A madrugada estava quase cedendo ao amanhecer quando eu percebi que não dava mais para fugir. Não de mim, não dele, e muito menos do passado que ainda latejava nos meus ossos, como uma história que nunca terminou de ser escrita. A verdade que Elias derramou sobre mim algumas horas antes ainda vibrava no meu peito, mas havia outra que precisava ser encarada antes que o amor entre nós sufocasse sob o peso da menina assustada que eu sempre fui. E essa verdade tinha nome, cheiro, presença: meu pai. Caminhei pelo corredor como quem atravessa um terreno minado. Cada passo denunciava uma fragilidade antiga que meu corpo reconhecia antes mesmo de eu admitir. A porta do escritório estava só encostada, e eu escutei a arrogância familiar na voz dele. — Que bom que botou a cabeça no lugar e voltou…

