O domingo amanheceu com um céu de um azul tão límpido que parecia uma afronta ao tumulto no peito de Lara. A Primeira Igreja da Redenção estava lotada. O cheiro de cera de chão, perfume barato e o calor humano de centenas de fiéis criavam uma atmosfera abafada, quase sólida.
Lara estava em seu lugar de sempre, no primeiro banco à esquerda, com o restante do coral. Suas mãos, enfiadas nas dobras da saia, apertavam a bala de fuzil que ela havia escondido no bolso. O metal frio era sua âncora com a realidade.
No altar, seu pai, o pastor Jonas, era uma força da natureza.
— Porque o salário do pecado é a morte! — a voz dele trovejava pelas caixas de som, fazendo as paredes de gesso vibrarem. Ele limpou o suor da testa com um lenço de seda branca, o rosto vermelho de fervor. — Mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna! Irmãos, o inimigo rasteja pelos becos desta comunidade. Ele se veste de poder, ele se veste de ouro, mas ele não tem o que nós temos: a salvação!
Lara olhou para o pai. Por dezoito anos, aquela figura foi sua bússola moral. Agora, tudo o que ela via era um ator premiado. Ela procurou nos olhos dele o reflexo que Dante mencionou. E, pela primeira vez, ela notou o relógio de ouro no pulso do pai, a reforma luxuosa do altar, o carro novo na garagem... nada daquilo batia com os dízimos de uma comunidade que m*l tinha o que comer.
Dante não mentiu. O milagre da fé tinha o cheiro de pólvora do dono do morro.
De repente, um movimento na entrada da igreja fez o fôlego de Lara travar.
A porta principal, geralmente aberta para todos, foi ocupada por três figuras que não pertenciam àquele ambiente de louvor. Dois homens armados, discretos, com as armas escondidas sob camisas largas, postaram-se como sentinelas. No centro, encostado no batente de madeira com a arrogância de quem é dono do solo que pisa, estava Dante.
Ele não entrou totalmente. Ficou na penumbra do hall, a luz do sol batendo em suas costas e criando uma silhueta demoníaca contra a claridade. Ele não usava roupas de festa, estava de regata preta, exibindo as tatuagens que subiam pelo pescoço, e um olhar que desafiava a santidade do lugar.
O pastor parou de falar por um milésimo de segundo. Seus olhos encontraram os de Dante. O pânico cruzou o rosto do pastor, uma sombra rápida que apenas quem o conhecia bem, como Lara, poderia detectar. Jonas pigarreou, recuperou a postura e continuou o sermão, mas sua voz agora tinha um tremor imperceptível.
Dante não olhava para o altar. Ele olhava para o banco do coral. Para ela.
Ele levou dois dedos à têmpora em uma saudação silenciosa e debochada. Em seguida, tirou o isqueiro do bolso. O clique metálico isqueiro não pôde ser ouvido acima do som do órgão, mas Lara viu a chama subir. Ele a encarou através do fogo por um instante e depois fechou a tampa com força.
A mensagem era clara: Eu estou em todo lugar. Até onde você achar que Deus te protege.
— Vamos cantar o hino de encerramento! — anunciou o pastor, a voz agora apressada, querendo acabar com aquilo o mais rápido possível.
Lara levantou-se com o coral. Ela começou a cantar, mas sua voz não era um louvor. Era um lamento. Enquanto as outras jovens olhavam para o teto, buscando o divino, os olhos de Lara estavam fixos na saída. Mas Dante já não estava mais lá. Ele viera apenas para mostrar que o território era dele.
Após o culto, a igreja fervilhava com o burburinho social habitual, mas Lara sentia-se como se estivesse sob a água.
— Lara, querida, você estava ótima no solo — disse uma das irmãs do círculo de oração, tocando seu ombro.
— Obrigada, irmã — Lara respondeu automaticamente, os olhos vasculhando a rua através da porta aberta.
— Lara, para o escritório. Agora! — A voz do pai soou atrás dela, fria como gelo.
Ela o seguiu. O escritório do Pastor era revestido de madeira escura e livros teológicos. Ele fechou a porta e trancou-a.
— O que foi aquilo? — ele sibilou, a fachada de homem santo caindo para dar lugar a um homem acuado. — Por que aquele... aquele criminoso estava olhando para você durante o culto?
Lara sentiu uma coragem súbita, uma rebeldia que nascera no momento em que Dante a tocara no carro.
— Talvez ele estivesse apenas visitando um sócio, pai — ela disse, a voz calma.
O estalo do tapa no rosto de Lara ecoou pela sala.
O impacto jogou sua cabeça para o lado. O gosto metálico de sangue surgiu em sua boca. Ela levou a mão à bochecha ardente, mas não chorou. Ela olhou para o pai com um desprezo que o fez recuar um passo.
— Nunca mais repita uma calúnia dessas — Jonas rosnou, embora seus olhos estivessem injetados de medo. — Eu te protejo do mundo, sua ingrata! Eu te mantenho pura!
— Você me mantém em uma vitrine, pai. Para que o seu negócio pareça legítimo.
Jonas levantou a mão novamente, mas parou no ar quando um estrondo veio da rua. Tiros. Muitos tiros.
O som vinha do alto do morro, mas estava descendo rápido. O rádio comunicador que o pastor escondia na gaveta da escrivaninha começou a chiar com vozes desesperadas.
— Operação policial! Estão subindo por trás! — dizia a voz no rádio.
O pânico se instalou na igreja. Gritos de mulheres e crianças vinham do salão principal. Jonas esqueceu a filha e correu para a gaveta, não para pegar uma Bíblia, mas para conferir um maço de notas e alguns documentos.
Lara não esperou. Ela correu para a porta lateral. Ela sabia que, em meio ao caos de uma invasão, Dante estaria no centro do fogo. E, por uma razão que desafiava toda a sua criação, ela não queria estar no caminho estreito do pai. Ela queria estar onde o perigo era real, onde não havia mentiras.
Ela saiu para a luz ofuscante da tarde, enquanto o som de helicópteros cortava o ar. O morro da fênix estava em guerra. E ela ia correr direto para os braços do comandante daquela batalha.
Lara ignorou o grito abafado do pai às suas costas. O escritório, que antes parecia uma fortaleza de moralidade, agora cheirava a mofo e hipocrisia. Ela correu pelo corredor lateral da igreja, os pés batendo no piso de granito até que o sol da tarde a atingiu como um soco.