O som dos tiros dentro da igreja foi como o fim do mundo. O cheiro de pólvora invadiu o altar, misturando-se ao aroma de flores secas e ao suor do medo.
Sheila caiu para trás, a arma escapando de suas mãos enquanto o impacto do projétil de Lara atingia seu ombro, a lançando contra os bancos de madeira. Ao mesmo tempo, o disparo de Dante havia sido mais definitivo, um dos mercenários que tentou levantar o fuzil desabou no chão, sem vida, antes mesmo de entender o que ou quem o havia atingido.
Lara permanecia de pé, os braços estendidos, a Glock ainda fumegante em suas mãos. Seus ouvidos zumbiam, mas seu olhar estava fixo em Sheila, que gemia no chão. Lara não sentia náusea. Não sentia o arrependimento que seu pai sempre pregou como a consequência do pecado. Ela sentia uma clareza gelada.
— Lara... — A voz do pai veio do chão, um sussurro patético.
Jonas estava encolhido perto da maleta de dinheiro, as mãos cobrindo a cabeça. Dante caminhou até o altar, ignorando Sheila e os homens rendidos de Cicatriz. Ele parou ao lado de Lara e colocou a mão sobre as dela, baixando a arma lentamente.
— Já chega, Anjo. — Sussurrou Dante. O tom dele era uma mistura de orgulho e preocupação. — Você já provou o que precisava.
Lara baixou os braços, mas seus olhos não saíram de Jonas.
— Ele ainda está vivo, Dante. O homem que vendeu a própria filha para salvar o bolso.
Dante deu um passo à frente e chutou a maleta de dinheiro para longe de Jonas. O Pastor olhou para cima, as lágrimas escorrendo pelo rosto flácido.
— Dante, por favor! — Jonas implorou, agarrando à calça tática do dono do morro. — Nós podemos fazer um acordo! Eu dobro a porcentagem! Eu falo com os políticos, eu acalmo o povo! Eu digo que foi tudo um m*l-entendido, que a Lara foi salva por um milagre!
Dante olhou para baixo com um nojo profundo. Ele olhou para Lara, dando o veredito silencioso. No morro, a palavra final agora era dela.
— O povo não quer milagres, pai. — Disse Lara, sua voz amplificada pelo microfone que ainda estava ligado, ecoando para a multidão que cercava a igreja lá fora. — O povo quer a verdade. E a verdade é que você é o único demônio que já pisou neste altar.
Lara virou-se para Dante.
— Não o mate aqui. Ele não merece o martírio de morrer dentro da casa de Deus.
Dante sorriu, entendendo o plano.
— Cicatriz! Leva o pastor para a varanda principal. Abre as portas. Vamos deixar que as ovelhas vejam o pastor de perto.
Jonas começou a gritar, um som agudo e desesperado, enquanto era arrastado pelos homens de Dante. Sheila, ferida e sangrando, foi levada para os fundos para ser tratada conforme as leis do morro.
Lara e Dante caminharam lado a lado em direção às portas duplas da igreja. Quando as portas se abriram, a luz das tochas e dos flashes de celulares da multidão os atingiu. O grito que subiu da favela foi visceral. Milhares de pessoas viram a falecida Lara de pé, viva, ao lado do homem que eles temiam, enquanto o pastor era exibido como um troféu de caça.
Dante deu um passo à frente e levantou o braço, pedindo silêncio. A favela obedeceu instantaneamente.
— O império da mentira acabou! — A voz de Dante rugiu, sem precisar de microfone. — O pastor Jonas tentou vender o nosso chão e o sangue da própria filha. Mas a Fênix não queima sozinha.
Ele olhou para Lara e, diante de todos, pegou a mão dela e a beijou. Foi o sinal definitivo de posse e parceria.
— A partir de hoje, a Redenção tem uma nova voz. E o morro tem uma rainha.
Lara olhou para a massa de gente. Ela viu os rostos de sofrimento, de raiva e, agora, de uma esperança distorcida. Ela sabia que aquele era o início de um novo tipo de prisão, mas desta vez, ela tinha a chave.
— O que vamos fazer com ele? — Perguntou Cicatriz, segurando Jonas pela gola.
Lara olhou para o pai, que agora chorava silenciosamente, desprovido de qualquer dignidade. Ela lembrou do tapa no rosto, da bala com o seu nome, e do beijo de Dante no bunker.
— Devolvam ao povo. — Disse Lara, friamente. — Deixem que eles decidam o valor do perdão que ele tanto pregou.
Dante sinalizou com a cabeça. Cicatriz soltou Jonas nos degraus da igreja. O pastor tentou correr, mas a multidão se fechou como um mar revolto. O som que se seguiu não foi de oração.
Lara virou as costas e entrou novamente na igreja, seguida por Dante. As portas se fecharam, abafando os gritos lá fora. No silêncio do templo agora vazio, Dante a puxou para um beijo carregado de adrenalina e triunfo.
— Tá pronta para governar as cinzas, Lara? — Perguntou ele, os olhos brilhando com a promessa de um futuro sangrento e apaixonado.
— Eu nasci para isso, Dante. — Ela respondeu. — Só precisei que você me mostrasse o caminho.
O Anjo tinha caído. Mas a rainha do morro havia sido coroada.
O barulho do lado de fora das portas da igreja não era mais o de uma multidão, era o som de uma colmeia em fúria. Gritos, baques e o clamor por uma justiça que a lei nunca entregaria.
Lara permaneceu de costas para a entrada, os olhos fixos na cruz de madeira que pendia sobre o altar. Por um momento, ela se perguntou se o teto cairia sobre sua cabeça por ter entregado o próprio pai aos lobos. Mas o teto permaneceu firme. O chão não se abriu. O universo parecia indiferente ao pecado moral que ela acabara de cometer.
Dante se aproximou, o som de suas botas no mármore era a única coisa que a trazia de volta à realidade. Ele parou atrás dela, mas não a tocou de imediato. Ele respeitava o espaço do luto da mulher que um dia ela já foi.
— Acabou, Lara. — Disse ele, a voz baixa, quase um sussurro que vibrava no ar pesado. — O passado dele morreu naqueles degraus.
Lara se virou lentamente. Seus olhos estavam secos, mas havia uma exaustão profunda neles. Ela olhou para a arma em sua mão e a estendeu para Dante.
— Eu pensei que sentiria um peso. Mas eu só sinto... nada. É como se eu estivesse oca.
Dante pegou a arma, mas, em vez de guardá-la, ele segurou a mão de Lara e a trouxe para o próprio peito.
— O vazio é onde o poder começa, Anjo. No meu mundo, se você sentir demais você vai pra vala. Você não tá vazia, você tá limpa. A sujeira que ele colocou em você saiu com o sangue dele.
Ele a puxou para um abraço apertado. Lara afundou o rosto no pescoço dele, aspirando o cheiro de pólvora e o sândalo que agora era seu porto seguro. Dante a segurava como se ela fosse o cristal mais precioso e a arma mais letal de seu arsenal.
— O que acontece agora? — Perguntou ela, a voz abafada contra a pele dele.
— Agora, a gente limpa a casa. — Respondeu Dante, os olhos fixos na porta por onde Cicatriz entraria a qualquer momento. — O governo vai tentar intervir depois do escândalo do áudio. O morro vai estar sob cerco. Mas eles não têm um líder aqui dentro. Eles têm um fantasma que voltou à vida e um homem que se recusa a cair.
Cicatriz entrou, ofegante. Ele limpou o sangue de um corte na bochecha, mas não havia sinal de Jonas. O silêncio lá fora tinha se transformado em um burburinho sombrio e satisfeito.
— Está feito, Chefe. — Disse Cicatriz, com um aceno curto para Lara. Havia um novo nível de respeito nos olhos do braço direito de Dante. — O povo se dispersou. O corpo... bom, não sobrou muito para a perícia identificar. O recado foi dado. Quem trair a Fênix, colhe a tempestade.
Lara fechou os olhos por um segundo, absorvendo a crueza do relato. O homem que a ensinara a falar, agora era apenas um resto de carne e memória nos degraus da própria igreja.
— Leva a Lara para o sítio. — Ordenou Dante. — Eu preciso organizar os setores. A facção rival vai tentar aproveitar a confusão para subir o morro. Eu vou dar a eles uma recepção que eles nunca vão esquecer.
— Eu não vou para o sítio. — Disse Lara, soltando-se do abraço de Dante. Sua voz tinha uma autoridade que fez Cicatriz hesitar. — Eu fico. Se este morro agora me pertence tanto quanto a você, eu não vou me esconder enquanto os seus homens morrem por nós.
Dante semicerrou os olhos, uma chama de admiração e perigo brilhando neles.
— É uma guerra, Lara. Não é um treino no sítio.
— Eu sei. Mas eu sou a única que pode manter a paz com os moradores enquanto você cuida do asfalto. Eles confiam em mim. Ou pelo menos, eles me temem agora. E no nosso mundo, Dante... o medo é a forma mais estável de confiança.
Dante sorriu, um sorriso largo e genuíno, algo que raramente acontecia. Ele caminhou até ela, segurou sua nuca com força e colou suas testas.
— Então que assim seja. Cicatriz, avisa aos meninos. A Santinha morreu. A patroa chegou. E quem não baixar a cabeça para ela, vai encontrar o mesmo destino do pastor.
Lara olhou para o altar uma última vez antes de sair. Ela viu a maleta de dinheiro esquecida no chão, as notas espalhadas como folhas secas. Ela não as pegou. Ela não precisava mais do dinheiro do pai. Ela agora tinha o trono.
Ao saírem da igreja, o céu sobre o morro da Fênix estava pintado de vermelho e laranja, o sol se pondo sobre uma nova era. Lara caminhou ao lado de Dante, cercada por fuzis e olhares de reverência. Ela não era mais o anjo de ninguém. Ela era o fogo que consumiria qualquer um que ousasse tocar em seu novo paraíso de sombras.