele que minha mãe me deu quando eu ainda era só um menino, e respirei fundo antes de atravessar as portas automáticas.
Eu não estava de batina hoje. Achei que um terno fosse mais discreto, mas o terço, ah, esse eu nunca tirava. Era minha proteção, minha força.
Me aproximei da recepção com passos firmes, ainda que meu peito estivesse em guerra.
— Boa tarde — falei, com a voz rouca de ansiedade. — Sou Fábio. Vim ver minha mãe, Maria da Conceição Rossi.
A moça, jovem e com uma expressão cansada, digitou algumas coisas no computador, olhou para mim e sorriu de forma educada.
— Um momento, senhor, por favor.
Assenti e encostei na parede ao lado, apertando o terço entre os dedos. O hospital tinha aquele cheiro de desinfetante misturado com tristeza, e cada segundo parecia pesar mais nas minhas costas.
Depois de alguns minutos, a recepcionista chamou:
— O senhor já pode subir. Quarto 312. Elevador à direita.
Agradeci baixinho, puxando a mala junto, e segui pelo corredor branco e iluminado. Cada passo parecia ecoar nos meus ouvidos, abafando qualquer outro som ao redor. Quando alcancei o elevador, apertei o botão e esperei, fitando meu reflexo nas portas prateadas. Me vi ali: paletó escuro, rosto cansado, e o terço reluzindo contra a camisa branca.
No terceiro andar, caminhei até o quarto indicado. Quando parei diante da porta 312, minhas mãos começaram a tremer. Fechei os olhos, tentando conter a emoção que ameaçava me dominar. A realidade me acertou como um soco: eu ia ver minha mãe, E não sabia em que estado a encontraria.
Passei a mão suada na maçaneta e, com esforço, girei.
A porta rangeu suavemente enquanto se abria.
— Mãe — minha voz saiu fraca, embargada.
No quarto, vi aquela mulher que sempre foi meu porto seguro, agora deitada na cama, tão frágil e pequena. O coração pareceu falhar dentro do peito.
Ela virou o rosto devagar e, quando me viu, um sorriso cansado iluminou suas feições.
— Fábio... meu menino... você veio...
Entrei no quarto, largando a mala no canto, indo até ela com passos trêmulos.
— Claro que eu vim, mãe. Eu nunca te deixaria sozinha.
Ela estendeu a mão e eu a segurei com carinho, beijando seus dedos frágeis.
— Você tá bem, filho? — perguntou, acariciando meu rosto.
— Melhor agora. Melhor agora que tô aqui com a senhora.
Os olhos dela brilharam com lágrimas contidas, e eu senti os meus também se encherem. Me ajoelhei ao lado da cama, sem vergonha nenhuma de demonstrar todo o amor que transbordava do meu peito.
Ali, naquele quarto simples, com o terço da minha infância apertado entre nós dois, eu soube que não importava o que acontecesse: a fé e o amor me guiariam de volta pra ela.
Me mantive ajoelhado ao lado da cama, segurando a mão dela, sentindo o toque tão fraco, tão diferente da mulher forte que eu conhecia.
— Mãe, vai ficar tudo bem, eu vim cuidar da Senhora — falei, acariciando o rosto dela, com as costas da mão.
Ela me olhou por alguns segundos, sorrindo com ternura, mas em seus olhos havia uma confusão dolorosa. Como se estivesse tentando se lembrar de alguma coisa. Senti o peito apertar.
— Que bom que veio me ver, moço — disse baixinho, sua voz rouca e cansada. — Você é amigo do meu filho?
Fechei os olhos por um instante, sentindo uma fisgada no coração, Ela me reconheceu assim que entrei, e agora não lembra mais.
— Sou eu mãe, Sou seu filho.
Ela sorriu de novo, como se não entendesse direito, e ficou em silêncio, o olhar perdido em algum ponto do quarto.
Apertei a mão dela com mais força, lutando contra o nó na garganta. O silêncio dela me desesperava, então me levantei devagar e saí do quarto, enxugando rapidamente as lágrimas que caíam sem controle.
No corredor, encontrei minha tia, que conversava baixinho com uma enfermeira. Ela me viu e veio até mim, com o rosto pesado de preocupação.
— Tia, pelo amor de Deus, o que tá acontecendo com a minha mãe? — perguntei, tentando manter a voz firme, mas ela falhou na última palavra.
Minha tia respirou fundo, os olhos marejados. Demorou uns segundos pra responder.
— Fábio... a situação da sua mãe piorou muito nos últimos dias. Ela está muito debilitada, fraquinha, quase não come — parou, como se buscasse coragem pra continuar.
— Eu percebi que ela não me reconheceu, quer dizer de primeira sim, mas depois esqueceu — sussurrei, sentindo a garganta fechar.
Ela assentiu, com lágrimas nos olhos.
— Os médicos fizeram alguns exames, filho... E... — a voz dela falhou — e ela foi diagnosticada com Alzheimer.
Foi como levar um soco no estômago. Dei dois passos pra trás, encostando na parede, tentando assimilar o que tinha acabado de ouvir. Meu terço pendurado no pescoço parecia pesar uma tonelada.
— Alzheimer — repeti, quase sem ar. — Mas, mas ela sempre foi tão ativa, tão cheia de vida.
Minha tia se aproximou, me abraçando apertado.
— Eu sei, meu amor, eu sei. Mas agora a gente precisa ser forte por ela. Ela ainda sente amor, ainda precisa de carinho, mesmo que esqueça às vezes.
Fechei os olhos, deixando as lágrimas rolarem sem vergonha. No fundo, a dor que eu sentia era por perder minha mãe aos poucos, sem poder fazer nada pra impedir.
— Ela não lembra que eu sou padre — murmurei, quase pra mim mesmo.
— Não importa o título, Fábio. Você é o filho dela. É disso que ela precisa agora.
Respirei fundo, buscando forças onde eu já nem sabia que existia. Enxuguei o rosto com a manga do paletó e olhei pra porta do quarto.
— Eu não vou desistir dela. — falei, mais pra mim mesmo do que pra minha tia. — Ela sempre lutou por mim. Agora é a minha vez de lutar por ela.
Voltei para o quarto, com o terço pendurado no peito e o coração quebrado, mas decidido a fazer cada momento que nos restasse valer a pena.