O morro da Fênix amanheceu sob uma tensão elétrica. Não era o medo da polícia, nem o barulho dos fuzis, era o som de milhares de celulares recebendo a mesma mensagem ao mesmo tempo. Dante não enviou o áudio apenas para a imprensa, ele o injetou diretamente nas veias da comunidade.
Lara estava sentada no sofá do sítio, observando um monitor que transmitia imagens ao vivo de uma câmera de segurança escondida na praça principal da favela. Ela via as pessoas paradas, em grupos de três ou quatro, ouvindo o áudio. Ela via a expressão de choque nos rostos das mulheres que, horas antes, choravam em sua vigília.
— O veneno está a começando a fazer efeito — disse Dante, entrando na sala com um tablet em mãos. — O áudio já tem mais de meio milhão de visualizações. O nome do seu pai é o assunto mais falado do país e não é pelas razões que ele queria.
— Ele já se manifestou? — perguntou Lara, sem desviar os olhos da tela.
— Silêncio absoluto. Ele tá lá trancado na casa pastoral. Os seguranças dele estão tentando controlar a multidão com explicações. Elas querem ver se o corpo que elas choraram realmente não vale nada para o homem que as lidera.
Dante se sentou ao lado dela, passando o braço pelos seus ombros. O calor dele era a sua única âncora.
— Mas tem um problema — continuou ele, mudando a imagem para uma interceptação de rádio. — Sheila abriu a boca para o lado errado. Ela confirmou ao Jonas que te viu na praça. Ele sabe que você tá viva, e sabe que tá comigo. Ele está desesperado, e um homem como ele, com as costas na parede, vai tentar a cartada final.
— Qual cartada?
— Ele vai tentar fugir com o dinheiro da fundação. E ele vai usar os mercenários da facção rival para limpar o caminho. Ele não quer apenas salvar a pele, ele quer destruir o morro antes de sair.
Lara se levantou.
— Não podemos deixar. Se ele fugir agora, ele vira um mártir político no asfalto. Ele precisa ser desmascarado onde ele construiu o trono. Dentro da Redenção.
Dante olhou para ela, admirando a sede de sangue que agora brilhava nos olhos castanhos que um dia só conheceram hinos de louvor.
— O plano original era esperar que a pressão o tirasse de lá. Mas se você quer o confronto agora, eu vou te dar — disse Dante, levantando e verificando a pistola na cintura. — Cicatriz já preparou o comboio. Vamos entrar pelo setor sul, o mesmo túnel por onde saímos. Mas desta vez, não vamos fugir. Vamos para a retomada.
A viagem de volta ao morro foi diferente de todas as outras. Lara não estava escondida no banco de trás, ela estava no banco do passageiro, vestida com calças táticas pretas e um colete leve. O cabelo platinado da peruca havia sido trocado por um boné baixo, escondendo o rosto sob a aba.
Ao entrarem nos limites da comunidade, o cenário era de motim. Pneus queimavam nas entradas. Moradores gritavam Judas! em direção à igreja. A aura de homem santo de Jonas tinha evaporado, substituída pelo ódio de quem se sentiu traído no que tinha de mais sagrado, a fé.
Dante parou o carro nos fundos da igreja, onde o som do caos era abafado pelos muros altos.
— Você tem certeza? — perguntou Dante, entregando o microfone sem fio que estava conectado ao sistema de som da própria igreja. Ele tinha técnicos que haviam hackeado a frequência interna da Redenção.
— Sem dúvidas. — respondeu Lara.
Eles desembarcaram. Cicatriz e um grupo de elite de Dante formaram um perímetro. O ar cheirava a fumaça e a fim de festa. Dante segurou a mão de Lara por um segundo antes de ela entrar pela porta dos fundos do batistério.
— Faz o que tem que fazer, Anjo. Eu estarei nas sombras. Se alguém levantar um dedo se quer na sua direção, eu transformo este lugar num cemitério antes que eles consigam dizer amém.
Lara entrou na igreja. O salão principal estava vazio de fiéis, mas cheio de seguranças nervosos. No altar, o pastor Jonas estava de costas, guardando maços de dólares em uma maleta de couro. Ele suava frio, resmungando versículos desconexos entre dentes.
Lara caminhou pelo corredor central, o som de suas botas ecoando no mármore.
— Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? — a voz de Lara ecoou pelo sistema de som da igreja, amplificada e gélida.
Jonas congelou. Ele virou lentamente, o rosto pálido como um cadáver. Quando seus olhos encontraram a figura de Lara sob a luz dos refletores do altar, ele caiu de joelhos, não em oração, mas em puro terror.
— Fantasma... — ele sussurrou, a voz falhando.
— Não, pai. — Lara tirou o boné, revelando os olhos que ele tentou apagar. — Eu sou a única verdade que sobrou na sua vida de mentiras. E o culto está prestes a começar.
Lara subiu os degraus do altar, e pela primeira vez, ela não estava lá para cantar. Ela estava lá para julgar.
Ele tentou se levantar, mas suas pernas pareciam feitas de gelatina. O homem que outrora dominava multidões com um erguer de sobrancelha agora rastejava para trás, as mãos gordas e trêmulas tateando o chão em busca da maleta de dinheiro, como se as notas de cem dólares pudessem comprar sua passagem para fora do inferno que ele mesmo cavara.
— Lara... minha filha... é um milagre! — Ele tentou forçar uma nota de júbilo na voz, mas o som saiu como o guincho de um rato acuado. — Eu sabia que Deus te protegeria das garras daquele animal! Eu estava apenas... preparando os recursos para o seu resgate!
Lara parou a poucos metros dele. Ela não usava a Bíblia, usava o peso da verdade. Ela olhou para a maleta aberta, onde os dólares se misturavam a passaportes falsos.
— O resgate, pai? — Ela deu um passo à frente, a luz do refletor principal incidindo sobre seu rosto, revelando a cicatriz emocional que agora era mais forte que qualquer hematoma. — Você estava preparando a sua fuga. Você me vendeu antes mesmo de eu nascer, usando a minha voz para limpar o dinheiro que o Dante ganhava com sangue. Mas quando ele se tornou um risco para o seu poder, você decidiu que eu era um sacrifício aceitável.
— Não é o que você pensa! — Jonas gritou, a máscara de santo finalmente caindo e revelando o monstro. — Você não entende nada! O morro precisa de ordem! Eu sou a ordem! Se o povo descobrir a verdade, haverá um banho de sangue! Eu fiz tudo por esta comunidade!
— Você fez tudo por você. — Lara levou o microfone aos lábios. — E o povo já descobriu.
Ela acionou um comando no tablet que Dante lhe entregara. Do lado de fora da igreja, os imensos telões de LED, instalados para as transmissões dos cultos, começaram a exibir não apenas o áudio, mas o vídeo da câmera interna do escritório, capturado meses antes pelo sistema de espionagem de Dante. As imagens mostravam Jonas contando dinheiro com os traficantes da facção rival e rindo enquanto planejava o ataque ao próprio morro.
O grito que subiu das ruas foi ensurdecedor. Milhares de vozes clamando por justiça, ou por vingança, abafaram o som do ar-condicionado central.
— Escuta isso, pai? — Lara inclinou a cabeça. — Não é o som dos anjos. É o som das ovelhas que cansaram de ser pastoreadas por um lobo.
De repente, a porta lateral do altar explodiu. Sheila entrou, armada com uma pistola, o rosto desfigurado pelo ódio e pela humilhação do encontro anterior. Atrás dela, os mercenários da facção rival que Jonas contratara.
— Acabou o teatrinho de família! — Sheila gritou, apontando a arma para Lara. — Se o morro vai cair, vocês vão primeiro!
Jonas viu uma oportunidade. Ele tentou se lançar em direção a Sheila, mas um laser vermelho cruzou o salão escuro da igreja, pousando exatamente no centro da testa do pastor.
— Ninguém se move — a voz de Dante ecoou do fundo da galeria superior, fria e letal.
Ele surgiu das sombras, o fuzil em punho, cercado por Cicatriz e seus homens de elite. O dono do morro desceu as escadas lentamente, cada passo soando como um veredito. Ele não olhou para Jonas, seus olhos estavam fixos em Lara, garantindo que ela estivesse segura.
— Sheila, Sheila... — Dante disse, o tom de voz quase paternal de uma forma aterrorizante. — Você sempre escolhendo o lado perdedor. O pastor não tem mais nada para te oferecer a não ser um lugar na vala comum.
— Eu não ligo! — Sheila gritou, o dedo tensionando no gatilho. — Se eu não posso ter o morro, e não posso ter você, ninguém vai ter nada!
O tempo pareceu desacelerar. Lara viu o movimento de Sheila. Viu o pânico nos olhos do pai. E, em uma fração de segundo, ela tomou uma decisão que mudaria sua alma para sempre. Ela não se encolheu. Ela não rezou. Ela sacou a Glock que Dante lhe ensinara a usar e mirou na mulher que ameaçava o seu novo mundo.
— O culto acabou, Sheila — disse Lara.
Dois tiros ecoaram simultaneamente no silêncio da nave da igreja.