Capítulo 2

1960 Palavras
Assim que estacionei o carro em frente à sede da empresa, o manobrista correu para abrir a porta. Desci sem pressa, deixando que ele assumisse o volante e levasse o veículo em direção ao subsolo. ​— Boa tarde, senhorita Wilson — os recepcionistas saudaram em coro, levantando-se imediatamente assim que meus saltos ecoaram pelo mármore do saguão. ​— Boa tarde — respondi protocolar, deslizando os óculos escuros pelo nariz sem diminuir o ritmo dos meus passos em direção aos elevadores. ​— Boa tarde, Scarlett. — A voz invariavelmente enérgica de Ashley ecoou ao meu lado. Ela emparelhou o passo comigo bem no momento em que parei diante das portas de metal escovado. ​— Boa tarde, Ashley — respondi. As portas se abriram com um bipe suave e entramos juntas na cabine espelhada. ​— Como você está se sentindo hoje? — ela perguntou, estudando meu reflexo com uma ponta de cautela. ​— Estou bem. E você? ​— Bem — ela limitou-se a dizer, embora o silêncio que se seguiu pesasse mais do que o normal. — Daqui a pouco passo na sua sala com os contratos que dependem da sua assinatura. ​— Perfeito. — Assenti, fixando o olhar nos números que subiam no painel eletrônico. ​Ashley e eu éramos melhores amigas, daquelas que sabiam os segredos mais obscuros uma da outra. No entanto, no momento, ambas tentávamos digerir as sequelas da nossa última temporada no Caribe. O assunto era um elefante branco entre nós, o que justificava a nossa súbita falta de assunto. ​Aquela viagem ao Caribe mudaria o destino de muita gente. Só não havia garantias de que seria para melhor. ​Quando o elevador finalmente alcançou o meu andar, as portas se abriram para revelar um comitê de boas-vindas silencioso. A equipe inteira parecia em alerta. ​— Bem-vinda de volta, senhorita Wilson — Mila, minha secretária, adiantou-se assim que me viu. ​— Obrigada. — Forcei um sorriso que, internamente, soube que pareceu apenas uma careta ensaiada. ​— O seu café duplo. — Ela me estendeu a garrafa térmica de inox com uma reverência quase sagrada. ​— Obrigada — Ashley interveio, interceptando o objeto antes que meus dedos sequer o tocassem. — Mas eu vou confiscar este aqui. Quanto à Scarlett, vamos iniciar uma dieta severa de restrição a cafeínas fortes. O máximo que ela vai tolerar por esses dias será um Cold Brew. Por ora, Mila, providencie um chá de camomila ou um suco de maracujá. E que seja natural, por favor. ​— Vou preparar agora mesmo — Mila respondeu prontamente, já fazendo menção de girar nos calcanhares em direção à copa. ​— Não precisa — ordenei, cortando as instruções de Ashley antes que Mila desse o primeiro passo. — Esqueça o chá. Vamos para a minha sala e, no caminho, você me atualiza sobre o andamento das obras. ​— No que diz respeito ao setor hoteleiro, todos os cronogramas estão rigorosamente em dia — Mila explicou, entregando-me o tablet enquanto caminhávamos pelo corredor que levava ao meu escritório provisório. ​— E as incorporações residenciais? ​— Tudo fluindo. A estrutura do último edifício foi finalizada esta semana. — Ela abriu a porta da sala para mim. ​Entrei, joguei minha bolsa de grife sobre a poltrona de couro perto da entrada e me acomodei atrás da mesa, ligando o notebook. ​— Excelente. Isso significa que a arquitetura de interiores já pode começar — comentei, focada na tela. — Agende uma visita técnica ao local o quanto antes. Preciso avaliar a volumetria espacial, os índices de isolamento acústico e térmico, além de desenhar o projeto luminotécnico. Este é o nosso primeiro empreendimento residencial de alto padrão; o cuidado precisa ser milimétrico. Começaremos pelo hall da torre um. O cartão de visitas é o que dita a experiência do morador. ​Mila hesitou. O silêncio repentino dela me fez erguer os olhos do monitor. Sua voz saiu baixa, quase ensaiada: ​— Senhorita Wilson... o projeto executivo do hall já foi aprovado. ​Senti um estalo de irritação na base da nuca. Respirei fundo, buscando a postura corporativa que o momento exigia. ​— Como disse? Aquela área é de minha exclusiva competência. Absolutamente nada é chancelado sem a minha assinatura. ​— O senhor Keen deu o aval final ontem à tarde. — Ela tateou a tela do tablet, localizou o arquivo e me estendeu o aparelho com as mãos ligeiramente trêmulas. — Estes são os renders do que começou a ser executado. A equipe de cenografia já está no prédio fazendo as marcações. ​Tomei o tablet de suas mãos. Ao fitar a tela, meu coração simplesmente falhou uma batida. Era um emaranhado de texturas tropicais, folhagens artificiais e um conceito que beirava o duvidoso. Era tudo excessivamente verde. E imperdoavelmente cafona. ​— Dante Keen está deliberadamente cavando a própria cova nesta empresa — sibilei, a voz fria como gelo enquanto me levantava. — Ligue para os encarregados da obra agora mesmo. Diga que, se eu encontrar uma única folha daquela cafonice decorando o chão daquele hall, a equipe inteira estará na rua antes do pôr do sol. ​Saí da sala empunhando o tablet como uma arma. À minha passagem, o andar inteiro mergulhou em um silêncio sepulcral. O único som audível era o clique frenético dos teclados e o impacto nítido e furioso dos meus saltos agulha contra o piso de porcelanato. Parei diante do elevador privado e apertei o botão da diretoria repetidas vezes, exigindo pressa do mecanismo. ​— Scarlett! — Ashley gritou, surgindo do corredor em uma tentativa tardia de contenção. ​As portas se fecharam antes que ela pudesse me alcançar. Olhei para o espelho da cabine enquanto subia para a cobertura. Minhas bochechas ostentavam duas manchas rubras de pura cólera; meus olhos, semicerrados, carregavam um vislumbre perigoso. Se olhares pudessem petrificar, eu cruzaria aquele andar como a própria Medusa. ​As portas se abriram no último andar e eu marchei em linha reta até a antessala da presidência. ​— Senhorita Wilson, eu preciso anunciar a sua... — Vanessa, a secretária de curvas estrategicamente moldadas do meu ex-marido, levantou-se em um sobressalto. — O senhor Dante está em um alinhamento interno. Atendimentos apenas com agendamento prévio. ​— E quem vai me impedir de passar por aquela porta, Vanessa? Você? — Perguntei, fixando nela um olhar tão cortante que a fez recuar um passo. ​Não esperei por respostas ou cortesias. Empurrei a porta dupla de jacarandá com força minguada, mas suficiente para causar impacto, e avancei até a mesa de Dante. Ele ergueu os olhos, a expressão transicionando de surpresa para uma diversão contida. ​— Você pode me explicar que tipo de colapso mental resultou nisso aqui? — Joguei o tablet sobre a mesa dele, fazendo o aparelho deslizar até a borda do teclado. — Estou tentando decifrar desde quando o seu bom gosto se tornou tão maleável, porque esse projeto que você aprovou é uma aberração estética. ​— Senhor Keen, sinto muito, a senhorita Wilson não me deu espaço para anunciá-la — Vanessa justificou-se, surgindo à porta com a respiração sutilmente ofegante. Eu sequer me dignei a olhar em sua direção. ​— Tudo bem, Vanessa. Pode nos dar licença — Dante dispensou-a com um aceno displicente de mão, sem desviar os olhos dos meus. ​— Estou esperando — cobrei, cruzando os braços assim que o estalo da porta indicou que estávamos sozinhos. ​— Eu achei um conceito arrojado — ele respondeu, recostando-se na cadeira de couro e sustentando o meu escrutínio. ​— Arrojado? — Soltei uma risada estéril, desprovida de qualquer humor. — Claro, uma genialidade sem precedentes. Quem não gostaria de investir milhões em um apartamento de luxo para ser recebido por uma simulação da Floresta Amazônica no saguão? Para coroar o conceito, sugiro soltarmos algumas cascavéis pelos corredores e transformarmos o espelho d'água em um criatório de jacarés. O verdadeiro éden urbano. ​— O seu sarcasmo continua sendo a sua melhor defesa, Scarlett — ele provocou, os cantos dos lábios sugerindo um sorriso cínico. ​— Não brinque com a minha paciência, Dante. ​— Você mesma disse que queria uma proposta disruptiva para o segmento residencial — argumentou ele, apontando para a tela do tablet. — Isso é disruptivo. ​— Não, isso é um crime de lesa-pátria contra o design de interiores — retruquei, inclinando-me sobre a mesa dele. — A direção criativa e a ambientação são prerrogativas minhas. Eu sou a designer desta corporação. A menos, é claro, que você queira assinar a minha rescisão agora mesmo. ​O desafio estava lançado, explícito e cru na mesa entre nós. Dante sustentou o olhar, mas conhecendo-o como conhecia, notei a sutil concessão na forma como ele respirou. A agressividade dele jamais competia de frente com a minha. ​— Vou ordenar que a equipe técnica interrompa os trabalhos no local para revisarmos o briefing — ele cedeu, estendendo a mão para o telefone de mesa. ​— Poupe seus dedos. Minha secretaria já está cuidando do cancelamento — avisei, endireitando a postura. ​— Ótimo. — Ele digitou um comando rápido no aparelho, acionando a linha direta. — Vanessa, cancele os meus compromissos da tarde e reserve a sala de conselho. Vamos pautar o comitê de revisão dos residenciais. ​— Imediatamente, senhor Keen — a voz da secretária ecoou pelo viva-voz, carregada de uma eficiência quase teatral. ​— Uma funcionária exemplar, devo admitir — comentei, destilando ironia enquanto ele desligava o aparelho. ​— Ela entrega resultados, não tenho do que reclamar — ele deu de ombros, fingindo indiferença. ​— Imagino que sim. Deve ser exaustivo equilibrar tanta competência com o esforço necessário para esfregar aquele decote na sua mesa a cada cinco minutos. ​— Scarlett, você sabe perfeitamente que eu nunca fui infiel a você — ele disse, a voz subindo meio tom, os braços cruzados sobre o peito em uma postura defensiva clássica. ​— Eu sei. — Aproximei-me novamente, apoiando o peso das mãos sobre o tampo de vidro da mesa dele, obrigando-o a me encarar a poucos centímetros de distância. — Porque se você tivesse ousado fazer isso, eu não teria pedido o divórcio. Teria planejado o seu funeral. E o dela. ​— Por Deus, será que vocês dois não conseguem passar cinco minutos no mesmo ambiente sem ameaças de homicídio? — Ashley cruzou a soleira da porta, interrompendo a tensão com um olhar severo direcionado a mim. ​— Não há disputa alguma aqui, Ash — suavizei o tom, afastando-me da mesa com um sorriso perfeitamente moldado que masquerava o veneno de segundos atrás. — Estamos apenas alinhando a pauta da próxima reunião. ​Eu sabia que não era a vilã implacável que costumava projetar para o mercado. Aqueles que realmente faziam parte do meu círculo íntimo conheciam a minha verdadeira essência — Ashley e Dante inclusive. Até mesmo a minha ex-sogra mantinha uma adoração quase religiosa por mim, um fenômeno raro em qualquer histórico de divórcio. ​No entanto, o colapso que antecedeu o fim do meu casamento havia me moldado de forma irreversível. Aprendi, da maneira mais amarga possível, que no mundo dos negócios e das aparências, é infinitamente mais seguro ser temida do que ser amada. ​Toda narrativa possui sua própria cronologia de danos. Mas antes de me tornar este arquétipo de ex-esposa implacável e absurdamente bem-sucedida, preciso retroceder o relógio. Preciso contar como era a engenharia da minha vida quando eu era apenas uma mulher solteira, prestes a ser tragada pelo título de namorada e, em uma velocidade assustadora, convertida na esposa perfeita.
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