A manhã seguinte foi fria e silenciosa. Ricardo saiu cedo para uma reunião e Isabela ficou sozinha no apartamento. Enquanto tomava café, reparou que o celular dele estava sobre a bancada, carregando. Não era hábito dele esquecer.
Por alguns minutos, ela ignorou a presença do aparelho. Mas a lembrança da noite anterior — a mancha de vinho, o tom público de repreensão — começou a corroer sua calma. Pegou o celular, sem real intenção de fuçar, mas quando a tela acendeu, uma notificação de mensagem chamou sua atenção.
Era de Camila. O conteúdo pré-visualizado mostrava apenas: "Sobre ontem… ainda estou sorrindo."
O coração de Isabela acelerou. Tocou na notificação e foi levada à conversa. O histórico estava incompleto, como se mensagens antigas tivessem sido apagadas. Mesmo assim, havia registros recentes:
— Você ficou incrível no palco.
— Foi porque você estava lá.
— Vai passar aqui depois da reunião?
— Se der tempo…
A combinação de frases simples com um contexto carregado era suficiente para ela entender. A distância que Ricardo mantinha em casa não era apenas sobre trabalho.
O barulho da chave girando na porta a fez travar. Colocou o celular de volta na bancada e respirou fundo. Ricardo entrou, falando no viva-voz com alguém, provavelmente um fornecedor. Ele desligou a ligação e olhou para ela.
— Ainda em casa?
— Trabalhando de casa hoje — respondeu, tentando parecer neutra.
Ele pegou o celular e, por um segundo, Isabela jurou ter visto um lampejo de alerta no olhar dele. Sem dizer mais nada, foi para o quarto trocar de roupa e saiu novamente.
Assim que ficou sozinha, Isabela sentiu o peso da confirmação. Não tinha provas físicas além das mensagens recentes, mas seu instinto gritava. Ligou para Marina.
— Eu acho que é pior do que imaginei.
— O que aconteceu?
— Mensagens. Ele e a Camila. Apagadas… mas não o suficiente para esconder.
— E o que você vai fazer?
— Ainda não sei. Mas não posso fingir que não vi.
Decidiu sair de casa para esfriar a cabeça. Foi até o mercado, comprou frutas frescas, farinha e manteiga. Passou o dia na cozinha, preparando tortas para entregar a alguns conhecidos. Cada receita era um escape, uma forma de transformar tensão em algo palpável e, pelo menos, doce.
No fim da tarde, enquanto tirava uma torta do forno, recebeu uma ligação de um número desconhecido.
— Senhora Andrade? — disse uma voz feminina. — Aqui é Beatriz, assistente de um dos diretores. Preciso avisar que a senhora não está na lista do jantar de gala da próxima semana.
— Lista? — perguntou, surpresa.
— Sim, o convite foi direcionado apenas para o presidente e… a coordenadora do projeto.
Isabela agradeceu e desligou. Não precisava que Beatriz dissesse o nome de Camila. Já estava implícito.
Naquela noite, quando Ricardo voltou, Isabela estava sentada no sofá, com o caderno de receitas no colo. Ele se aproximou para cumprimentá-la, mas ela se levantou antes que ele pudesse encostar.
— Recebi uma ligação hoje. Não estou na lista do jantar de gala.
— Não é um evento para todos — respondeu, com naturalidade. — É mais restrito, focado na equipe do projeto.
— E a “equipe” inclui Camila, mas não eu. Certo?
— Não vamos começar… — Ele suspirou. — É só trabalho.
Isabela deu um passo à frente. — Trabalho não manda mensagens dizendo que ainda está sorrindo por causa da noite anterior.
Ele ficou em silêncio por um segundo, mas se recuperou rápido. — Você está interpretando errado.
— Então me explique.
— Não preciso explicar tudo — disse ele, já impaciente. — Confie em mim.
Ela sorriu, sem humor. — A confiança não sobrevive a mensagens apagadas.
Ricardo desviou o olhar, como se evitasse um golpe direto. — Não vou discutir.
Foi para o escritório e fechou a porta, deixando Isabela sozinha na sala. Ela olhou para o caderno em suas mãos. Nas páginas amareladas, estavam receitas de família, segredos culinários que sobreviveram a mudanças de endereço, a perdas e a tempos difíceis. Tudo ali tinha mais consistência que o casamento dela.
Antes de dormir, escreveu uma nota no final da última página usada: “Não apague o que prova quem você é. Um dia, isso será minha salvação.”