05 - Jaqueline

1235 Palavras
Jaqueline Narrando Acordei na pilha hoje. Dia de pagode na praça, e eu simplesmente adoro! Espreguicei preguiçosa, sentindo os lençóis deslizando na pele. Peguei o celular no criado-mudo, dei aquela conferida rápida nas mensagens, só uns papos furados de sempre. Ignorei. Levantei no embalo, fui direto pro banho. Água gelada no corpo, gloss brilhando na boca e aquele shortinho jeans que é meu xodó. Top justinho, chinelo de dedo, e pronto. Sexy sem nem fazer esforço. Desci pra cozinha sentindo o cheiro do café no ar. Minha mãe tava sentada na mesa, olhando pro nada, com uma tristeza que dava até pena. Estranhei. — Que foi, mãe? — perguntei, puxando a cadeira e me sentando de qualquer jeito. Ela soltou um suspiro pesado. — A paróquia tá sem padre... Mordi o pão na chapa antes de perguntar: — Que houve com ele? — Internado, problema no coração — respondeu com um tom desolado. Meu pai, que tava na cozinha pegando café, soltou uma risada de canto. — Dessa vez eu não tive culpa — disse, como quem já se defendia. Não aguentei e dei risada também. A história do meu pai correndo com padre morro abaixo era clássica. Dizem que o padre falava demais, espalhava fofoca na paróquia. Nunca confirmei, também nem esquento. Igreja, pra mim, é só uma vez por ano, quando minha mãe obriga pra eu me confessar. Vou, invento umas mentirinhas leves e volto pra casa rindo. Enquanto eu terminava de comer, minha mãe lamentava a falta do padre, preocupada com o bazar beneficente. Meu pai só tomava o café dele, rindo baixo. Eu? Já tava pensando no pagode, na resenha que ia rolar, na cerveja trincando e quem sabe num beijo roubado entre uma música e outra. Vida é isso aí: fé pra quem quer, samba pra quem ama. Saí de casa ajeitando o top no corpo, minha Glok já tava carregada na cintura, montei na minha moto. Eu tinha coisa mais importante pra fazer. Dia de boca é dia de guerra disfarçada: sorriso no rosto, olhar de águia. O sol já castigava sem dó quando cheguei no beco principal. A rapaziada tava espalhada pelos cantos, cada um na sua função. Cumprimentei uns, joguei charme pra outros. Mulher no comando incomoda? Incomoda. Mas comigo ninguém tira onda. Fiquei no movimento, conferindo o entra e sai. Cliente de olho arregalado, sempre na pressa. Eu fazia meu corre, resolvia pepino, dava bronca nos mais novos que se engraçavam. Quando precisava, era direta: falava olhando no olho, voz baixa, mas firme. Respeito se conquista na marra. O dia passou nesse ritmo: calor, fumaça no ar, dinheiro girando, atenção redobrada. E no fundo, a ansiedade martelando, hoje é dia de descer até o chão. No fim da tarde, dei o toque pro outro turno assumir. Dei tchau com a mão e subi na moto sorrindo. Tomei um banho demorado, deixando a água gelada correr no corpo, apagando o cheiro da rua. Saí do chuveiro me sentindo pronta. Escolhi minha roupa com carinho: shortinho jeans rasgado, cavado do jeito que eu gosto, top preto justinho, mostrando a barriga sarada. Passei aquele hidratante que deixa a pele brilhando, caprichei no perfume doce, só pra deixar rastro onde passasse. Nos pés, rasteirinha de brilho. Cabelo solto, boca melada de gloss. Me olhei no espelho e sorri. Pronta pra causar. Na rua, a batucada já ecoava morro acima. A galera começava a descer, copo na mão, sorriso na cara. No meu caminho, todo mundo olhava, alguns de lado, outros na cara dura. Mas eu já tô acostumada. Pagode na praça é outra vida. É onde a gente esquece a correria, onde o morro vira festa, onde eu me sinto rainha sem coroa. E hoje, mais do que nunca, eu vou aproveitar cada segundo. Quando cheguei na praça, o pagode já tava fervendo. A roda de samba no meio, a galera em volta, copo de cerveja na mão, todo mundo no passinho. O som das caixas batendo no peito, as luzes improvisadas penduradas nos postes, o cheiro de churrasquinho misturado com perfume barato. Clima perfeito. Fui direto pro bar improvisado, peguei minha latinha gelada e dei o primeiro gole com gosto. Deixei a música invadir meu corpo, deixei a vibe tomar conta. Logo puxaram um pagodão antigo, daqueles que a gente canta até sem querer. Não resisti. Soltei o quadril, ergui os braços e comecei a dançar. Sem vergonha, sem medo. Cada batida era um arrepio subindo pela espinha. Entre um gole e outro, me deixei levar pela resenha. Cumprimentei conhecidos, ri de umas besteiras, dancei com umas amigas que encontrei pelo caminho. Todo mundo feliz, todo mundo no mesmo ritmo. Um carinha até tentou se aproximar, puxar assunto. Dei aquele sorriso de canto, dispensei educada. Hoje eu não queria ninguém atrapalhando minha vibe. Hoje era eu, o samba e a liberdade. Quando o grupo puxou "Tá Escrito", fechei os olhos e cantei junto, com o peito cheio. Porque no meio de tanta loucura que é minha vida, é nesses momentos que eu me sinto viva de verdade. Dançando no meio da praça, cerveja na mão, rindo à toa, eu era só felicidade. Só eu sabia o que eu tinha deixado pra trás naquele dia. Só eu sabia o quanto eu precisava daquilo. A noite prometia ser longa, e eu tava pronta pra viver cada segundo dela. A madrugada foi caindo e a praça continuava fervendo. A cerveja já não tava mais tão gelada, mas o clima esquentava cada vez mais. E eu ali, no meio de todo mundo, dançando como se o mundo fosse acabar amanhã. Já tava naquela vibe boa, rindo à toa, quando senti um olhar pesado em cima de mim. Diferente dos outros. Não era só secando, era encarando de verdade, daquele jeito que arrepia até o couro cabeludo. Olhei de lado, disfarçando, e vi ele encostado na mureta, copo na mão, sorriso de canto. Moreno, forte, tatuagem subindo pelo braço. Olhar de malandro, mas tranquilo. Do jeito que eu gosto. Conheço bem é do Dendê. Ele nem tentou se aproximar de imediato. Ficou me olhando, como se tivesse todo o tempo do mundo. E isso, pra mim, foi o que mais chamou atenção. Não era pressa, era desafio. Continuei dançando, só que agora pra ele. Movimentos mais lentos, mais provocantes. Cada rebolada era de propósito, cada sorriso era um convite. Dei mais um gole na cerveja, sem desviar o olhar. Ele sorriu de volta, levantou o copo, como se brindasse comigo de longe. Meu coração bateu mais forte. Deixei a música me embalar, mas agora com outra intenção. Virei de costas, joguei o cabelo pro lado e deixei o quadril falar por mim. Se ele queria brincar, ia ter que aguentar o tranco. Quando virei de novo, ele já tinha saído da mureta. Vinha caminhando em minha direção, devagar, como quem sabe que vai ganhar o jogo. Parou na minha frente, ainda sem dizer nada. Só estendeu a mão. Peguei sem pensar. Mão firme, quente. Ele me puxou pra mais perto e a gente começou a dançar junto, no passinho do samba, sem pressa, como se o mundo tivesse parado só pra nós dois. Cada toque, cada olhar, era um incêndio aceso. Ali, no meio da praça, eu esqueci quem eu era, esqueci da boca, do morro, de tudo. Só queria sentir aquela vibe, aquele calor bom que subia pelo corpo. Será que hoje tem?
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