Capítulo 6 – Mancha de Vinho

746 Palavras
O evento da noite era um jantar beneficente para investidores, realizado no salão nobre de um clube exclusivo da cidade. Ricardo havia insistido para que Isabela fosse — “é importante manter as aparências”, disse —, e ela, mesmo relutante, aceitou. Vestiu um longo azul-marinho que realçava a pele clara e prendeu o cabelo em um coque baixo. Ao chegar, percebeu que a maioria das mulheres usava vestidos em tons claros e delicados. O dela parecia destoar, e não de forma positiva aos olhos daquela elite. Ricardo a apresentou a alguns empresários, sempre com aquele sorriso protocolar, e depois se afastou para conversar com um grupo de investidores. Isabela ficou sozinha por alguns minutos, observando os detalhes do salão: lustres imensos, arranjos de rosas brancas e mesas postas com talheres de prata reluzente. Estava prestes a se servir de uma taça de vinho branco quando sentiu um leve toque no ombro. — Boa noite, senhora Andrade — disse uma mulher alta, magra, com um sorriso controlado. Era Júlia Fernandes, esposa de um dos diretores. — Então é você que todos comentam… — Não sei do que está falando — respondeu Isabela, tentando manter a educação. — Sobre a nova assistente do Ricardo. Ela é… admirável, não? O incômodo começou a crescer no peito. Isabela sorriu de forma contida e se afastou. Foi até uma das mesas para se servir de água, mas um garçom passou por ela com uma bandeja de taças de vinho tinto. No exato momento em que se virou para pegar um guardanapo, alguém esbarrou em seu braço — a taça se desequilibrou e o vinho espirrou, tingindo seu vestido azul com manchas vermelhas. O salão pareceu ficar em silêncio por alguns segundos. Alguns convidados se viraram para olhar, e ela sentiu cada olhar como uma lâmina. — Ai, desculpe, eu não vi! — disse a jovem que havia esbarrado nela, visivelmente constrangida. — Tudo bem… — Isabela murmurou, tentando minimizar o incidente. Mas então veio a voz de Ricardo, alta o suficiente para que todos ao redor ouvissem: — Isabela, por favor… mais cuidado. Não estamos na cozinha. A frase cortou o ar. Ela ficou imóvel, com o guardanapo na mão e o vinho escorrendo pelo tecido. Algumas pessoas riram baixinho; outras disfarçaram, mas o constrangimento era palpável. Camila, como se fosse um reflexo, apareceu com um sorriso simpático e um copo de água gaseificada. — Deixe-me ajudar, senhora Andrade — disse, pegando um guardanapo limpo e começando a esfregar o tecido, sem realmente limpar nada. — Vestido lindo… uma pena. — Não se preocupe — Isabela disse, tirando o guardanapo das mãos dela. — Eu cuido. Foi até o lavabo, respirando fundo. No espelho, a mancha parecia ainda maior sob a luz branca. Tentou limpar, mas apenas espalhou mais o vinho. O azul do vestido estava irremediavelmente marcado. Encostou-se à pia, sentindo o coração acelerar. Não era sobre o vestido. Era sobre a frase. “Não estamos na cozinha.” Outra vez. Repetida como um lembrete público de que ela não pertencia àquele cenário. Quando voltou ao salão, Ricardo já estava em outra roda de conversa, como se nada tivesse acontecido. Camila, ao lado dele, ria de algo que um dos investidores dizia. Ninguém parecia lembrar do incidente — exceto Isabela, que o carregava como uma marca invisível na pele. Marina, que também estava no evento, se aproximou. — Eu vi tudo — disse, baixinho. — Você não precisa ficar aqui. — Não posso simplesmente ir embora. — Pode, sim. A sua dignidade não está à venda. Isabela hesitou, mas acabou ficando até o final, fingindo normalidade. Na saída, no estacionamento, Ricardo comentou: — Espero que você não tenha levado aquilo a m*l. Eu só quis evitar mais atenção. — Conseguiu — respondeu ela, seca. — Todo mundo reparou. O caminho de volta para casa foi silencioso. Ao entrar no apartamento, Isabela tirou o vestido manchado e o jogou sobre a cadeira. Ficou um tempo olhando para o tecido, como se as manchas contassem a história inteira. Sentou-se à mesa com o caderno de receitas aberto. Escreveu: Torta de frutas vermelhas – lembrar: manchas também podem ser belas. Era um recado para si mesma, uma forma de transformar humilhação em matéria-prima. Fechou o caderno e prometeu que aquela não seria a última vez que alguém olharia para ela num salão cheio. Mas, da próxima vez, o olhar não seria de pena ou de riso — seria de respeito.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR