Pré-visualização gratuita PRÓLOGO
A vida é feita de aparências.
Gostamos de fingir que não, mas é.
O mundo gira em torno daquilo que é bonito, bem apresentado e agradável aos olhos. Pessoas bonitas recebem sorrisos com mais facilidade. Roupas caem melhor em determinados corpos. Portas parecem se abrir com menos esforço quando quem está diante delas se encaixa no padrão que alguém decidiu ser aceitável.
E, quando se trata de mulheres, essa cobrança parece ainda maior.
Desde que o mundo é mundo, existe um padrão a ser seguido.
Cada cultura tem suas próprias regras, cada época inventa uma nova maneira de dizer o que é bonito, mas existe algo que parece atravessar gerações: a obsessão pela magreza.
Ser magra é bonito.
Vestir trinta e quatro é o auge.
Ter a barriga chapada, a cintura fina e as pernas sem marcas é quase como possuir uma espécie de passe livre para ser considerada desejável.
Mas quem disse que isso é saúde?
Quem decidiu que o tamanho de uma roupa determina o valor de uma mulher? Eu não sei. Só sei que, durante muito tempo, isso não me incomodou. Até meu corpo começar a mudar. Até eu entrar na puberdade e perceber que não estava crescendo como a Patrícia.
Minha irmã sempre foi magra.
Sempre.
Enquanto meu corpo ganhava curvas, o dela permanecia delicado. Enquanto eu precisava procurar roupas que coubessem em mim, ela podia vestir qualquer coisa que ouvia rios de elogios.
— Você está linda, Patrícia.
— Essa roupa foi feita para você.
— Como você consegue ser tão magrinha?
Eu estava sempre por perto quando diziam essas coisas e aprendi cedo que elogios também podiam machucar.
Porque, quando olhavam para mim, era diferente.
— Jenna, você precisa tomar cuidado, querida.
— Essa roupa não está favorecendo você.
— Talvez seja melhor escolher algo mais soltinho.
— Seria bom esconder esses braços e essas coxas... isso não é bonito. Olha essa barriga!
E isso eram quando mostravam ser gentis... até que vieram as piadas.
Uma das que mais ouvi aconteceu quando apareci para um almoço de família usando um vestido que eu gostava muito.
Minha mãe olhou para mim dos pés à cabeça e soltou uma risada.
— Esse vestido é bonito, querida. Só não sabia que eles fabricavam barraca nesse tamanho.
Meu pai riu. Patrícia também. E eu sorri.
Eu sorria, porque era isso que eu fazia. Sorria para fingir que não doía.
Em outra ocasião, ouvi que eu deveria evitar roupas claras porque "branco aumenta ainda mais aquilo que já estava grande demais".
Depois veio a clássica:
— Você vai a algum lugar ou está levando a cortina da sala com você?
Eles riam.
Eu fingia não entender, mas entendia. Sempre entendi. E, pouco a pouco, comecei a acreditar. Talvez eu realmente fosse feia. Talvez meu corpo realmente fosse um problema. Talvez houvesse alguma coisa errada comigo. Patrícia nunca precisou ouvir aquilo.
Ela era a bonita.
A delicada.
A perfeita.
A filha que minha mãe fazia questão de levar para todos os lugares.
Eu, por outro lado, muitas vezes nem era convidada para os casamentos de parentes, aniversários, jantares ou viagens em família. Eu sempre havia uma desculpa.
"Não vai ter espaço."
"Você vai ficar desconfortável."
“Você nem roupa pra isso!”
"É melhor ficar em casa."
E eu ficava.
Com o tempo, parei de perguntar. Porque aprendi que algumas respostas doíam mais quando eram confirmadas. Não consigo sequer me lembrar da última vez que minha mãe me abraçou de verdade. Não aquele abraço rápido, dado por obrigação. Estou falando de um abraço em que alguém aperta seu corpo contra o próprio peit0 e faz você sentir que pertence àquele lugar.
Não me lembro.
Talvez nunca tenha acontecido.
Na escola, as coisas não eram muito diferentes também, porque a Patrícia era popular. Bonita, magra, cercada de amigas e admiradores e ainda fingia que não me conhecia.
Quando alguém perguntava se éramos irmãs, ela sorria sem graça e dizia...
— Somos... infelizmente. Ela puxou o lado rüim da família.
Eu aprendi a não esperar nada dela.
Sem muita saída, eu preferi os livros. Os estudos. Eu preferia as salas de aula onde, pelo menos, eu podia ser boa em alguma coisa sem precisar caber em um determinado tamanho. Alguns professores gostavam de mim, minhas notas eram altas e eu estudava muito. Mas isso nunca foi motivo para uma comemoração em casa.
Quando eu tirava a maior nota da turma, recebia um "parabéns".
Quando Patrícia tirava uma nota mediana, minha mãe comprava seu doce favorito. Meu pai a levava para jantar e às vezes, até ganhava um presente. Era uma diferença tão absurda que chegava a parecer uma piada.
Mas não era.
Era a minha vida. Eu cresci vendo a preferência diante dos meus olhos.
Até o dia em que finalmente descobri o motivo. Eu estava limpando o porão de casa quando encontrei o baú. Era pequeno, antigo, coberto por uma camada de poeira tão grossa que precisei passar a mão duas vezes antes de conseguir enxergar a madeira escura.
Não sei por que decidi abri-lo.
Talvez curiosidade. Talvez tédio. Talvez alguma coisa dentro de mim estivesse cansada de não entender. Ali dentro havia documentos antigos, algumas cartas, fotografias e objetos que pareciam não ter importância.
Até encontrar um caderno.
A capa estava desgastada e reconheci a letra imediatamente. Era da minha mãe. Eu não deveria ter lido, sei disso. Mas existe uma diferença entre invadir um segredo e descobrir, por acaso, que você passou a vida inteira sendo enganada.
Eu abri e encontrei a minha própria existência escrita ali.
Não havia carinho. Não havia expectativa. Não havia felicidade.
Havia raiva.
Minha mãe escreveu sobre a gravidez como se estivesse falando sobre uma doença que havia surgido dentro do corpo dela.
Uma gravidez inesperada. Uma gravidez que ela não queria. Uma gravidez que aconteceu antes da hora.
Ela escreveu sobre o desespero, sobre a vontade de interromper a gestação e sobre como não conseguia aceitar que teria outro filho. E, em determinado momento, escreveu algo que ficou gravado na minha cabeça para sempre.
Ela não queria me ter.
Eu fiquei olhando para aquelas palavras por tanto tempo que meus olhos começaram a arder. Passei as páginas com as mãos trêmulas e então encontrei as fotografias. Minha mãe grávida, minha família ao redor dela e todos tentando sorrir.
Todos tentando convencê-la de que aquilo seria bom.
Em uma das fotos, alguém segurava sua mão e em outra, minha avó sorria. Meu pai estava ao lado dela. Mas minha mãe... minha mãe parecia estar em outro lugar. Seu rosto carregava frustração.
Raiva... tristeza.
Ela não parecia uma mulher esperando ansiosamente pelo nascimento de uma filha. Parecia alguém contando os dias para que aquilo acabasse. E, de repente, tudo fez sentido. As roupas que ela não queria que eu usasse, os eventos dos quais eu era excluída, os comentários e os olhares.
A diferença entre mim e Patrícia.
O modo como ela nunca parecia satisfeita comigo.
Eu não era apenas a filha menos bonita, eu era a filha que nunca deveria ter existido. Meu nascimento não foi celebrado e a minha chegada não foi desejada.
Eu fui um acidente.
Uma inconveniência.
Um erro que sobreviveu.
Fechei o caderno e fiquei sentada no chão daquele porão durante horas. Chorei? Sim. Mas não foi um choro escandaloso.
Foi pior.
Foi silencioso.
Aquele tipo de choro que parece acontecer por dentro.
Naquele dia, alguma coisa morreu em mim. A esperança. A esperança de que um dia minha mãe pudesse me olhar e enxergar uma filha. De que meu pai pudesse sentir orgulho de mim. De que Patrícia pudesse me tratar como irmã.
Eu nunca contei a ninguém sobre o que encontrei.
Guardei o caderno exatamente onde estava, fechei o baú e, pela primeira vez, parei de procurar uma explicação para o modo como minha família me tratava. Eu já tinha a resposta. Eles simplesmente nunca me quiseram e talvez essa seja a pior verdade que uma filha possa descobrir.
Mas também foi a verdade que me libertou, porque, depois daquele dia, eu parei de esperar. Parei de tentar agradar. Parei de acreditar que, se eu tirasse notas melhores, perdesse peso, usasse roupas mais bonitas ou me comportasse como eles queriam, finalmente seria aceita.
Não.
Eu não precisava mais conquistar um lugar em uma família que já havia decidido que eu não merecia um. Eu precisava sair. Precisava ficar longe. Precisava construir uma vida em que ninguém pudesse olhar para mim e me fazer sentir como um erro.
E estou perto disso.
Muito perto.
Ainda moro na casa deles. Ainda preciso suportar olhares, comentários e cobranças. Ainda preciso ouvir minha mãe elogiar Patrícia enquanto mäl consegue olhar para mim.
Mas isso vai acabar.
Eu vou embora.
Vou ter meu próprio lugar. Meu próprio dinheiro. Minha própria vida. E, pela primeira vez, ninguém vai decidir quanto eu valho. Não importa se visto quarenta e seis, quarenta e oito ou cinquenta. Não importa se meu corpo ocupa mais espaço do que gostariam.
Não importa se não pareço com Patrícia.
Eu passei anos tentando diminuir a mim mesma para caber no amor de pessoas que nunca fizeram questão de me amar.
Agora, eu quero distância.
Quero silêncio. Quero respirar sem sentir que estou incomodando. Quero acordar em uma casa onde o meu corpo não seja motivo de vergonha. Quero entrar em um lugar sem precisar me perguntar se alguém está olhando para mim.
Quero viver de verdade.
E, se para isso eu precisar deixar minha família para trás, então é exatamente isso que farei.
Porque eu não aguento mais.
Não aguento mais ser a filha que ninguém escolhe. Não aguento mais ser comparada. Não aguento mais ser diminuída. Não aguento mais olhar para mim mesma e enxergar apenas aquilo que disseram que eu era.
Talvez eu ainda não saiba quem sou, mas sei quem não quero mais ser. Não quero ser aquela garota que aceita migalhas de algo só porque tem medo de ficar sozinha.
Essa Jenna ficou para trás.
Agora, eu só preciso encontrar a coragem para abrir a porta e nunca mais olhar para trás.