O coquetel da Vasconcellos Holding tinha cheiro de dinheiro novo e ambição antiga. O salão do hotel cinco estrelas brilhava sob lustres de cristal, e as paredes espelhadas multiplicavam sorrisos treinados e taças tilintando. Isabela chegou alguns minutos antes, a convite protocolar. Vestiu um tubinho preto simples, cabelo solto, maquiagem discreta. Queria passar despercebida — e, paradoxalmente, estava cansada de ser invisível.
No foyer, painéis exibiam o logo da empresa e o título do projeto internacional. “Coordenação: Camila Torres” aparecia em letras douradas que pareciam rir da sobriedade dos convites. Marina estava ao lado dela.
— Respira. Anda até o buffet e ignora qualquer coisa que te faça tremer — disse a amiga.
— Combinado — Isabela respondeu, apertando a clutch.
O salão encheu rápido. Ricardo surgiu no centro como um farol: terno cinza, gravata estreita, expressão segura. Camila apareceu ao seu lado, vestido branco de um ombro só, cabelo preso num coque impecável. O par perfeito para fotos.
O mestre de cerimônias anunciou:
— Senhoras e senhores, boa noite. É uma honra apresentar a nova fase da Vasconcellos Holding. Chamamos ao palco nosso CEO, Ricardo Vasconcellos, e a coordenadora do projeto internacional, Camila Torres.
Aplausos. Ricardo falou sobre metas e expansão. Camila assumiu o microfone com voz suave e segura.
— Nosso foco é converter oportunidades em resultados mensuráveis — disse, enquanto gráficos subiam no telão. Eram os mesmos que Isabela revisara noites a fio, agora com paleta nova e assinatura alheia.
— Respira pela boca — sussurrou Marina.
Perto do fim, Camila improvisou:
— Agradeço especialmente ao presidente Ricardo, que acreditou em mim desde o primeiro dia. Sua confiança me trouxe até aqui.
Mais aplausos. O agradecimento era a moldura perfeita para apagar discretamente qualquer contribuição de outras mãos.
Após a apresentação, Camila foi cercada por cumprimentos. Ricardo, satisfeito, a deixou brilhar sozinha. Isabela se dirigiu à mesa de doces, onde tarteletes e macarons reluziam. Provou uma, pensando na textura e no equilíbrio do açúcar — o olhar de quem sempre busca perfeição na cozinha.
— Obrigado por manter discrição hoje — disse Ricardo, surgindo atrás dela.
— Entendo que você escolheu quem quer ao seu lado no palco — respondeu, firme.
— A Camila entrega objetividade. A empresa exige outra imagem.
— Outra imagem… Entendi.
Ele se afastou, chamado por um investidor. Camila aproximou-se com duas taças de espumante.
— Aceita? — perguntou, sorrindo.
— Obrigada.
— Você estava linda na plateia. Às vezes, o bastidor é o melhor lugar para quem entende a engrenagem. E você entende, não é? Mãos que fazem o relógio andar sem aparecer no mostrador.
Isabela sustentou o olhar. — Você fala como quem sabe a diferença entre mecanismo e ponteiro.
— Eu sou o ponteiro de hoje — Camila piscou. — O mecanismo muda, mas o tempo segue. Sem ressentimentos.
Marina chegou, salvando a situação. — Com licença, temos outro compromisso.
No foyer, Isabela respirou fundo diante de um painel com o logo da empresa.
— Eles me apagaram — disse.
— Não. Só aumentaram o brilho no lugar errado — retrucou Marina. — Você não é bastidor. Você é a receita inteira.
De volta ao salão, um fotógrafo registrava Camila e Ricardo juntos. A foto que sairia nos portais no dia seguinte já estava feita — e Isabela não apareceria nem no reflexo. No estacionamento, tirou os sapatos e sentiu o chão frio.
— Chega — murmurou. — Não vou ser peça invisível na engrenagem de ninguém.
Marina sorriu. — Então vamos começar.
Em casa, Isabela abriu o caderno de receitas da avó. Na primeira página em branco, escreveu: Florescer. Abaixo, uma lista: “registro de MEI, catálogo de doces, fotos caseiras, pré-venda no bairro”. Fechou os olhos e viu não o palco do hotel, mas uma cozinha com luz morna, gente entrando atraída pelo cheiro de bolo no forno.
Naquela noite, adormeceu sem pedir permissão ao amanhã.