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2227 Palavras
CAPÍTULO 4 — CECÍLIA NARRANDO Voltei para casa naquela tarde com uma sensação estranha no peito. Desde a mensagem do meu pai naquela manhã, eu não conseguia parar de pensar em Fernando. O nome dele parecia ter ganhado um peso diferente depois que meu pai disse que precisava conversar comigo sobre o casamento. Durante a aula, tentei me concentrar, mas minha cabeça estava longe. Até Gabi percebeu que eu estava mais quieta do que o normal. Ela chegou a perguntar se estava tudo bem, mas eu apenas sorri e disse que sim. Eu ainda não sabia como explicar a ela que o meu maior problema não era uma prova, uma matéria difícil ou alguma discussão boba em casa. Meu problema era não ter controle sobre a própria vida. Quando o carro entrou na garagem da mansão, senti meu estômago se fechar. Pela janela, percebi que havia dois carros estacionados na frente da casa. Um deles eu reconhecia. Era do meu pai. O outro pertencia a um homem que trabalhava com ele. Isso significava que ele provavelmente estava em casa. Respirei fundo antes de abrir a porta do carro. O motorista saiu para abrir para mim, mas eu agradeci e entrei sozinha. Assim que atravessei a porta principal, percebi que o ambiente estava diferente. A casa estava silenciosa demais. Não havia música, televisão ou qualquer conversa vindo da sala. Caminhei alguns passos e encontrei minha mãe perto da cozinha. Ela estava com uma expressão preocupada. — Você chegou. — Cheguei, mãe. Aconteceu alguma coisa? Ela tentou sorrir. — Não. Está tudo bem. Olhei para ela por alguns segundos. Eu conhecia aquele sorriso. Era o mesmo que ela usava quando queria esconder alguma coisa. — O pai está em casa? Ela hesitou. — Está. Meu coração acelerou. — Ele está bebendo? Minha mãe não respondeu. Não precisava. Eu já sabia. Subi para o meu quarto, deixei a bolsa sobre a cama e troquei de roupa. Coloquei uma calça confortável e uma blusa larga. Fiquei alguns minutos sentada na cama, olhando para o celular. Nenhuma mensagem de Gabi. Pensei em mandar alguma coisa, mas desisti. Eu não queria preocupá-la. Além disso, meu pai tinha deixado claro que queria conversar comigo. Eu precisava enfrentar aquilo. Quando desci novamente, encontrei meu pai sentado na sala com um copo de uísque na mão. Havia uma garrafa sobre a mesa. O líquido âmbar refletia a luz do ambiente. Ele estava com a camisa aberta no primeiro botão e o rosto mais vermelho do que de costume. Minha mãe estava perto da mesa de jantar, organizando os pratos. Quando me viu, fez um pequeno movimento com a cabeça, como se pedisse para eu ter cuidado. Meu pai levantou os olhos. — Finalmente. — Eu estava no quarto. — Eu sei. Fiquei parada. — Você disse que queria conversar comigo. Ele tomou um gole da bebida. — Senta. Obedeci. Minha mãe colocou a comida na mesa. O jantar começou em silêncio. Eu m*l conseguia engolir. Meu pai parecia tranquilo, mas eu conhecia aquele silêncio. Era o tipo de calma que vinha antes da tempestade. Depois de alguns minutos, ele colocou o copo sobre a mesa. — Conversei com a família do Fernando. Meu coração começou a bater mais rápido. — Sobre o quê? Ele me olhou como se a resposta fosse óbvia. — Sobre o casamento. Segurei o garfo com mais força. — O que tem o casamento? — A data foi praticamente definida. Parei de respirar por um segundo. — Como assim? — Você ouviu. — Mas o senhor não tinha dito que ainda estavam conversando? — E estávamos. Agora não estamos mais. Olhei para minha mãe. Ela estava em silêncio. — Qual é a data? Meu pai tomou outro gole. — Daqui a dois meses. O garfo escapou um pouco entre meus dedos. — Dois meses? — Sim. — Mas… — Mas o quê? — Eu nem conheço o Fernando. Ele soltou uma risada curta. — Você vai conhecê-lo. — Quando? — Ele vem ao Brasil nas próximas semanas. — E o senhor acha isso normal? Meu pai franziu a testa. — O que exatamente você acha que não é normal? Minha voz começou a tremer. — Eu me casar com um homem que eu nunca vi. Ele colocou o copo na mesa com força. — Fernando é um homem de família. Tem educação, dinheiro e posição. Você poderia ter coisa muito pior. — Eu não estou dizendo que ele é uma pessoa r**m. — Então qual é o problema? Olhei para minha mãe. Ela continuava parada, segurando um pano de prato entre os dedos. — Eu não quero me casar com um homem que eu nem conheço. O silêncio que veio depois foi pesado. Meu pai me encarou. — Repete. Engoli em seco. — Eu não quero me casar com ele. — Você não tem que querer. Meu peito apertou. — Mas sou eu quem vai casar. — E eu sou seu pai. — Isso não significa que o senhor pode decidir tudo por mim. Minha mãe fechou os olhos por um instante. — Cecília… Meu pai levantou a mão. — Fica quieta. Minha mãe ficou em silêncio. Eu sentia minhas mãos tremendo. — Eu tenho vinte anos. — E enquanto estiver sob o meu teto, vai fazer o que eu mandar. — Eu sempre fiz. Minha voz saiu mais baixa. — Sempre fiz tudo o que o senhor quis. Nunca namorei. Nunca saí escondida. Nunca fui para festas. Nunca fiz nada que pudesse desonrar nossa família. Eu estudo, volto para casa, não dou trabalho. O que mais o senhor quer de mim? Ele levantou-se lentamente. — Respeito. — Eu respeito o senhor. — Não parece. — Eu só estou pedindo para escolher com quem vou me casar. — Você não tem maturidade para escolher. — Como o senhor sabe? Eu nunca tive a chance. Minha mãe se aproximou. — Por favor, vocês podem conversar com calma. Meu pai virou o rosto para ela. — Eu mandei você ficar quieta. — Ela só está tentando ajudar. Ele bateu a mão sobre a mesa. — Eu não pedi ajuda de ninguém! Meu corpo inteiro estremeceu. Minha mãe recuou. Eu me levantei. — Não precisa falar com ela assim. Ele virou o rosto para mim. — Você está me desafiando? — Não. — Está sim. — Eu só estou dizendo que não precisa tratar minha mãe dessa forma. Ele se aproximou. — Você está ficando muito atrevida. Eu recuei um passo. — Pai… — Você acha que porque está fazendo faculdade pode fazer o que quiser? — Não. — Então pare de agir como uma criança mimada. Senti meus olhos arderem. — Eu só quero escolher minha própria vida. Ele ficou me olhando durante alguns segundos. O cheiro de álcool estava forte. Eu sabia que aquela conversa estava saindo do controle. Minha mãe percebeu também. — Vamos parar por hoje — ela disse baixinho. — Ele está nervoso. Meu pai virou para ela. — Você não manda em mim. — Eu só quero evitar uma discussão. — Cala a boca. Minha mãe ficou imóvel. Eu conhecia aquele momento. Conhecia o olhar dele. Conhecia a maneira como segurava o copo. Conhecia a tensão nos ombros. Era como se meu corpo soubesse antes da minha cabeça que alguma coisa r**m estava prestes a acontecer. — Pai, por favor. Ele virou o rosto para mim. — Vai para o seu quarto. — Mas… — Agora! Obedeci. Dei alguns passos em direção à escada, mas ouvi minha mãe dizer alguma coisa atrás de mim. Não consegui entender exatamente o que ela falou. Só ouvi a voz do meu pai aumentar. — Eu falei para você calar a boca! Depois veio um barulho seco. Parei no meio da escada. Meu coração disparou. Olhei para trás. Minha mãe estava com a mão no rosto. Meu pai estava diante dela. Por alguns segundos, ninguém se mexeu. Então eu desci correndo. — Não! Minha mãe tentou me impedir. — Cecília, vai para o quarto! — Não! Fui até ela. — O senhor não vai fazer isso com ela! Meu pai virou para mim. — Sai da minha frente. — Não. Eu estava tremendo, mas não saí. — Você está louca? — Eu não vou deixar o senhor bater nela. Ele avançou. Minha mãe tentou entrar entre nós. — Por favor, chega! — Sai daqui! — Não! Tudo aconteceu rápido demais. Meu pai segurou meu braço com força. Senti meus olhos se encherem de lágrimas. — Me solta! — Você está esquecendo com quem está falando. — Me solta! Minha mãe tentou puxá-lo. — Para! Ela é sua filha! Ele soltou meu braço apenas para empurrar minha mãe para trás. Ela perdeu o equilíbrio e bateu contra a lateral da mesa. Eu corri até ela. — Mãe! Ela levou a mão à cabeça. — Eu estou bem. Eu não estava. Eu estava cansada. Cansada de ter medo. Cansada de assistir aquilo. Cansada de viver em uma casa onde cada palavra precisava ser escolhida com cuidado. Cansada de ter dinheiro, mas não ter liberdade. Cansada de ter tudo e, ao mesmo tempo, não ter nada. Meu pai apontou para a escada. — Para o seu quarto. Agora. — Não. Ele me encarou. — O quê? — Eu não vou mais obedecer. Minha própria voz me assustou. — Cecília… Minha mãe sussurrou meu nome, mas eu não consegui parar. — Eu não quero esse casamento. Não quero casar com o Fernando. Não quero continuar vivendo assim. Meu pai veio na minha direção. — Você não decide nada nesta casa. — Então eu vou embora. Ele parou. Minha mãe me olhou assustada. Meu pai soltou uma risada sem humor. — Você vai para onde? Não respondi. — Você não tem dinheiro. Não tem amigos. Não sabe fazer nada sozinha. Você acha que o mundo vai cuidar de você? Aquelas palavras doeram porque, durante anos, eu tinha acreditado nelas. Talvez fosse justamente por isso que eu nunca tinha ido embora. Porque ele tinha conseguido me convencer de que eu não conseguiria sobreviver sem ele. Meu pai apontou para a escada. — Sobe. Dessa vez eu subi. Não porque ele tinha vencido. Subi porque, naquele momento, eu precisava pensar. Entrei no meu quarto e fechei a porta. Alguns segundos depois, ouvi a chave girar do lado de fora. Ele tinha me trancado. Fiquei olhando para a porta. Depois olhei para minhas mãos. Meu braço ainda doía onde ele tinha apertado. Comecei a chorar. Chorei em silêncio para que ninguém escutasse. Fui até a cama e me sentei. Minha mãe. A imagem dela com a mão no rosto não saía da minha cabeça. Eu queria voltar lá. Queria abraçá-la. Queria dizer que tudo ficaria bem. Mas, pela primeira vez, eu sabia que não ficaria. Não enquanto permanecêssemos ali. Olhei para o meu quarto. Para os móveis caros. Para as roupas no closet. Para os perfumes. Para a cama enorme. Para tudo aquilo que meu pai havia comprado para mim. De repente, nada daquilo parecia meu. Levantei-me e caminhei até o closet. Abri a porta do fundo e encontrei uma mala que eu usava quando viajava com minha família. Puxei-a para fora e coloquei sobre a cama. Fiquei olhando para ela durante alguns segundos. Eu estava realmente pensando em fugir. A ideia parecia absurda. Eu não sabia para onde ir. Não sabia onde dormir. Não sabia quanto dinheiro tinha disponível. Não sabia como viver sem motorista. Não sabia nem sequer como pegar um ônibus sozinha. Mas sabia uma coisa. Eu não queria continuar naquela casa. Abri o closet e comecei a separar algumas roupas. Peguei calças, blusas, roupas íntimas, alguns vestidos simples. Não podia levar muita coisa. Quanto mais levasse, mais chamaria atenção. Peguei meus documentos, meu celular, carregador e alguns itens pessoais. Coloquei tudo dentro da mala. Parei diante do espelho. Olhei para meu próprio reflexo. Eu ainda parecia a mesma garota. Mas alguma coisa dentro de mim tinha mudado. Talvez fosse medo. Talvez fosse coragem. Talvez fossem os dois juntos. Sentei na cama e peguei o celular. Abri minha lista de contatos. Meu dedo passou por vários nomes. Nenhum deles parecia uma possibilidade. Eu não tinha amigas próximas. Não tinha parentes com quem pudesse contar. Não tinha para onde ir. Então lembrei de Gabi. Lembrei do jeito espontâneo dela. Do sorriso. Da forma como ela tinha me chamado de amiga. Do convite para almoçar. Daquela frase que ela havia dito quando descobriu que eu nunca tinha ido a um baile. “Você vive presa, né?” Talvez ela tivesse percebido antes de mim. Abri a conversa. Fiquei olhando para o campo de mensagem. Escrevi. Apaguei. Escrevi novamente. Minhas mãos tremiam. Eu sabia que, depois daquela mensagem, não haveria como voltar atrás. Respirei fundo e digitei apenas quatro palavras. “Eu preciso fugir.” Fiquei olhando para a tela. Meu dedo pairou sobre o botão de enviar. Então apertei. A mensagem foi enviada. Meu coração disparou. Naquela noite, pela primeira vez em vinte anos, eu tinha tomado uma decisão que era somente minha. Eu não sabia para onde iria. Não sabia quem iria me ajudar. Não sabia o que encontraria do outro lado daquela porta. Mas sabia que não ficaria ali. Eu iria embora. Mesmo que precisasse enfrentar o mundo inteiro para conseguir ser, finalmente, dona da minha própria vida.
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