Capítulo 42 SAMARA NARRANDO Eu sempre gostei da Clara. Desde a primeira vez que vi aquela menina atravessando o pátio do consultório da Jamile como se não devesse nada a ninguém, rindo alto demais, falando o que queria, olhando no olho sem pedir licença. Ela era problema. Do tipo que chega fazendo barulho. Mas também era viva. E eu sempre tive uma queda por gente viva demais. Talvez porque eu ande morta por dentro há tempo demais. Quando percebi o jeito que ela olhava pro GT, não foi surpresa. Clara não olha escondido. Ela encara. Provoca. Testa. E o mais estranho de tudo não foi isso. Foi eu não sentir nada. Nenhuma pontada. Nenhuma raiva. Nenhum incômodo. Nada. E isso foi o sinal mais claro de que a gente já tinha descido a ladeira sem freio há muito tempo. Porque se existisse

