O dia seguinte começou com uma campainha insistente na porta do pequeno apartamento. Isabela ainda usava o roupão quando abriu, e se deparou com Marina Souza, sua melhor amiga desde a faculdade, equilibrando uma sacola de pão fresco e dois copos de café.
— Bom dia para quem não aceita café requentado — disse Marina, entrando sem pedir licença. — Você está péssima.
— Obrigada pela delicadeza — Isabela respondeu, com um meio sorriso cansado.
Marina olhou ao redor. O apartamento simples, alugado às pressas, ainda cheirava a tinta fresca. Era um espaço pequeno, mas limpo. Não havia quadros na parede, nem lembranças — Isabela deixara tudo para trás.
— Fiquei sabendo do jantar de ontem — disse Marina, entregando o café. — Helena nunca perde a chance de cutucar, não é?
Isabela suspirou. — É como se ela fizesse questão de me lembrar que eu sou… substituível.
— Não é, e você sabe disso. O problema é que eles têm medo de você perceber o próprio valor.
As palavras ficaram ecoando na mente de Isabela enquanto ela se arrumava para ir à empresa. Ainda estava oficialmente no quadro de funcionários como “assessora de projetos”, mas a função já não tinha o mesmo peso.
No hall do prédio corporativo, o reflexo no espelho do elevador a pegou desprevenida. A luz artificial iluminava os traços do seu rosto de um jeito impiedoso. A maquiagem, impecável. O coque, firme. Mas os olhos… os olhos entregavam o cansaço.
As portas se abriram e, para sua surpresa, Ricardo entrou. Ao lado dele, Camila Torres, com um vestido de corte justo e salto alto, segurando uma pasta e rindo de algo que ele havia dito.
— Bom dia, Isabela — disse Ricardo, formal, como se fosse um cumprimento entre conhecidos, não entre marido e mulher.
— Bom dia — ela respondeu, mantendo o tom neutro.
Camila, com um sorriso estudado, inclinou levemente a cabeça. — Senhora Andrade, sempre tão elegante.
O elevador seguiu, o silêncio cortado apenas pelo som metálico dos cabos. Isabela olhou de relance para Ricardo, que parecia ignorar completamente a tensão no ar. Seus olhos estavam fixos no painel luminoso dos andares, mas a mão dele estava perto demais da de Camila, quase roçando.
Um lampejo de lembrança veio à mente: a época em que eles ainda subiam juntos no elevador, conversando sobre o dia, rindo de pequenas coisas. Hoje, era como se estivessem em mundos diferentes.
No 20º andar, Camila desceu primeiro, deixando um perfume doce que ficou no ar. Ricardo permaneceu, mas não olhou para Isabela até que as portas se abriram no 28º.
— Precisamos conversar sobre sua função — disse ele, sem rodeios, enquanto caminhavam pelo corredor.
— A minha função ou a minha demissão? — Isabela retrucou, sem alterar o tom.
Ricardo não respondeu. Apenas entrou em sua sala e fechou a porta, deixando-a no corredor, com a pasta na mão e um peso no peito.
Ao longo do dia, Isabela tentou se concentrar, mas as conversas sussurradas e os olhares de canto de olho denunciavam que havia novidades correndo pela empresa. No café, ouviu dois funcionários comentando:
— Dizem que a Camila vai assumir a coordenação do projeto internacional.
— E a esposa dele? Vai ficar fazendo o quê?
— Acho que… nada.
As palavras eram punhais disfarçados de curiosidade.
À tarde, Marina apareceu na recepção com um sorriso travesso. — Vim te sequestrar. Não aceito não como resposta.
— Estou no meio de um expediente.
— Desde quando você trabalha de verdade aqui? — Marina brincou, mas o tom tinha fundo de verdade. — Vamos almoçar.
No restaurante, Isabela pediu apenas uma salada. Não por estar preocupada com calorias — isso nunca a incomodou —, mas porque não tinha apetite.
— Você precisa pensar em um plano B — disse Marina, firme. — Não pode esperar que Ricardo decida o que fazer da sua vida.
— E o que eu sei fazer? — Isabela perguntou, mais para si mesma que para a amiga.
— Você sabe cozinhar. E não estou falando de “fazer um bolo de caixinha”. Estou falando de receitas que derretem o coração das pessoas.
Isabela deu uma risada fraca. — Cozinhar não paga as contas.
— Pode pagar, se você deixar.
A ideia ficou na mente dela pelo resto do dia. Ao voltar para o escritório, encontrou um convite sobre a mesa: “Coquetel de Apresentação do Projeto Internacional – Coordenação: Camila Torres”.
Respirou fundo. Não haveria convite com o nome dela. Não mais.
Quando saiu do trabalho, as portas do elevador se abriram e ela viu, mais uma vez, Ricardo e Camila juntos. Desta vez, o reflexo no espelho mostrava algo diferente: a tristeza ainda estava lá, mas havia também um traço de algo novo nos olhos de Isabela. Não era raiva. Era uma fagulha.
Talvez Marina estivesse certa. Talvez fosse hora de pensar em um plano B.