Uma semana depois...
— Hoje a noite vocês participarão da luta clandestina. Vocês já devem ter ouvido falar delas, mas não se preocupem, elas não são nada demais para vocês que estão treinando aqui. Elas são uma dificuldade para quem não participou do treino. Afinal o que tem de difícil em lutar? — A inspetora falava. — Veremos vocês a noite. Descansem.
Depois da inspetora sair dalí, nos encaramos. Estávamos todos sentados em um círculo no chão, conversávamos antes dela chegar.
— Depois da luta clandestina, o que vem depois? — Ava questionou como se nós soubéssemos. Quem deve saber é o Chase.
— Liberdade. Vamos embora. — Chase respondeu.
Nos encaramos então, todos aliviados, menos Chase. Não dava para saber se ele estava aliviado ou não, ele sempre tem a expressão neutra.
Mexi nos meu cabelos caídos sobre a testa, escuros e curtos, mexi como uma forma de alívio. Finalmente iremos embora.
Ash estava ao lado do Dylan, m*l me olha, na verdade ele não me olha em momento algum. Parece que nem estou aqui.
— Essa é a parte em que devemos começar a pensar sobre o plano de resgate da Kim. — Noah falou em tom de brincadeira. Estamos tão felizs e tão cansados, que parece até que estamos brincando de pique-esconde.
— Precisamos descansar primeiro, temos a luta mais tarde. Essas últimas semanas tem sido uma tortura, e não queremos ir resgatar a Kimberly com uma costela quebrada. — Dylan falou se levantando logo em seguida e indo deitar na cama dele. Todos fizeram o mesmo.
Eu deitei na minha cama, mas com um aperto no coração. Olho em volta vendo 50 pessoas e 300 camas, está acabando. Eu nem sei mais como é viver uma vida normal.
Fechei os olhos e me imaginei em um campo de flores, eu corria por esse campo de flores até que cheguei em um caminho de palmeiras que levavam até um campo.
E lá estavam eles; Dylan, Ash, Noah, Ava e ela... A Kimberly. Conversavam e riam.
Acho que dormi depois de uns segundos. Realmente estou cansada, as últimas semanas tem sido difícil.
Acordei umas horas depois, sentei na cama e olhei em volta vendo todos dormindo. Quando olhei para a cama do Chase eu não o vi, e ao olhar para a porta principal eu o vi alí sentado escorado ao lado da porta.
Levantei da minha cama e caminhei em direção a ele. Sentei ao seu lado e fiquei lá em silêncio.
Chase tinha a cabeça escorada na parede também, e encarava as grades no final da parede lá em cima. As luzes estavam apagadas porque queriam que dormissemos, e na cabeça deles se apagassem as luzes is ajudar nisso. Mas de certa forma era bom sim, essa meia luz era incrível.
— No que está pensando? — Questionei por fim, já que ele estava tão calado.
— O Ash não quer nada com você? — Chase falou do nada, me pegou desprevenida.
— Por que? E aliás, o que você tem haver com isso?
— Nada, ele só trata você como uma v***a. Já parou para pensar que ele não quer nada com você? — Chase parecia zangado.
— E por que você se importa?
— Nada. — Chase levantou e foi deitar na cama dele novamente.
Fiquei alí sozinha olhando para as grades no final da parede, então voltei a dormir também.
— Treineiros, se preparem. Daqui a pouco vamos ter a luta clandestina. — A inspetora apareceu na porta novamente, então saiu.
Os guardas vieram nos buscar depois de um tempo.
Fomos andando até um tipo de arena, haviam tipos de "arquibancadas". Não eram arquibancadas exatamente, eram alguns andares onde as pessoas ficavam em pé olhando para baixo e vendo uma espécie de plataforma de madeira, que creio eu que era onde íamos lutar.
Ficavam pessoas em volta da plataforma, quando chegamos já tinham algumas pessoas lutando. Não olhei muito, não quis manter aquelas imagens em minha mente.
Ficamos espalhados por alí, como se de alguma forma já não precisamos de supervisão porque já éramos livres. Dava para nos identificar pela roupa, e as outras pessoas que aparentemente eram de outras comunidades, algumas eu até conseguia reconhecer. Reconheci William naquela multidão e outras pessoas que eu já havia visto na comunidade de Ash.
— Você vai lutar? — Dylan me perguntou.
Fiquei indecisa, eu não sabia ao certo se eu estava preparada.
— Eu tenho opção? — Questionei irônica.
Participar das lutas clandestinas é obrigatório no final do treinamento do Elijah. Não importa se ganhar ou perder, só precisa participar.
— Eu sou o próximo. — Chase anunciou. — Depois de lutar, precisa sair para cuidar dos machucados, vestir a roupa que você veio e então ir embora.
Ir... Ir embora? Depois daqui já podemos ir embora?
— Eles lavam nossas roupas pelo menos? — Ava ironiza. — Já que vão nos expulsar no meio da noite, isso era o mínimo.
— Eles abastecem até nosso carro e verificam se está tudo certo com ele. — Chase diz nos deixando confusos se ele está falando sério ou não, depois de uns segundos que ele não riu percebemos que ele estava falando sério mesmo.
Ficamos alí em volta da plataforma de madeira, e então quando finalizou a luta de antes. Foi a vez de Chase.
Subiram Chase e outro homem na plataforma, os dois tiraram suas camisas. A plataforma ficava mais ou menos um metro acima do chão. E as pessoas ficavam em um círculo em volta assistindo.
Chase encara o outro homem por alguns instantes, eles se encaram esperando a reação um do outro.
O Chase me ensinou a nunca reagir primeiro, então é por isso que ele não move um dedo até que o outro tome uma atitude.
Alguns segundos depois, o outro homem tenta lhe dar um soco. Mas Chase curva seu corpo para trás e entorta a cabeça para o homem, olhando com um sorriso debochado.
O outro homem soca o vento uma vez em cada lado de Chase, porque o mesmo desvia de todos eles.
Com raiva, o homem começa a ficar mais violento. Tenta acertar o joelho em Chase, chutes e outros golpes com as pernas. Meu coração falta sair pela boca assistindo cada um desses golpes, mas nenhum Chase permite acertá-lo.
Até que finalmente Chase cansa dessa brincadeira, e quando um soco vinha em sua direção, ele segurou o punho do oponente e acertou um soco em seu rosto. E por aí só se escutava mais diversos socos, e mais socos e mais socos.
O oponente caminhava para trás enquanto Chase o acertava diversas vezes, chegou a um ponto que eu abaixei a cabeça e depois de respirar fundo voltei a olhar.
O oponente reagiu, acertou um soco na costela de Chase fazendo ele gemer de dor. Cerrei os punhos com força, era como se estivesse acertando em mim. Um outro som de soco, dessa vez no rosto de Chase. Mais outros socos foram acertados, eu não contei.
Um chute na parte de trás do joelho do Chase, e eu não olhei mais. Abaixei a cabeça e fechei os olhos com força.
Voltei a olhar depois de uns segundos. Chase acertou um soco na costela dele, o fazendo ficar desorientado. Acertou um no estômago, e então um no rosto. Acabou a luta quando Chase acertou um soco no queixo dele, fazendo ele cair no chão e não levantar mais.
Todos em volta começaram a gritar como comemoração.
Subiu um tipo de juíz alí em cima e então levantou a mão de Chase no alto, indicando que ele era o vencedor.
Todos gritavam, mas eu não conseguia reagir ainda. Eu só consegui sorrir minimamente.
Chase desceu da plataforma e então veio em nossa direção.
— Acabou! — Ele disse e então um guarda praticamente arrastou ele para fora da arena.
Fiquei tentando raciocinar enquanto isso, eu não tinha idéia se eu teria coragem de subir naquela plataforma e lutar.
— Sabia que a Kim foi a única mulher até hoje que venceu uma dessas lutas clandestinas? — Dylan sussurrou para mim.
O encarei por uns instantes, tentando processar tudo. A Kim foi a única mulher que ganhou as lutas clandestinas.
Olhei para a inspetora que gesticulou para mim subir na plataforma.
Respirei fundo e subi. Fiquei desesperada quando vi um homem subindo junto comigo, olhei para Dylan desesperada. Ash nem estava por alí, o procurei mas não o vi.
Dylan assentiu para mim como uma forma de me encorajar.
O homem em minha frente deslizou a camisa por cima da cabeça, a inspetora me encarou quando eu continuei imóvel. Ela então puxou um pouco a sua própria camisa e a balançou. Mesmo sendo mulher eu ainda tinha que tirar a camisa, isso é sério?
Respirei fundo e retirei a camisa pela cabeça ficando só de sutiã. Alguns homens assobiaram, me fazendo sentir super desconfortável.
Me preparei, alonguei os braços, o pescoço, as mãos... Fiz técnica de respiração, tudo para me acalmar.
O homem em minha frente sorriu malicioso como se eu fosse uma ovelhinha em frente a um lobo. Ele não era do treinamento, eu nunca o vi.
A inspetora nos deixou de frente um para o outro e então gesticulou a mão entre nós dois como se estivesse cortando algo.
Tomei um baita susto quando o homem avançou para cima de mim com um soco, desviei igual o Chase arqueando as costas para trás por um grande impulso como se meu corpo já agisse no automático. Fiquei impressionada comigo mesma.
O homem tentou de novo, girei para o lado e acertei um soco na costela dele. Minha mão doeu e ele só se encolheu um pouco como se minha força não o atingisse o bastante. Balancei um pouco a mão e me segurei para não fazer nenhuma careta, eu sou mais que isso.
Nunca acertar primeiro, foi o que o Chase ensinou. Eu não posso avançar nele, tenho que esperar que ele tente me acertar.
O homem avançou novamente, entrelacei nossos braços, o impulsionei para baixo e acertei um chute na virilha dele. Ele se encolheu, então aproveitei para cerrar o punho com força e acertar vários socos no rosto dele com toda a força que eu estava escondendo.
De repente, todos começaram a gritar animados. "Acaba com ele!" Eu ouvi vindo lá de cima.
Ele conseguiu forças, segurou minha cintura e como se eu fosse uma boneca de algodão, me jogou no chão fazendo meu corpo ficar dormente por um instante.
Estava doendo muito, tentei me recuperar em segundos mas doía para caramba.
Não deixei que ele montasse em mim, senão já era. Dei nele uma rasteira o fazendo colidir contra o chão igual eu.
O tempo que ele caía no chão foi o suficiente para que eu conseguisse levantar. Montei nele, e eu não consigo lembrar muito bem. Mas dei vários socos no rosto dele, pensei em tudo o que eu passei, no Liam me batendo achando que eu era a Kim, o Robby batendo a minha cabeça no carro... E a Kimberly, pela Kimberly.
Não durou muito tempo para que o homem me empurrasse, ele me afastou mas o rosto dele estava detonado. Olhando para minha mão agora que só pareceu notar a dor nesse exato momento, percebi que ela estava sangrando também.
A dor nas minhas costas era insuportável, não sei se eu conseguiria dar mais algum soco. Me resta tentar me defender com as pernas agora.
Fiquei cambaleando de um lado para o outro encarando o homem soltando fumaça pelo nariz de tanta raiva. Tentei fechar a mão e não consegui, doía muito.
Eu preciso acabar com isso agora.
Parecia que estava tudo em câmera lenta agora. Eu vi o meu oponente correr em minha direção devagarinho, olhei rápido para o chão e lembrei do chute que o Chase me ensinou.
Estiquei as mãos para o alto, impulsionei meu corpo para o lado como quando vamos fazer o mortal de estrelinha. Então joguei minhas pernas para trás e acertei meus pés na cabeça dele, dei um chute de cheio na lateral do rosto dele.
Eu caí no chão. Ouvi gritos altos, levantei rápido e antes que o homem pudesse reagir, dei um chute no estômago dele ao ponto de estralar os dedos dos meus pés. Ele se encolheu e não levantou mais.
Tudo ficou silencioso na minha cabeça, por mais que eu olhasse para as pessoas e visse elas gritando, para mim o som estava abafado.
Senti alguém erguer minha mão para cima me fazendo sair daquele silêncio.
— Qual o seu nome garotinha? — A inspetora questionou.
— O que? — Questionei desorientada.
— O seu nome!
— Ah! — Pensei por uns instantes tentando raciocinar. — Meu nome é Kiria.
A inspetora sorriu e ergueu minha mão mais alto ainda, e as pessoas gritavam alto. Meus ouvidos doíam com esses gritos.
— Kiria! Esse é o nome da nossa segunda vencedora feminina das lutas clandestinas. — A inspetora gritou.
— Kiria! Kiria! Kiria!... — Todos gritavam diversas vezes o meu nome.
Fiquei confusa por um tempo, mas depois de uns instantes a fica caiu.
Começaram a aplaudir. Um guarda segurou meu braço e me puxou para fora dalí, quando passei por aquela multidão vi Ash, Dylan, Ava e Noah sorrirem e aplaudirem junto com as outras pessoas.
Eu fiquei feliz.
O guarda me levou até uma sala, me deixou lá e saiu.
Tinha uma mulher lá, ela cuidou dos meus machucados e me entregou um saco zip lock que eu reconheci na hora, era o saco que guardava meus pertences.
Vesti minha camisa branca, calça jeans rasgada, botas e jaaueta de couro preta novamente. Senti exatamente a mesma sensação de quando cheguei aqui.
Com a mão enfaixada e cheia de curativos, as costas ardendo por causa do gel para dor que a mulher passou, e também as botas fazendo bagulho no chão, um outro guarda me conduziu até lá fora. Me deixou lá.
Avistei Chase escorado no carro em que viemos lá longe, acho que não nos deixam ficar perto dos muros. Só o notei por causa da chama do cigarro.
— O Dylan me deixou pegar o carro, vamos embora juntos. — Chase falou quando eu me aproximei.
— Vamos esperar eles terminarem de lutar. — Respondi. — Você tem outro?
— Cigarro? — Chase questionou. Eu assenti.
Ele me entregou um cigarro e acendeu com um isqueiro prateado. Dei uma tragada e soltei a fumaça vendo ela se espalhar pelo ar gelado.
— Você está bem inteira, pelo visto se saiu bem. — Chase quebrou o silêncio.
— Eu sou a segunda vencedora feminina agora.
— Você venceu? — Eu assenti e Chase me encarou como se estivesse super impressionado. Me senti incapaz por causa da reação dele. — Como se sente agora?
— Sinto que perdi mesmo tendo vencido.
— Que positivo. Estamos muito perto de encontrar a Kimberly, fique calma.
— Eu derrotei o babaca com aquele seu chute de estrelinha. — Falei sorrindo animada.
— Eu sabia que o chute de cabeça para baixo nunca falha. — Chase cerrou os punhos animados me fazendo rir.
Olhando ele assim me faz vê-lo diferente. Ele está vestido com uma calça jeans preta, sapatos pretos, camisa branca e jaqueta de couro também.
A voz dele é tão calma, tão boa de ouvir. A meia luz da lua deixa esse momento tão mais irreal. O rosto de Chase é muito bem marcado, fico sorrindo o vendo assim distraído no dia-a-dia. Ele é tão diferente quando não está no treinamento. Estamos escorados no carro e meu ombro está tocando o dele, o toque dele é diferente, tocar nele é diferente.
— O que foi? — Chase questionou confuso. Eu ri.
— Nada. — Desviei meu olhar para outro lugar.
Depois de mais ou menos meia hora, Ava apareceu. Veio mancando um pouco, mas estava bem inteira também.
— Como foi? — Perguntei.
— Uma merda! Me deixa entrar no carro, preciso ficar sentada um pouco. — Resmungou.
Chase destrancou o carro e ela entrou. Depois de um tempo cansamos também, e ficamos esperando dentro do carro.
Sentamos no banco de trás, fiquei ao lado de Chase já que a Ava já estava no canto da janela quando entramos.
Depois de mais meia hora Dylan chegou, depois Ash e por último Noah.
Ash sentou no banco do motorista, o Dylan no banco do passageiro. Deu r**m no banco de trás, quando viemos o Chase não estava então agora para ir embora deu r**m.
Noah abriu a porta do lado da Ava.
— Vá sentada no meu colo, meu amor. — Noah pediu. — Ande, saia para eu poder entrar.
Ava obedeceu e então se acomodaram ao meu lado.
— Podemos ir? — Ash perguntou. E então com alívio todos disseram que "Sim".
O carro começou a andar, e então agora tínhamos um longo caminho pela frente. Estamos chegando Kimberly.
Naquele aperto entre o Noah e o Chase, acabei dormindo.