A manhã seguinte nasceu com um sol impiedoso, daqueles que fazem o asfalto da favela brilhar como se estivesse coberto de vidro quebrado. Para Lara, o sono havia sido um campo de batalha. Sempre que fechava os olhos, via o isqueiro de Dante riscando a escuridão, uma chama que prometia aquecer e destruir na mesma medida.
— Lara! Café na mesa! — o grito da mãe, Dona Glória, veio da cozinha.
Lara apertou a xícara de porcelana entre as mãos. Ela sabia o que reunião com a associação significava no vocabulário codificado do pai: política, influência e, possivelmente, uma conversa com os homens que Dante comandava.
— Eu vou para a faculdade, mãe. Tenho aula de anatomia hoje.
— Vá com Deus, minha filha. E não se desvie do caminho principal.
A frase soou como um eco vazio. Lara saiu de casa sentindo o peso da bolsa no ombro, mas o peso real estava na expectativa. Cada esquina que dobrava, cada beco por onde passava, ela esperava ver a silhueta imponente de Dante.
A surpresa, no entanto, veio quando ela chegou ao ponto de ônibus na entrada da comunidade.
Um dos meninos de Dante, um rapaz de no máximo vinte anos com um rádio comunicador na cintura e um fuzil pendurado com desleixo no ombro, estava encostado em um muro de blocos aparentes. Quando ele viu Lara, não assobiou nem fez as piadas obscenas que costumava fazer com as outras garotas. Ele apenas se desencostou do muro e caminhou até ela.
Lara congelou. O ponto de ônibus estava vazio.
— O Fênix mandou te entregar — disse o rapaz, estendendo um envelope pardo, amassado nas pontas.
Lara hesitou. O coração batia tão forte que ela achou que o rapaz pudesse ouvir.
— Eu não posso aceitar nada dele — ela sussurrou, a voz falhando.
O rapaz deu um meio sorriso, um olhar que misturava pena e deboche.
— Ninguém diz não pro homem, santinha. Pega logo. Ele não gosta de esperar.
Lara pegou o envelope. Seus dedos roçaram os do rapaz, e ela sentiu um arrepio de repulsa e adrenalina. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele já estava descendo a ladeira, sumindo entre as vielas.
O ônibus chegou, mas Lara m*l percebeu o trajeto até a universidade. Sentada no banco do fundo, ela abriu o envelope com as mãos trêmulas.
Dentro, não havia dinheiro, nem ameaças escritas. Havia apenas um pequeno ramo de jasmim, o mesmo perfume que ela usava, e uma bala de fuzil .762, dourada e letal, gravada com uma única palavra: Minha.
O ar sumiu dos pulmões de Lara. O ramo de jasmim representava a delicadeza que ele havia notado nela, a bala representava a violência de que ele era capaz para possuí-la. Era uma promessa de proteção e uma sentença de posse.
Ela passou o restante do dia em transe. Nas aulas de anatomia, enquanto o professor falava sobre o sistema circulatório, Lara só conseguia pensar no sangue quente que corria sob a pele tatuada de Dante. Ela sentia que estava sendo vigiada. Cada sombra no corredor da faculdade parecia ter a forma dele.
Ao sair da aula, no fim da tarde, o céu estava pintado de um roxo dramático. Lara caminhou em direção ao metrô, mas antes de descer a escada rolante, um carro preto, com vidros fumês totalmente escuros, parou silenciosamente ao lado da calçada.
O vidro traseiro baixou apenas alguns centímetros. O suficiente para ela ver o brilho de um isqueiro e sentir o cheiro de tabaco e sândalo.
— A aula foi boa, Lara? — a voz de Dante, vinda da escuridão do carro, era como uma carícia violenta.
Lara parou, os joelhos fraquejando.
— Você está me seguindo? Isso é loucura. Meu pai vai descobrir...
— Seu pai sabe menos do que você imagina, e eu sei mais do que você gostaria — ele interrompeu. O vidro baixou um pouco mais, revelando seus olhos famintos. — Gostou do presente? A flor é pra você lembrar do que é. A bala é pra você lembrar de quem você é agora.
— Eu não sou de ninguém — ela retrucou, tentando recuperar a dignidade.
Dante soltou uma risada curta e rouca.
— Ainda não. Mas eu adoro o processo de conversão, santinha. Entra no carro. Vou te levar pra casa.
— Não! Ficou louco? Se alguém nos vir...
— Ninguém vê o que eu não quero que seja visto. E se alguém ver, vai ser a última coisa que verá na vida. Entra logo. Ou eu desço e te coloco no colo na frente de todo mundo. Você escolhe o nível do escândalo.
Lara olhou ao redor. O fluxo de estudantes era intenso, mas ninguém parecia notar o drama que se desenrolava naquele carro de luxo. Ela sabia que ele não estava blefando. Dante era o tipo de homem que queimaria o mundo só para provar um ponto.
Com a respiração ofegante e a consciência gritando que aquele era o início do seu fim, Lara estendeu a mão e abriu a porta do carro.
O interior do carro era um universo à parte. O ar condicionado estava no máximo, criando um frio que contrastava com o calor asfixiante do asfalto carioca, e o cheiro de couro novo misturava-se ao perfume de Dante, criando uma atmosfera opressiva e inebriante. Lara sentou-se no banco de trás, mantendo o máximo de distância possível dele, colada à porta oposta.
Dante não se moveu. Ele permanecia relaxado, com um braço apoiado no descanso central e a outra mão segurando o eterno isqueiro. Ele a observava pelo canto do olho, um sorriso de satisfação brincando nos lábios.
— O teu corpo diz que você quer fugir, mas os seus olhos... eles estão cheios de perguntas, Lara — disse ele, a voz num tom baixo que parecia ressoar diretamente nos ossos dela.
— A única pergunta que eu tenho é por que não me deixa em paz — ela rebateu, tentando manter a voz firme enquanto apertava a alça da bolsa contra o colo. — Você tem o morro inteiro aos seus pés. Mulheres que fariam qualquer coisa por um olhar seu. Por que eu?
— Porque elas são fáceis. Elas conhecem as regras do jogo. Você... você nem sequer sabe que o jogo começou. E não tem nada que eu goste mais do que ensinar alguém a jogar.
O carro começou a se movimenta. O motorista, um homem silencioso de pescoço largo que Lara não reconheceu, dirigia com uma precisão cirúrgica por entre o trânsito da cidade.
— Pra onde você tá me levado? Esse não é o caminho de casa — notou ela, o pânico começando a subir pela garganta.
O carro começou a subir o morro, mas não pelas entradas principais. Eles foram por uma via de acesso privada, escondida atrás de um armazém de construção civil. Lara via a favela de um ângulo diferente; não era mais o lugar onde ela cresceu, mas o império de Dante visto de cima.
— Sabe quem está financiando aquele centro comunitário abençoado que o seu pai tanto promove? — perguntou ele, a voz carregada de veneno.
Lara franziu a testa.
— São doações dos fiéis. Ele diz que é o milagre da fé.
Dante soltou uma gargalhada seca, um som sem alegria.
— O milagre sou eu, Lara. Eu lavo o dinheiro da minha mercadoria através das contas da igreja do seu pai. Ele recebe a sua fatia para manter os jovens calmos e longe da minha linha de tiro e eu recebo uma fachada limpa perante a lei. O seu pai não é um santo. Ele é o meu sócio.
— Mentira... você está falando isso pra me confundir — murmurou ela, as lágrimas começando a rolar pelo seu rosto.
— Eu não preciso mentir pra ter o que quero. A verdade é uma arma muito mais poderosa. — Dante aproximou-se, invadindo o espaço pessoal dela. O calor dele era magnético. — O seu mundo é feito de papel, Lara. E eu sou o fósforo.
Ele estendeu a mão e, desta vez, ela não se afastou. Com o polegar, ele acariciou o lábio inferior dela, o mesmo que ela mordia compulsivamente. O toque foi leve, mas carregado de uma promessa sombria.
— Pode voltar para a sua gaiola agora. Mas lembra que a bala que eu te dei tem o meu nome. E agora, você também tem.
— Sai — ordenou ele, voltando à sua frieza habitual. — E amanhã, na hora do culto, olha bem nos olhos do seu pai quando ele falar de pecado. Vai ver que o reflexo que está lá... sou eu.
Lara abriu a porta do carro e saiu, as pernas trémulas. Ela não olhou para trás enquanto o carro preto desaparecia na escuridão. Ao chegar à porta de casa, viu o brilho das luzes da igreja. Tudo parecia igual, mas para ela, nada mais voltaria a ser o mesmo.