Lá fora, um clarão iluminou o vidro blindado. Um transformador havia explodido, deixando parte do morro escuro. Mas dentro do bunker, a temperatura só subia. Dante a olhou nos olhos, uma mão subindo para a nuca dela, os dedos se embrenhando em seus fios.
— Você quer que eu pare? — ele perguntou, a voz num tom tão baixo que era quase um rosnado. — Diga que quer que eu pare, santinha. Diga agora e eu te deixo dormir no quarto de hóspedes. Minta para mim como o seu pai mente para o mundo.
Lara olhou para o homem que representava a ruína de tudo o que ela conhecia. Ela viu a fênix tatuada em seu pescoço e sentiu que, se não queimasse com ele agora, nunca saberia o que era estar viva.
— Não pare — ela sussurrou.
Dante não esperou. Ele a beijou com uma fome que não tinha nada de santidade. Era um beijo de posse, de guerra e de uma obsessão que vinha sendo alimentada desde o primeiro momento em que seus olhos se cruzaram no beco. Naquela noite, enquanto a favela ecoava com o som dos tiros, Lara descobriu que o inferno não era um lugar de fogo eterno, mas os braços do homem que a havia sequestrado da sua própria vida.
O beijo de Dante era tudo o que Lara tinha sido ensinada a temer, era impuro, violento e possessivo. Não havia a delicadeza dos romances que ela lia às escondidas, mas sim a urgência de um homem que vivia cada dia como se fosse o último. Ele a reivindicava com a língua, com as mãos, com o próprio peso do corpo, a empurrando contra a porta de aço até que ela não soubesse onde terminava o medo e onde começava o desejo.
Lara soltou um gemido abafado contra os lábios dele, um som que misturava choque e capitulação. Suas mãos, antes hesitantes, agora agarravam os ombros de Dante, sentindo a textura da pele suada e o relevo das cicatrizes que contavam a história de um homem que o mundo tentou matar, mas não conseguiu.
Dante afastou seu rosto do dela apenas por um milímetro, o suficiente para olhar no fundo dos seus olhos. Suas pupilas estavam tão dilatadas que o castanho quase desapareceria sob o preto absoluto.
— Está tremendo, santinha — sibilou ele, a respiração quente batendo no rosto dela. — É medo de mim ou do que está sentindo?
— Eu... eu não sei — confessou ela, a voz falhando. — Tudo o que eu sei é que o mundo lá fora parou de fazer sentido.
Dante sorriu de lado, um gesto que exalava uma confiança perigosa. Ele a pegou no colo com uma facilidade assustadora, como se ela não pesasse nada, e caminhou em direção ao quarto principal. O quarto seguia a mesma estética do resto do bunker, uma cama king-size com lençóis de cetim escuro, iluminação indireta em tons de âmbar e uma parede inteira de vidro que mostrava a favela em chamas sob o céu roxo.
Ele a deitou na cama com cuidado, mas não se afastou. Ficou por cima dela, apoiado nos braços, a cercando novamente.
— O seu pai está, neste momento, rezando pela sua alma — disse Dante, enquanto começava a desabotoar a blusa branca de Lara. Os dedos dele, grossos e marcados pelo uso de armas, moviam-se com uma precisão cirúrgica. — Ele vai dizer pra toda favela que você foi sequestrada pelo demónio do morro. Vai chorar lágrimas falsas no altar no próximo domingo.
— E ele está mentindo? — perguntou Lara, sentindo o ar frio do ar condicionado atingir a sua pele conforme a blusa se abria.
— Sobre o demónio? Não. — Dante parou a mão sobre o coração dela, sentindo-o martelar contra as costelas. — Mas sobre o sequestro... você veio porque quis. Veio porque a sua alma reconheceu a minha. Dois monstros disfarçados, Lara. A diferença é que eu parei de me esconder faz muito tempo.
Quando o último botão cedeu, Dante afastou o tecido, revelando a pele pálida e macia de Lara. Para um homem acostumado a ter tudo o que o dinheiro e o medo podiam comprar, aquela visão parecia paralisá-lo. Ele não tocou nela de imediato, apenas observou, como se estivesse diante de um altar profano.
Lara sentia-se exposta, mas não da forma humilhante que imaginou. Havia algo de empoderador em ser o objeto de fascínio de um homem tão letal. Ela estendeu a mão e tocou a fênix no pescoço dele, seguindo o traçado da tinta até à clavícula.
— Me queima então, Dante — sussurrou ela, num desafio que selou o seu destino. — Se eu não posso ser salva, que eu seja sua.
Dante não precisou de mais nada. Ele tirou a própria regata, revelando um tronco coberto de tatuagens e marcas de guerra, e entregou-se ao que sentia. Naquela cama, enquanto o som distante das sirenes e dos tiros formava a banda sonora da sua perdição, o anjo da redenção deixou de existir. Sob o toque obsessivo de Dante, Lara descobriu que a dor e o prazer eram faces da mesma moeda, e que o dono do morro era o único mestre que ela alguma vez desejaria obedecer.
O quarto estava mergulhado em sombras, mas o calor que emanava de Dante era quase palpável, uma presença física que preenchia cada espaço entre eles. Quando ele finalmente a reivindicou, não houve hesitação, apenas uma urgência contida, um desejo que beirava a reverência.
Dante a puxou para si, as mãos grandes e calejadas contrastando com a delicadeza dos quadris dela. O toque dele era possessivo, a marcando como território conquistado. Quando seus lábios se encontraram, o beijo não tinha nada de gentil, era uma colisão de mundos, um gosto de fumaça e desejo proibido.
Lara sentiu o peso do corpo dele sobre o seu, uma âncora que a impedia de flutuar para longe daquela realidade crua. Cada carícia dele era um traço de tinta invisível, reescrevendo quem ela era. A inocência que ela carregava desmoronava sob a pressão dos dedos dele, transformando-se em algo mais escuro, mais denso. No auge da entrega, a dor inicial foi apenas um breve sussurro, logo sufocado pelo prazer avassalador que ele lhe proporcionava.
O suor brilhava na pele de Dante sob a luz fraca que filtrava da janela. Ele a olhava nos olhos, buscando cada reação, cada arquejo, alimentando-se da vulnerabilidade dela. Lara, por sua vez, enterrava as unhas nas costas dele, sentindo as cicatrizes que contavam histórias de violência, agora entrelaçadas à sua própria história.
Naquele momento, as sirenes lá fora silenciaram para ela. O único som que importava era a respiração pesada de Dante em seu ouvido, um mantra de posse que ela aceitava de bom grado.
Quando o ápice finalmente os alcançou, foi como uma explosão silenciosa. Lara sentiu-se, pela primeira vez, completa no meio do caos. Ela não era mais a vítima das circunstâncias, mas a rainha de um império construído sobre pólvora e sangue. Nos braços do dono do morro, ela encontrou uma paz violenta que o mundo correto jamais poderia lhe oferecer.
***
A noite avançou entre sussurros de posse e descobertas sensuais que fariam o pastor Jonas clamar pelo fim do mundo. Dante era insaciável, mas também estranhamente atento. Ele a estudava, aprendendo cada curva, cada reação, a marcando não com tapas, mas com beijos que deixariam marcas invisíveis na sua alma para sempre.
Horas depois, quando o cansaço finalmente os atingiu, Lara adormeceu abraçada a ele, sentindo o batimento firme e constante do coração de Dante contra o seu ouvido. Pela primeira vez na vida, o silêncio não era opressor.
No entanto, o descanso durou pouco.
Enquanto a primeira luz cinzenta da manhã tentava penetrar o vidro fumê, o rádio de Dante, jogado no chão ao lado do colete balístico, começou a chiar violentamente.
— Chefe! Chefe, acorda! — a voz do cicatriz saía arranhada pela estática, carregada de uma urgência que fez Dante abrir os olhos instantaneamente, já em estado de alerta. — O Pastor abriu a boca! Ele deu a localização do túnel de fuga sul para os federais! Eles vão entrar pela retaguarda, Chefe! Estão indo pro bunker!
Dante saltou da cama, a nudez não o tornando menos ameaçador. Ele olhou para Lara, que se sentava na cama, se cobrindo com o lençol, os olhos arregalados de susto.
— O jogo mudou, Lara — disse ele, já pegando no fuzil. — O seu pai acabou de assinar a própria sentença de morte. E ele trouxe a guerra para o meu quarto.