Prólogo

2832 Palavras
Eu tenho uma rotina desde o dia em que comecei a trabalhar como médica; na verdade, eu tenho essa rotina desde que finalmente me mudei da casa dos meus pais e me formei em medicina. E o que era para ser um dia libertador, em que uma jovem adulta finalmente dá seus primeiros passos para uma vida madura, acabou sendo um dos dias mais solitários que eu tive. Minha família me ajudou a arrumar a casa por algumas horas, mas, quando eles saíram pela porta, eu percebi pela primeira vez na minha vida que eu estava verdadeiramente sozinha. E isso é assustador. Já que estava sozinha, é o mesmo que finalmente não ter mais que sair para encontros familiares quando você não está com vontade (ainda faço isso, não muito, mas só para não perder o contato totalmente com eles), fazer o que quiser e... Ter que arrumar a casa sozinha. Sim, sem dúvida essa é a pior parte. Porém, o mais assustador é não ter ideia do que fazer depois. Quando morei sozinha e comecei a trabalhar, não escolhi uma especialização. Estava indecisa no que fazer, então um colega me recomendou ir para a pediatria e eu pensei: por que não? Pode dar certo. Pior. Decisão. Da. Minha. Vida. Onde aquele i****a tirou que eu era boa com criança? Eu nunca quis ser mãe, então o que ele disse não tem o menor sentido! — Tipo, eu não odeio criança nem nada... Mas eu já enlouqueço comigo mesma e é óbvio que eu vou enlouquecer mais ainda perto de crianças. — bati minhas mãos no rosto, tentando canalizar todo o meu sofrimento e não gritar na frente da minha paciente de 10 anos. — Eu só perguntei por que você escolheu ser médica de criança, não queria saber a história da sua vida triste e patética. — Doeu... Molly, minha única melhor amiga no hospital e minha paciente de 10 anos que acabei de operar, me ouvia atentamente enquanto fechava o livro que lia. — Se você está insatisfeita com sua profissão, por que não desiste? — a pergunta de Molly me pegou desprevenida. É muito fácil pensar sobre desistir, mas, para alguém que chegou tão longe, desistir é muito difícil. — Um pouco tarde para desistir. Passei vinte anos da minha vida nesse trabalho e, querendo ou não, aquele maluco estava certo. — suspirei ao lembrar das palavras do meu colega que trabalhava comigo. — Eu sou muito boa com crianças... — Acho que é porque você ainda é uma. — Direta como sempre, Molly. — Virei meu rosto para tentar esconder a vergonha em meu rosto quando a ouvi. Molly é uma menina tão inteligente e madura com apenas dez anos que às vezes me surpreendo com o quanto ela sabe sobre as pessoas. Gosto muito dela por ser assim, direta e sem medo de dizer o que está pensando. Suas palavras machucam às vezes, mas o mundo precisa de mais gente assim. — Ah, eu queria devolver isso — Molly estendeu as mãos segurando o livro que estava lendo. — Obrigada por ter me emprestado o último volume. — De nada, esperar... Esse livro não é um pouco adulto para você? — pego o livro de suas mãos pequenas, surpresa com o título do livro. — Pensei que fosse ler Percy Jackson. — Já li e sou da casa de Ares — apontou ela com orgulho. — Afrodite — estufei o peito, também imitando uma postura mais orgulhosa. — ... Ela teria vergonha de uma filha que não se veste apropriadamente. — ... Por que você precisa machucar meus sentimentos? — eu sinto meus olhos arderem só com a ideia de que uma criança de dez anos reconhece minha falta de conhecimento sobre moda. Desde pequena, eu sempre vestia algo confortável. Não estava nenhum pouco afim de escolher coisas na moda; para mim, qualquer roupa que fosse macia, confortável e fácil de vestir estava perfeita. Usava muito mais calças largas do que saias. Meu cabelo também era curto, acima dos ombros, só para não perder muito tempo cuidando dele. — Podia pelo menos passar uma base no rosto. Sua pele está h******l. Retiro o que disse sobre gostar da forma como ela é direta. Suspirei fundo antes de me levantar da cadeira que estava perto de sua cama. Ajeitei meus óculos e coloquei o livro, que Molly me devolveu, embaixo do meu braço. — Como você já está melhor e se recuperando muito, vou autorizar para que seus pais entrem no quarto — pego os documentos médicos que deixei em cima de sua cama. Molly ficou me encarando enquanto terminava de assinar os papéis e confirmava que já fiz todos os exames preliminares. Mesmo não estando olhando para ela, consegui sentir seus olhos tentarem abrir um buraco no meu rosto. — Sabe... — Molly começa a falar quando terminei com os papéis. — Vai ser muito mais fácil se você começar a dizer o que sente. Talvez assim descubra o que quer. — O que faz pensar que eu não sei o que eu quero? — volto a olhar em sua direção e consigo ver ela sorrir para mim. — A conversa que tivemos há pouco mais de três minutos sobre você não fazer ideia de qual seria sua especialização e sobre você não ter ideia do que fazer quando começou a morar sozinha. — Molly colocou uma das mãos sobre meu antebraço, apertando de leve como um consolo, e eu pude ver seus olhos brilharem com pena. — Você tem 40 anos. — 39 — corrigi. — Mesma coisa. — Com certeza não é. — tirei a mão da Molly de mim e me afastei dela. — Vou chamar seus pais. Caminhei para a porta, ignorando os chamados de Molly e, ao abrir, vejo os pais dela sentados nos bancos; ambos seguravam a mão um do outro, assustados e com cara de noites m*l dormidas. Era compreensível essa situação, já que não era todo dia que sua filha de dez anos precisaria passar por uma cirurgia estomacal. Embora algo simples, ainda era assustador para todos os pais verem seus filhos desmaiarem. — Senhor e senhora Windsor — os chamei, despertando sua atenção para mim, que estava fora do quarto, segurando a porta para eles passarem. — Molly acordou e quer vê-los agora. — Não quero, não! — gritou Molly, mas os pais apenas ignoraram e entraram correndo no quarto. Fechei a porta e caminhei para meu quarto no hospital, onde os médicos passavam a noite. Aproveitei e tirei o livro que emprestei para Molly debaixo do meu braço e dei uma boa olhada na capa. Sangue Nobre é um livro de fantasia que se passa em um mundo em que os nobres possuíam magia e governavam sobre os plebeus. Basicamente conta a história de uma garota que descobriu sua linhagem nobre, mas, por ter vivido em um mundo em que pessoas eram maltratadas por não possuírem magia, decidiu destruir o sistema e ajudar um grupo a se rebelar contra os nobres. Ela se torna noiva do segundo príncipe e, pensando que o objetivo dele era ajudá-la de verdade, acaba presa em uma armadilha. Graças a ela e aos rebeldes, o jovem príncipe coloca em prática seu plano de m***r seu pai e colocar toda a culpa em seu irmão. Fazendo assim com que ele seja automaticamente coroado rei. Depois desse acontecimento, a protagonista e o príncipe fogem de sua execução. Ambos unem forças para acabar com o segundo príncipe e com as leis desse mundo. — História muito boa, mas... O segundo livro é uma porcaria — comento em voz alta, abrindo a porta do quarto e simplesmente jogando o livro em cima da minha cama. Ainda me lembro do dia em que terminei o primeiro livro e saí correndo para comprar os outros cinco livros da saga. Quando terminei o segundo livro, minha animação caiu por terra. Aquele sistema bom de magia sumiu e deu lugar a um mundo sem sentido e cheio de furos. Depois disso, peguei alguns spoilers no final, descobrindo que a protagonista não fica com o príncipe no final. E isso foi tudo que eu precisava saber para não ler mais a saga. Só em lembrar disso, minha cabeça começou a doer. Sentir o sono chegando e minhas pálpebras se fecharam devagar. Passei duas horas em cirurgia, eu mereço um descanso. Pip pip. Só por uma hora... Pip pip. — Por Deus... — tentei fechar os olhos, ignorando a luz piscando em cima de minha cabeça, mas não tinha como ignorar o alerta. Provavelmente alguma coisa aconteceu. Alguma coisa grave para chamar todos os médicos na ala de emergência, mas isso não importa porque eles com certeza não vão precisar de uma pediatra. Abrir meus olhos e olhei para o alarme piscando em vermelho em cima da porta. Ele piscava e fazia pip toda vez que algo sério tinha acontecido... Tá, talvez não fizesse m*l dar uma olhada. Por sorte, a ala de emergência fica abaixo do pré-natal, então eu posso passar lá e dar uma olhada nos bebezinhos para recarregar minha energia. Unindo toda a minha coragem, levantei-me da cama e saí do quarto na mesma hora em que dois médicos e duas enfermeiras corriam para o elevador. Queria ter essa disposição, mas apenas andei em passos rápidos até as escadas. Desci três lances de escadas e, dessa vez, corri para dentro de uma das portas escritas "nove" e, quando vi, andei a poucos metros, avistando finalmente a janela de vidro com os bebês. Apenas em ver suas carinhas e mãozinhas, renovava minhas energias! — Que fofo! — cheguei mais perto do vidro, colando minha mão na janela, imaginando atravessar esse vídeo só para segurar um deles. Um dos bebês estava rindo; mesmo com seus olhos fechados, ele ria tão alto, e aquela risada me fazia chorar. Como é possível seres tão lindos crescerem e se tornarem adultos tão complicados e sem graça? É quase como se fosse um crime. Analisei os bebês com cuidado. Suas mãos pequenas e suas bochechas ressonantes me davam muita vontade de segurar. Tirei minhas mãos do vidro e olhei para eles uma última vez. Fechei os olhos e suspirei bem fundo. Precisava ir, mesmo não querendo, o dever me chama. Abrir os olhos e, dessa vez, foquei em olhar para a parede da sala. No entanto, em vez da parede, deparei-me com um homem esfarrapado dentro da ala dos bebês. — Mas o quê...? — corri para a porta que dava entrada na sala e, quando o homem ouviu a porta abrir, sem hesitar, ele se virou para mim apontando uma arma. — Para trás! — gritou, quase deixando derrubar o bebê que tinha nos braços. — Calma — pedi, estendendo as mãos para o alto. — Eu só quero saber o que o senhor faz aqui. — Eu vim buscar meu filho! — as mãos do homem tremiam, seus olhos estavam abertos e tinha uma imagem de um homem louco. — Entendo, mas, senhor... — dei um passo para frente e, quando ia dar outro, parei ao ouvir um barulho vindo da arma. — O que foi?! — o homem gritou, assustando o bebê, que começou a chorar. — Para de chorar! O choro do bebê despertou uma onda de choro dos outros bebês presentes na sala. Ouvindo esse choro, o homem começou a gritar para as crianças pararem, e isso as assustou ainda mais. — Por que vocês não param de chorar!? O homem gritava de volta para as outras crianças. No momento em que ele estava distraído, caminhei para a mesinha que tinha ao lado, que as enfermeiras costumam usar. O botão vermelho do alarme estava na parede do lado. Quando eu abri, seguranças devem vir correndo para aqui em pouco mais de alguns minutos. O homem gritava e ele começou a sacudir o bebê em seus braços. Tinha que agir rápido. Quando estava mais perto, pulei para a mesa e apertei o botão na parede. — O que você fez? — percebendo minha presença de novo, o estranho volta a apontar a arma para mim. — O que você fez?! — Escuta... — me afastei da parede, voltando a levantar minhas mãos para o alto. — Vamos nos acalmar. Você precisa- Não tive tempo para terminar. O som seco, abafado pelo choro das crianças, quase como um som de fogos de artifício, me cortou. Um calor atravessou meu peito, e ardência lembrou-me da vez que queimei minha mão por descuido. Meu corpo cedeu antes que eu entendesse totalmente o que tinha acontecido, e então só havia o chão e o teto brancos acima de mim. Eu morri? Não, só pode ser brincadeira. Tudo ao meu redor estava escuro. Não sentia meu corpo ou ouvia algo. Era tudo um completo silêncio. Será esse o inferno ou o paraíso? .... .... .... ... . Droga. Eu não queria morrer. Se eu pudesse viver, mesmo que só um pouco, eu faria exatamente o que a Molly me disse para fazer. Se honesta com meu sentimento. Mesmo que eu não soubesse muito bem o que estou sentindo. Eu vou dizer tudo! Apenas me dê uma chance! Gritando isso, a luz começou a surgir na minha vista. Toda a escuridão ao meu redor foi coberta por luz e, aos poucos, minha visão foi voltando e, em vez do teto e braço do hospital, eu vejo um teto, ainda branco, mas diferente. Também, em vez de choro, eu ouço vozes ao meu redor. Eu sobreviver? — Minha senhora, por favor, não desista! — a voz de um homem surgiu do nada. — Quê? — Percebendo que estava numa cama, mexi um pouco para encostar minhas costas sobre os travesseiros. Minha visão ainda estava turva, mas, aos poucos, eu fui me acostumando com a iluminação do lugar e eu pude finalmente perceber quem eram as pessoas que estavam ao meu redor. A maioria mulher e todas usavam roupas de empregada. — Quem são- Ah! Uma dor aguda, que me lembra minhas cólicas, surgiu do nada, mas dessa vez era mais forte que minhas cólicas normais. Dessa vez essa dor se irradiava por toda a minha lombar e era mil vezes pior do que levar um tiro. — Agora, minha senhora! Força! — a voz do homem que eu não conseguia ver continuava. Eu não sabia o que estava acontecendo; uma das moças se aproximou de mim com um lenço. — Por favor, vossa majestade, não desista! — a moça vestida de serva implorou, passando o lenço úmido em minha testa. Tinha tanta coisa para dizer, mas não havia forças para falar qualquer palavra e tudo que saía da minha boca era um grito alto acompanhado da dor causada por uma sensação de aperto no meu abdômen. Essa dor só crescia cada vez mais. — Está perto! Já consigo ver a cabeça! — gritou a voz de um homem que eu não conseguia ver onde estava. — Ca-cabeça? — conseguiu formar uma palavra quando a dor passou. Olhei para as pessoas ao meu redor e não consegui reconhecer ninguém. Todos eram estranhos e alguns me olhavam com pena, outros sorriam ao ver meu estado, mas o mais assustador foi o lugar em que eu estava. Um quarto tão luxuoso e brilhava com a pequena luz do sol que passava pelas cortinas. Infelizmente, não consegui pensar muito, pois a dor havia retornado. — Força, vossa majestade! Seu filho está quase lá! — a voz do homem gritou novamente e eu pude sentir mãos mexendo em minhas pernas para abri-las ainda mais. — Filho?! Que m***a está acontecendo aqui?!!? — Vossa majestade! Segure-se! — a moça que estava ao meu lado sinalizou para as cordas amarradas na cama. Não questionei, me agarrei a elas e continuei a segurá-las como se minha vida dependesse disso. — Só mais um pouco, vossa majestade... A voz do homem continuava a vir, não sabia o que estava acontecendo e apenas agi por instinto e comecei a colocar força. — Respire fundo — a moça disse, passando novamente o lenço em minha testa. A dor passou por alguns minutos e eu comecei a respirar fundo, restaurei toda a minha energia. Quando a dor voltou, voltei a fazer força até começar a gritar. Gritei tão alto que não percebi o choro que surgia. — É um menino! — o homem finalmente apareceu no meu campo de visão, segurando um bebê ainda preso ao cordão umbilical. Meu corpo finalmente cedeu. Cair com tudo nos travesseiros, fazendo pequenas penas voarem, mas não ter nenhum segundo para descansar e digerir o fato de que acabei de dar à luz, mesmo sem ter dormido com ninguém em minha vida, pois, em minha frente, estava uma tela azul com os seguintes dizeres: Parabéns! Você cumpriu a missão: Pari O Futuro Rei com sucesso! Agora podemos começar oficialmente sua missão de: Eu Vou Torna-lo Um Rei Você aceita? — Que m***a está acontecendo?
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