Capítulo 5 – Silêncio à Mesa

668 Palavras
O jantar na casa dos Vasconcellos já começava antes de Isabela chegar. Não no prato, mas nos olhares, nos sussurros, na maneira como a sogra posicionava cada taça de cristal como se fosse um troféu. A mansão era iluminada por lustres que espalhavam uma luz dourada sobre os móveis antigos, herdados de gerações. O cheiro do assado no forno misturava-se ao perfume caro de Dona Helena, que a recebeu com um sorriso polido. — Isabela, querida, pensei que viria com o Ricardo. — A voz soava doce, mas a pontinha de crítica estava lá. — Ele ainda estava no escritório. Disse que chegaria depois — respondeu, mantendo o tom neutro. Foi conduzida à sala de jantar. A mesa, comprida e formal, tinha lugares demarcados. Isabela foi colocada quase no final, longe da cabeceira onde o sogro e a sogra já estavam sentados. O espaço ao lado dela estava vazio — reservado para Ricardo. O jantar começou com conversa amena sobre negócios e viagens. Isabela comia em silêncio, escutando. O tema logo mudou para o coquetel do dia anterior. — Camila estava deslumbrante, não? — comentou uma das cunhadas, servindo-se de vinho. — Sim, e muito segura no palco — disse o sogro, erguendo a taça. — É raro ver alguém tão preparada. Isabela manteve o olhar no prato. Queria se levantar e sair, mas permaneceu. Dona Helena inclinou-se sobre a mesa, como se compartilhasse uma confidência: — Você deve estar contente, Isabela. A Camila ajuda muito o Ricardo. Com ela, ele pode se concentrar em coisas mais importantes. A frase veio como um corte. “Coisas mais importantes” do que o que ela poderia oferecer. Antes que pudesse responder, o som da porta se abriu. Ricardo entrou, cumprimentando a todos com beijos rápidos e um sorriso profissional. Sentou-se ao lado dela e pegou o guardanapo sem olhá-la. — Boa noite — disse Isabela. — Boa noite — respondeu, já se servindo. A conversa seguiu, agora centrada em um contrato que Ricardo estava prestes a fechar. Dona Helena aproveitou para alfinetar: — Imagino que a Camila tenha ajudado muito nisso, não é, Ricardo? — Sim, ela tem se mostrado bastante eficiente — respondeu, sem perceber a tensão. Isabela manteve a postura, mas as palavras pesavam. Naquela mesa, o silêncio dela parecia conveniente para todos. Quando a sobremesa chegou — um pudim de leite perfeitamente liso —, Dona Helena voltou a cutucar: — Você ainda cozinha, Isabela? Com tantos compromissos, pensei que tivesse deixado isso de lado. — Cozinho, sim. — Ela forçou um sorriso. — Sempre que tenho tempo. — Deve ser difícil manter essa… disposição. — A sogra ergueu as sobrancelhas, dando ênfase à palavra. Ricardo mexia no celular, respondendo mensagens. Isabela viu de relance o nome de Camila na tela. Terminada a sobremesa, todos se dirigiram à sala para o café. Isabela ficou para ajudar a recolher os pratos, mas foi dispensada pela governanta. — Dona Helena prefere que cuidemos de tudo — disse a mulher, com um ar constrangido. No carro, o silêncio entre ela e Ricardo era mais espesso que o ar frio do ar-condicionado. Até que ele falou: — Você não precisava ter ficado tão calada. — Eu não encontrei espaço para falar — respondeu. — Às vezes, é só se impor. — Difícil se impor quando todas as perguntas têm o nome de outra pessoa na resposta. Ele suspirou, mas não rebateu. Chegando ao apartamento, Isabela foi direto para o banho. A água quente escorria pelos ombros, levando parte do peso do jantar. No espelho embaçado, enxugou um canto com a mão e viu o próprio rosto: maquiagem borrada, olhos cansados, mas também uma faísca. Abriu o caderno de receitas sobre a bancada e escreveu “Pudim de Leite – versão da Isa”. Abaixo, anotou ajustes, pensando em como transformar aquele prato comum em algo só dela. Era mais que uma receita. Era uma forma de lembrar que, mesmo cercada de silêncios, podia criar algo que ninguém poderia tirar.
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