A cafeteria do 28º andar era o ponto de encontro informal da Vasconcellos Holding. Era onde as conversas mais perigosas aconteciam — aquelas que nunca chegavam a atas ou relatórios, mas que podiam decidir destinos.
Isabela entrou apenas para buscar um café forte. A noite anterior tinha sido mais uma daquelas em que o sono não vinha. Entre uma olhada no celular e outra na parede branca do quarto, ela repassava cada detalhe do dia, tentando encontrar o momento exato em que sua vida havia começado a escorrer pelos dedos.
O cheiro de café recém-passado a envolveu, mas antes que pudesse chegar ao balcão, vozes conhecidas a fizeram parar no corredor ao lado.
— Você viu a lista dos convidados para o coquetel de amanhã? — perguntou uma das analistas de marketing.
— Vi. E sabe o que é pior? — a outra respondeu, abaixando a voz. — A Camila vai discursar.
Isabela prendeu a respiração.
— Pois é… dizem que o próprio Ricardo pediu para ela ser a “imagem” do projeto. — A primeira soltou uma risadinha. — Imagina, a esposa dele na plateia e a assistente no palco.
— Acho que nem esposa por muito tempo ela vai ser… — A segunda concluiu, antes de tomar um gole de café.
O coração de Isabela deu um salto doloroso. Não era apenas a humilhação do momento; era a certeza de que as pessoas já não a viam como parte da vida de Ricardo.
Entrou na cafeteria e se forçou a manter o queixo erguido. Pediu o café ao barista e esperou em silêncio, mas sentia os olhares pesando sobre suas costas.
No reflexo da vitrine, viu Camila entrar logo atrás dela, com um sorriso caloroso para todos ao redor. O vestido branco, simples mas sofisticado, destacava a cintura fina. Ela caminhou até a mesa onde duas funcionárias a aguardavam e se sentou, cruzando as pernas como se o mundo fosse seu palco.
— Então, amanhã será o grande dia — disse uma delas, animada.
— Estou animada, claro — respondeu Camila, fingindo modéstia. — Mas sei que é uma responsabilidade enorme representar a empresa.
“Representar a empresa…” As palavras ecoaram na mente de Isabela como um aviso: ela estava sendo apagada, substituída peça por peça.
Pegou seu café e saiu sem dizer nada. No corredor, cruzou com Ricardo, que parecia apressado.
— Isabela, você pode passar na minha sala depois? — disse ele, sem parar de andar.
— Claro. — Ela tentou manter o tom neutro.
No escritório dele, encontrou o ambiente arrumado demais. As pastas estavam perfeitamente alinhadas, a mesa impecável. Sinal claro de que a assistente havia passado por ali.
Ricardo foi direto:
— Quero que você revise as atas do mês passado e prepare um resumo para o conselho.
— Só isso? — perguntou, sentindo a raiva ferver sob a superfície.
— É importante. — Ele evitou contato visual. — E, Isabela… amanhã, no coquetel, seria melhor você ficar mais na sua. O foco precisa estar na Camila.
Ela o encarou por alguns segundos. — E desde quando eu preciso de instruções sobre como me comportar?
Ele suspirou, como se não quisesse discutir. — Não crie problemas.
Saiu da sala com um nó na garganta. Não choraria ali, não na frente de todos. Em vez disso, ligou para Marina.
— Preciso sair daqui. Agora.
Marina apareceu quinze minutos depois, estacionando na frente do prédio. No carro, Isabela olhou pela janela enquanto as ruas passavam borradas.
— Falaram coisas horríveis sobre você? — perguntou Marina.
— Não foi o que disseram… foi a naturalidade com que disseram. Como se eu já estivesse fora da história.
Foram até uma pequena confeitaria no centro. Enquanto provavam fatias de bolo, Marina jogou o assunto na mesa:
— E se você começasse algo seu? Pequeno, só para não depender dele?
— Não tenho capital, não tenho clientes…
— Você tem talento, Isa. Isso vale mais do que metade dos cheques que esses empresários assinam.
Isabela não respondeu de imediato. Olhou para o prato: a fatia de bolo de limão estava perfeita, mas ela mentalmente ajustou a receita, diminuindo o açúcar, intensificando o sabor das raspas. Cozinhar era a única coisa que a fazia sentir controle sobre algo.
De volta para casa, sentou-se na mesa com seu velho caderno de receitas. As páginas amareladas carregavam letras da avó, pequenas anotações nas margens, e manchas de farinha que o tempo não apagou. Passou os dedos sobre uma receita de tartelete de morango e sorriu sozinha.
Talvez fosse apenas um devaneio, mas a ideia que Marina havia plantado não parecia tão impossível agora. Talvez houvesse, sim, um jeito de voltar a existir fora da sombra de Ricardo.
Enquanto isso, na cobertura da Vasconcellos Holding, Camila postava uma foto em suas redes: “Amanhã é o grande dia. Representar a empresa é uma honra.” A legenda vinha acompanhada de um emoji de coração vermelho.
Isabela viu a postagem e, pela primeira vez em muito tempo, não sentiu apenas tristeza. Havia uma pontada de desafio.