O som da voz de Cicatriz no rádio não era apenas um aviso, era o som do mundo de vidro de Lara se estilhaçando. Dante se moveu com uma velocidade que a deixou zonza. Em segundos, ele já estava vestido com calças táticas e apertava as tiras do coldre na coxa. Não havia mais o amante da noite anterior; ali estava o general, o homem que comandava a morte.
— Se veste. Agora! — ordenou Dante, sem olhar para trás enquanto checava o carregador do seu fuzil.
Lara saltou da cama, as pernas ainda trêmulas. Ela encontrou a sua blusa branca no chão, agora amassada e com um botão a menos, uma lembrança física da sua rendição.
— O meu pai... ele não faria isso. Ele sabe que eu estou aqui! — ela exclamou, as mãos lutando contra os botões da blusa. — Ele não colocaria a minha vida em risco!
Dante parou e virou para ela. Ele caminhou até Lara e segurou o seu rosto com uma força que quase machucava, forçando-a a olhar para o caos em seus olhos.
— Acorda para a realidade, Lara! — ele sibilou. — O seu pai não deu a localização para te salvar. Ele deu a localização para me eliminar. Para ele, você já tá morta ou corrompida. Ele prefere uma filha morta do que uma filha que dorme com o inimigo.
Lara sentiu as lágrimas arderem, mas não as deixou cair. A verdade era um ácido que corroía o que restava da sua infância.
Um estrondo abafado ecoou vindo das profundezas da rocha. As luzes do bunker piscaram. O sistema de ventilação parou por um segundo antes do gerador de emergência entrar em ação, banhando o quarto com uma luz vermelha e sinistra.
— Estão no túnel inferior — disse Dante, verificando o monitor de segurança na parede. — Temos três minutos antes que eles cheguem à porta principal.
Ele pegou uma pistola menor, uma Glock preta, e estendeu para Lara.
— Toma. Sabe usar?
Lara recuou como se ele lhe estivesse oferecendo uma serpente.
— Não. Eu nunca... eu não posso.
— Pois aprende agora! — Dante puxou a mão dela e forçou o metal frio contra a sua palma. — Se um deles entrar por aquela porta e eu não estiver de pé, você não será a filha do pastor, será apenas um alvo. Eles não vêm para te resgatar, Lara. Eles vêm para limpar o terreno.
Ele a arrastou para o corredor, em direção a uma saída que ela não tinha visto antes: um elevador de carga disfarçado atrás de uma estante de vinhos.
— Cicatriz, onde você tá? — Dante falou para o rádio no ombro.
— Setor Sul, Chefe! O fogo tá cruzado no pátio das máquinas. Eles vieram com o BOPE. É caveira, Chefe! Eles querem a sua cabeça a todo custo.
— Aguenta a posição. Estou descendo com a mercadoria preciosa. Prepara o comboio de fuga pelo esgoto seco.
Dante empurrou Lara para dentro do elevador metálico. O espaço era minúsculo, forçando-a a ficar colada ao peito dele novamente. Mas não havia romance ali, apenas o cheiro de óleo de arma e o calor da iminência da morte.
Enquanto o elevador descia aos solavancos, Dante recarregou a pistola reserva.
— O que vai acontecer com o meu pai? — perguntou Lara, a voz quase inaudível acima do ruído metálico.
Dante olhou para ela, e por um breve momento, a frieza deu lugar a algo que parecia piedade ou talvez apenas uma resolução brutal.
— Ele fez a escolha dele, Lara. — Dante destravou o fuzil com um estalo seco. — No meu mundo, traição não se perdoa com orações. Se paga com sangue.
As portas do elevador se abriram para um subsolo úmido e escuro, iluminado apenas pelas lanternas táticas fixadas nas armas dos homens de Dante. O som dos tiros agora era ensurdecedor, as batidas rítmicas das metralhadoras ecoando pelas paredes de pedra como um tambor de guerra.
Cicatriz apareceu na penumbra, o rosto sangrando devido a um estilhaço.
— Chefe, o caminho tá fechado na saída 2. Temos de ir pelo duto do antigo reservatório.
— Então vamos — disse Dante, segurando a mão de Lara com tanta força que ela achou que os seus ossos iam se partir. — Não solte a minha mão por nada, Lara. Se você se perder aqui, nem Deus te encontra.
Eles começaram a correr pelo labirinto de túneis que Dante construiu ao longo dos anos de domínio. Lara sentia a água suja bate nos tornozelos, o ar tornando-se escasso. Atrás deles, o som de explosões indicava que a polícia tinha finalmente entrado no bunker.
Tudo o que Lara conhecia, a sua cama limpa, os seus hinos, a imagem do pai bondoso, tudo estava sendo destruído pelas granadas lá em cima.
De repente, Dante parou e a empurrou para trás de um pilar de concreto.
— Contato! — gritou Cicatriz.
O túnel se iluminou com o fogo dos disparos. Lara se encolheu tapando os ouvidos, vendo as faíscas ricochetearem no teto. Dante disparava com uma calma aterradora, cada tiro seu parecendo encontrar um alvo na escuridão.
Naquele momento, enquanto via o homem que a tomou para ele na noite anterior transformar-se numa máquina de matar para protegê-la, Lara percebeu que a sua conversão estava completa. Ela não rezava mais para ser salva do demónio. Ela rezava para que o demónio vencesse.
O túnel era uma garganta estreita de concreto e medo. Lara sentia que o teto desabaria a qualquer momento sob o peso das explosões que faziam a estrutura vibrar. Dante não parava de atirar, sua silhueta recortada pelos flashes de luz das bocas de fogo. Era uma dança macabra, ele avançava um passo, disparava, e puxava Lara para o vácuo de segurança que ele mesmo criava.
— Cicatriz! Vai pela esquerda! — Dante rugiu, a voz sobrepondo-se ao som dos tiros. — Não deixa eles fecharem o duto!
Um oficial do BOPE surgiu de uma entrada lateral, a lanterna do fuzil cegando Lara por um segundo. Dante não hesitou. Ele não gritou para o homem se render; ele apenas disparou três vezes no centro da luz. O corpo do policial caiu pesadamente na água suja do duto, o rádio na farda emitindo um chiado estático que parecia um grito agonizante.
Lara sufocou um soluço. Aquele homem poderia ter sido um dos vizinhos que frequentavam a igreja, ou um pai de família cumprindo ordens. Para Dante, era apenas um obstáculo.
— Anda! — Dante a sacudiu, percebendo sua hesitação. — Se parar para ter pena agora, o próximo corpo na água é o seu!
Eles chegaram a uma escotilha de ferro enferrujada que levava a um nível ainda mais profundo do sistema de esgoto antigo. O cheiro era insuportável, uma mistura de decomposição e produtos químicos, mas era a única rota que os sensores térmicos dos helicópteros não conseguiriam rastrear.
Cicatriz e mais dois homens deram cobertura enquanto Dante forçava a escotilha. Ele desceu primeiro e estendeu os braços para Lara. Quando ela saltou, caiu direto contra o peito dele. O contraste era absurdo: o suor dele estava frio, mas o calor que emanava de seu corpo ainda era a única coisa que a mantinha sã.
— Estamos quase fora do perímetro — sussurrou Dante, a boca roçando a orelha dela enquanto caminhavam agachados pelo duto estreito. — Há uma casa segura em um sítio longe daqui. Ninguém sabe da existência dela. Nem o seu pai, nem os meus próprios generais. Só o Cicatriz.
— E depois? — Lara perguntou, a voz saindo em um fio. — O que acontece quando a fumaça baixar?
Dante parou por um segundo, os olhos brilhando na escuridão total do túnel.
— Depois, eu vou reconstruir o que eles derrubaram. E vou cobrar cada tijolo com os dentes de quem me traiu.