Capítulo 9

971 Palavras
Lara fechou os olhos com força, o corpo tremendo. Mesmo esperando o pior, ouvir as palavras dele, a confirmação de que sua morte era um plano de negócios, foi como ser baleada novamente. — Gravado — ela sussurrou para o ponto, sua voz carregada de um ódio gélido. — Sai daí agora, Anjo — ordenou Cicatriz. — Um dos seguranças está indo na sua direção. Lara girou nos calcanhares e começou a se afastar, mas ao dobrar a quina da tenda, deu de cara com Sheila, a ex-amante de Dante, que agora trabalhava infiltrada para o pastor ou talvez apenas observasse o caos. Sheila a encarou por um segundo. A maquiagem, a peruca loira e os óculos não foram suficientes para enganar os olhos de uma mulher que vivia de notar detalhes. — Lara? — Sheila semicerrou os olhos, a mão indo para a cintura, onde guardava uma faca. Lara não pensou. Ela não era mais a menina que pedia perdão. Ela avançou, acertando um soco seco na garganta de Sheila, como Dante a ensinou naquela tarde. Enquanto a mulher sufocava e tentava recuperar o ar, Lara sussurrou: — O Anjo subiu ao céu, Sheila. O que sobrou aqui foi a Fênix. Lara correu pela escuridão, atravessando o pátio da igreja e sumindo no labirinto de becos antes que o alarme fosse dado. Dez minutos depois, ela estava de volta ao carro, o gravador seguro em sua mão como uma granada pronta para explodir. Lara permaneceu no carro por alguns minutos após a partida, o peito subindo e descendo em uma cadência frenética. Suas mãos, ainda fechadas em punhos, doíam. O impacto do soco em Sheila deixara seus nós dos dedos latejando, mas era uma dor gratificante. Era a prova física de que ela não era mais uma espectadora da própria tragédia. — Ela me viu, Cicatriz — disse Lara pelo rádio, sua voz estranhamente estável. — Sheila me reconheceu. — Não importa agora, Anjo. Já estamos longe do perímetro. O chefe está esperando. A viagem de volta para o sítio foi um borrão de luzes da cidade e sombras da estrada. Ao atravessar os portões da propriedade, Lara viu a silhueta de Dante recortada contra a luz da sala. Ele não estava sentado; caminhava de um lado para o outro como um predador enjaulado. Assim que ela saltou do carro, ele desceu os degraus da varanda em dois pulos. Ele não disse nada de imediato. Apenas segurou o rosto dela entre as mãos, inspecionando cada centímetro em busca de ferimentos. Seus olhos pararam nos nós dos dedos dela, levemente esfolados. — Você bateu em alguém — ele afirmou, um meio sorriso surgindo, carregado de um orgulho sombrio. — Conseguiu? — ele perguntou. — Sheila. Ela estava lá. Ela tentou me barrar. — Lara entregou o gravador digital. — Ele está todo aí, Dante. A voz dele, o acordo com a facção rival, a confissão de que a minha vida não vale nada perto do poder dele. Lara entregou o dispositivo. Dante pegou o dispositivo como se fosse um fragmento de urânio. Ele entrou na casa e conectou o aparelho a um notebook sobre a mesa de jantar. O som era abafado pelo ruído da multidão ao fundo, mas as palavras do Pastor Jonas cortaram o ar da sala com a precisão de uma guilhotina. "Se ela aparecer, vocês terminam o que começaram... Deus sabe como eu trato obstáculos." O silêncio que se seguiu à gravação foi pesado. Dante fechou o notebook lentamente e olhou para Lara. Ela estava parada perto da janela, observando a mata escura. — Você ouviu o que precisava. — disse Dante, se aproximando dela. — Agora não há mais espaço para a dúvida. O homem que te deu a vida é o mesmo que encomendou a sua morte. — Eu não sinto mais nada, Dante — ela sussurrou, virando para ele. — Eu achei que ia chorar. Achei que ia querer gritar. Mas só sinto... frio. Dante a puxou para o seu abraço, envolvendo-a com seus braços tatuados, criando um casulo de calor e violência. — O frio é bom, Lara. O frio mantém a mira estável. O fogo é para os amadores. Nós vamos usar este áudio pra fazer ele sofrer lentamente. Não vamos entregar à polícia, eles estão no bolso dele. Vamos entregar ao povo. Vamos soltar isso nos grupos de mensagem da comunidade, nas redes sociais, nos telões da praça durante o próximo culto. Lara inclinou a cabeça para trás, encontrando o olhar predatório de Dante. — Ele vai tentar fugir. — Ele não vai ter para onde ir. — Dante desceu a mão pela coluna dela, pressionando-a contra o seu corpo. — O morro vai fechar as entradas. A polícia vai ter que escolher entre protegê-lo e salvar a própria pele quando a opinião pública se virar contra o santo. Lara sentiu um arrepio de antecipação. A ideia de confrontar o pai no lugar onde ele se sentia um deus era a única coisa que aquecia o vazio no seu peito. — Quero ser eu a dar o último sermão — disse ela, os seus olhos brilhando com uma determinação que Dante nunca viu em nenhuma outra mulher. Dante a beijou, um beijo que selava o pacto de vingança. — O púlpito será seu, minha rainha. E o sangue dele será o nosso vinho de celebração. Enquanto se perdiam um no outro naquela noite, o áudio de Jonas começava a ser editado pelos técnicos de Dante. O cronômetro para a queda do Pastor tinha começado a correr. E no morro da Fênix, Sheila, ainda recuperando o fôlego e sentindo o pescoço latejar, pegava o celular para fazer uma ligação. Ela sabia que Lara estava viva, e o ciúme era uma chama que queimava tão forte quanto a sede da sua vingança.
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