Capítulo 3

1532 Palavras
Todo final de ano, costumo viajar para Sitka, uma pequena cidade no Alasca onde nasci. É lá que passo o Natal e o Ano-Novo com a minha família, mas este ano as coisas foram diferentes. Passei o Natal com eles, mas, logo no dia vinte e seis, retornei para Los Angeles. Minha amiga e colega de quarto, Ashley, havia conseguido convites para uma festa de réveillon que promete ser o evento da temporada: a inauguração de um novo hotel à beira-mar. Dei mais uma olhada no espelho para garantir que o caimento do meu vestido branco estava perfeito. A parte superior, estruturada como um corpete de renda com sutis transparências, unia-se à parte de baixo, que lembrava shorts curtos e ousados. Por cima, uma longa saia fluida e transparente, salpicada de brilhos, completava o visual. Meus cabelos, modelados em ondas graças ao babyliss, dispensavam qualquer penteado elaborado; o volume e o movimento já rompiam totalmente com o liso que costumo usar no dia a dia. Na maquiagem, optei pelo minimalismo elegante: uma sombra marrom-claro para conferir profundidade e um toque de brilho, delineador marcado, camadas de rímel e, nos lábios, um batom nude clássico. Descalça, saí do quarto e caminhei até a pequena sala onde havia deixado meus sapatos. Sentei-me no sofá e comecei a calçá-los. Escolhi um salto agulha branco, aberto na frente e com uma tira delicada para prender no tornozelo. O grande charme estava na parte de trás: asas de borboleta esculpidas que quebravam um pouco do tom femme fatale que a roupa exalava. Enquanto eu me arrumava no quarto, Ashley ocupava o banheiro. No nosso primeiro ano de faculdade, morávamos no dormitório do campus. No início, até que funcionava, principalmente porque pagar um apartamento em Los Angeles parecia uma realidade distante. Contudo, assim que conseguimos nossos primeiros empregos, decidimos deixar o quarto estudantil. Optamos por uma quitinete; queríamos privacidade e o luxo de não compartilhar um banheiro comunitário. O espaço atual é reduzido, mas o prédio oferece uma excelente segurança. Temos apenas um quarto, projetado na medida exata para nós duas quando estamos deitadas em nossas respectivas camas de solteiro — já que as de casal não caberiam se quiséssemos um guarda-roupa compartilhado. Ao menos, cada uma tem seu próprio criado-mudo. Ao cruzar a porta do quarto, chega-se diretamente à sala. Ao lado da porta do banheiro, nosso ambiente de estar abriga um sofá, uma televisão fixada na parede, uma poltrona e um pequeno rack que acomoda porta-retratos, os controles remotos e alguns adornos. O banheiro é minimalista ao extremo: apenas pia, vaso e chuveiro. Por ser tão apertado, não há box, e a porta sanfonada foi a única solução para não desperdiçar centímetros preciosos. Saindo da sala, alcança-se a cozinha, que tem o formato e a largura de um corredor. Só há espaço para uma pessoa por vez, já que a geladeira, o fogão e a pia ocupam quase toda a extensão, com os armários suspensos nas paredes. Ao fundo da cozinha fica a lavanderia, uma área milimetricamente calculada onde cabem apenas a máquina de lavar, o tanque e o varal de teto. É um lugar pequeno, mas reconfortante, seguro e privativo. O melhor de tudo: conseguimos pagar os custos sem o fantasma do aluguel atrasado nos assombrando. — Estou pronta! — Ashley exclamou, saindo do banheiro e abanando o rosto com as mãos. O ambiente atrás dela estava saturado de vapor. O espaço reduzido combinado a dois banhos quentes e uma chapinha ligada havia transformado o cômodo em uma verdadeira sauna. — Então já podemos ir — respondi, levantando-me do sofá e alisando a parte de trás do vestido. — Achei que você usaria branco também. — Claro que não! Minha vida já tem paz até demais — Ashley ironizou, fazendo uma careta divertida e dando uma pirueta para que eu pudesse apreciar o seu visual. — Este ano vou de dourado. Quero que o ciclo que se inicia seja banhado a ouro e riqueza. Ela vestia um cropped ombro a ombro dourado e reluzente, combinado a uma saia lápis que ia até os joelhos, interrompida por uma f***a generosa que começava no meio da coxa. A saia seguia o mesmo tom dourado e brilhante do topo. Nos pés, usava sandálias de salto alto, abertas na frente, com tiras finas que se entrelaçavam em amarrações até a panturrilha. Seus cabelos pretos, habitualmente ondulados, exibiam um aspecto mais longo e perfeitamente liso. A maquiagem trazia um esfumado dourado marcante com um ponto de luz intenso no centro das pálpebras, emoldurado por longos cílios postiços. Nos lábios, um gloss translúcido conferia um aspecto natural e molhado. — Vamos? — chamou, pegando o celular sobre o rack e desbloqueando a tela. — Vou pedir um Uber, mas da categoria Black. Quero um daqueles carros pretos e modernos. — Esses são os mais caros — alertei, caminhando em direção à porta de saída, localizada ao lado da cozinha. — Eu sei, mas não podemos chegar lá deslumbrantes assim descendo de um carro amarelo com um letreiro de táxi no teto — rebateu ela, saindo para o corredor assim que abri a passagem. Esperei que ela passasse e tranquei a porta. — Justo — concordei, enquanto avançávamos pelo corredor até alcançarmos a escadaria. O prédio é seguro, mas antigo demais para comportar um elevador moderno. Os moradores precisam encarar os degraus se quiserem ver a cor do dia. Eu não tinha do que reclamar, pois morava no segundo andar, mas frequentemente me compadecia de quem habitava o quinto. Antes de eu me mudar, os inquilinos chegaram a se mobilizar para exigir a instalação de um elevador, mas um estudo estrutural revelou que as fundações não suportariam a modificação. Para colocá-lo, seria necessário demolir o edifício e reconstruí-lo do zero. Diante disso, muitos moradores insatisfeitos se mudaram, e o prédio acabou se tornando o refúgio ideal para estudantes que não podiam arcar com algo melhor. — Mas afinal, como você conseguiu esses convites? — perguntei quando cruzamos o portão principal e paramos na calçada, aguardando o veículo. — Foi um sorteio na empresa onde estou estagiando — ela respondeu, revirando os olhos. — Pelo menos uma coisa boa aquele lugar tinha que me render. — Uma festa de réveillon, em um hotel à beira-mar que será inaugurado hoje? — indaguei, arqueando uma sobrancelha, desconfiada. — Bem... Esse era o prêmio do segundo lugar — admitiu ela, fazendo um biquinho de frustração. — O primeiro lugar ganhou uma viagem para um hotel em Paris. — Espera aí... Você vai ter que trabalhar hoje? — perguntei, cruzando os braços. — Pois é. Esse é o bônus de ser estagiária de Marketing: eles assumem que você não tem família ou vida social — ela bufou, mas logo mudou a expressão. — Mas eu decidi que vou transformar esse plantão no melhor Ano-Novo da minha vida. — Como sempre, encontrando o lado positivo em tudo — comentei, oferecendo-lhe um aperto afetuoso no ombro. — Sempre! — Ela olhou para a tela do celular e depois para a rua, identificando o veículo que se aproximava. — É o nosso. Vamos. [°°°] Assim que descemos na entrada do hotel, despedimo-nos do motorista com um agradecimento. Ao fechar a porta do carro, o som imponente das ondas quebrando na praia preencheu o ar. — Ficou deslumbrante — comentou Ashley, maravilhada, enquanto observava o paisagismo na fachada do hotel. Entre os jardins bem cuidados, o caminho de concreto destinado aos carros era pontuado por balizadores embutidos, cujos feixes de luz iluminavam a grama e os canteiros floridos com elegância. — Realmente impressionante — concordei, admirando os detalhes luminosos sob os nossos pés. — Vamos entrar — Ashley sugeriu, estendendo o braço para que eu o enlaçasse, e caminhamos juntas. Passamos pelas imensas portas de vidro automatizadas. O saguão do hotel já estava repleto de convidados trajando trajes finos. Atrás do balcão da recepção, funcionárias organizavam os procedimentos de check-in dos hóspedes daquela noite, enquanto garçons cruzavam o salão equilibrando bandejas carregadas de taças de champanhe. — Precisamos ir para o salão de festas privativo — Ashley instruiu, conduzindo-me com firmeza pelo saguão em direção a um dos corredores laterais. — Você sabe exatamente onde fica? — perguntei, acompanhando o passo dela. — Sei. Antes de as obras deste complexo serem concluídas, tive que revisar a planta baixa mil vezes para memorizar cada setor — suspirou, com um toque de ressentimento na voz. — Basicamente, fiz o trabalho do meu chefe enquanto ele aproveitava as férias em alguma ilha particular com uma de suas amantes. Eu nunca tinha visto o chefe de Ashley pessoalmente, mas, estritamente pela descrição dela, ele parecia ser um verdadeiro tirano corporativo. — Chegamos — anunciou ela, parando diante de uma imponente porta dupla de laca branca, que já se encontrava aberta. O salão exalava opulência. O espaço estava repleto de figuras proeminentes da alta sociedade, pessoas que ostentavam suas joias de grife e trajes de alta-costura com naturalidade. — Ainda bem que investimos em roupas boas para esta noite — murmurei para Ashley. Assim como ela, eu me sentia temporariamente hipnotizada pela quantidade de brilho que emanava de cada canto daquele salão.
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