O cenário lá fora era o apocalipse urbano.
O som rítmico e ensurdecedor das pás de um helicóptero, o temido Caveirão do Ar, cortava as nuvens, projetando uma sombra gigante e predatória sobre os telhados de zinco. No asfalto, o caos era absoluto. Fiéis de terno e bíblia na mão corriam em direção oposta aos homens de Dante, que subiam a ladeira em motocicletas, segurando fuzis com a naturalidade de quem carrega um guarda-chuva.
— Sai da rua, santinha! — gritou um dos vapores que ela reconheceu da noite anterior, enquanto passava em alta velocidade, levantando poeira. — O bicho tá pegando lá em cima!
Mas Lara não recuou. Pela primeira vez na vida, o medo que sentia não era paralisante, era um combustível ácido. Ela começou a subir. Cada tiro que ecoava, cada explosão de granada de efeito moral ao longe, parecia sincronizar com as batidas do seu coração.
Ela dobrou a esquina que levava à entrada da toca da fênix, o quartel-general de Dante. O ar ali já estava carregado de fumaça de pneus queimados, uma barreira improvisada para dificultar a visão dos atiradores de elite da polícia. Seus olhos ardiam, e o gosto de sangue do tapa do pai ainda estava vivo em sua boca, lembrando-a de que a casa de Deus tinha sido o primeiro lugar a feri-la naquele dia.
De repente, um braço forte a puxou para dentro de um beco estreito, prensando suas costas contra a parede de tijolos frios.
Lara abriu a boca para gritar, mas uma mão grande e calejada abafou o som. O cheiro de pólvora, tabaco e sândalo a atingiu instantaneamente.
Ele estava ofegante, o rosto sujo de fuligem, com um colete balístico por cima da regata preta. O fuzil estava pendurado em seu peito, mas seus olhos, pretos como obsidiana, estavam fixos nela com uma fúria que a fez estremecer.
— Você é louca ou só tem a p***a do desejo de morrer, Lara? — ele sibilou, o rosto a centímetros do dela. A mão dele desceu da boca para o pescoço dela, não para apertar, mas para sentir o pulso frenético. — Eu mandei os meus homens limparem a área da igreja. Por que não entrou naquela maldita casa com o seu pai?
Lara olhou para ele, o lábio cortado e a bochecha inchada começando a escurecer.
— Meu pai não é quem eu pensava — ela disse, a voz saindo em um sussurro rasgado. — E o lugar onde eu deveria estar segura é o lugar onde eu mais sinto medo agora.
Dante fixou o olhar na marca do tapa no rosto dela. A expressão dele mudou. A fúria fria se transformou em algo muito mais perigoso, um instinto protetor distorcido. Ele passou o polegar sobre a ferida dela, o toque surpreendentemente leve para um homem que acabara de vir de um confronto.
— Foi ele? — Dante perguntou, o tom de voz baixando de uma forma que prometia sangue. — O pastorzinho de merda levantou a mão para você?
Lara não precisou responder. O silêncio e o brilho de rebeldia em seus olhos foram o suficiente.
Lá fora, o som de uma explosão mais próxima fez a terra tremer. Estilhaços de reboco caíram sobre eles. Dante não vacilou. Ele a puxou para mais perto, protegendo o corpo dela com o seu.
— Escuta bem, Lara. Se você vir comigo agora, não tem volta. Não vai poder voltar para o coral, para as orações ou para a vida de boneca que aquele hipócrita criou para você. Se entrar no meu mundo hoje, você vai ser minha. Sob as minhas regras. No meu inferno.
Lara olhou para cima, para o helicóptero que circulava como um abutre, e depois para o homem que representava tudo o que ela fora ensinada a odiar. Mas ali, entre o fuzil e o peito dele, ela sentiu algo que o púlpito nunca lhe de: a verdade. Uma verdade violenta, crua e obsessiva, mas ainda assim, verdade.
— Eu já estou no inferno, Dante — ela respondeu, segurando as lapelas do colete dele. — Só estou escolhendo o meu dono.
Dante sorriu, um sorriso predatório que não chegava aos olhos, e a puxou pela mão, arrastando-a para as profundezas do morro enquanto o som da guerra consumia tudo o que restava da sua inocência.
A ascensão até o topo do morro foi um borrão de adrenalina e poeira. Dante não a carregou como uma donzela, ele a guiou com uma mão de ferro, os dedos entrelaçados nos dela com uma força que dizia que ele nunca a soltaria. Eles atravessaram passagens estreitas entre as lajes, onde o cheiro de esgoto se misturava ao de pólvora, até pararem diante de uma porta de aço maciço, camuflada por uma parede de tijolos aparentes.
Dante digitou um código em um painel oculto. A porta se abriu com um clique hidráulico pesado.
Ao entrar, o contraste foi violento. O esconderijo de Dante, seu bunker, era um apartamento de luxo encravado na rocha. O chão era de cimento queimado escuro, coberto por tapetes de pele sintética, as janelas eram de vidro blindado fumê, oferecendo uma visão panorâmica e perturbadora da guerra que acontecia lá embaixo, mas sem deixar que nenhum som entrasse. O silêncio ali dentro era absoluto, denso como mel.
Dante trancou a porta, jogou o fuzil sobre um sofá de couro preto e desabotoou o colete balístico, o deixando cair no chão com um baque surdo. Ele estava suado, sujo de fuligem e exalando uma energia elétrica, como um animal que acabara de escapar de uma armadilha.
Lara ficou parada perto da entrada. Ela parecia uma mancha branca de pureza naquele antro de sombras.
— Bebe — disse ele, caminhando até um bar de madeira nobre e servindo dois dedos de uísque puro em um copo de cristal. Ele não perguntou se ela queria, ele ordenou.
Ela aceitou o copo com as mãos ainda trêmulas. O líquido queimou sua garganta, mas ajudou a dissipar o frio que parecia ter se instalado em seus ossos.
— Você mora aqui? — ela perguntou, a voz ecoando no ambiente minimalista.
— Eu sobrevivo aqui — ele corrigiu, aproximando-se lentamente. — O morro é meu trono, mas este lugar... é o único onde eu não preciso ser o alvo de ninguém.
Dante parou diante dela. Ele era muito mais alto, sua presença física drenando o ar do espaço entre eles. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que beirava o insulto, começou a desamarrar o laço da fita que prendia o cabelo de Lara.
— O que você está fazendo? — ela sussurrou, o coração disparado.
— Tirando o disfarce, santinha. — O cabelo dela caiu sobre os ombros em ondas escuras. — Na minha casa, não precisamos de máscaras. Nem eu, nem você. Nem o seu pai.
Ele levou a mão novamente ao rosto dela, tocando o hematoma deixado pelo pastor. A expressão de Dante endureceu.
— Ele te marcou como se fosse propriedade dele — Dante sibilou. — Mas ele cometeu um erro de cálculo. Ninguém toca no que eu decidi que é meu.
— Eu não sou um objeto, Dante. Eu não fugi de uma prisão para entrar em outra.
Dante soltou uma risada sombria, dando um passo à frente, a forçando a recuar até que suas costas encontrassem a porta de aço. Ele apoiou as mãos na parede, uma de cada lado da cabeça dela, prendendo-a em seu território.
— Você ainda não entendeu, não é? A liberdade é uma ilusão que os homens vendem para mulheres como você. Lá fora, você era a filha do pastor, uma peça de marketing para a igreja. Aqui... — ele inclinou o rosto, o hálito com cheiro de uísque e perigo roçando a orelha dela — ...aqui você é o meu pecado particular. E eu não tenho a menor intenção de me arrepender.
Lara sentiu um arrepio que não era de medo, mas de uma eletricidade proibida que subia por sua espinha. Ela deveria empurrá-lo. Deveria gritar. Mas, em vez disso, suas mãos subiram hesitantes e tocaram os braços tatuados dele. A pele era quente, os músculos tensos como cordas de aço.
— Por que me trouxe para cá? — ela perguntou, os olhos fixos nos lábios dele. — Se a polícia está lá fora, você deveria estar lá com seus homens.
— Meus homens sabem morrer por mim. Mas nenhum deles vale o que você vale. — Ele roçou o nariz no pescoço dela, uma carícia predatória. — Você é o meu troféu, Lara. O meu ponto de paz no meio do caos. E hoje à noite, enquanto o morro queima lá fora, o mundo vai esquecer que você existe. Só vai sobrar nós dois.
Dante desceu a mão pela cintura dela, puxando-a para mais perto, eliminando qualquer espaço. Lara sentiu a dureza do corpo dele contra o seu, uma promessa de uma entrega que ela nunca imaginara nos seus piores pesadelos ou nos seus melhores sonhos.