Capítulo 8

1580 Palavras
Enquanto isso, no morro da Fênix, o pastor Jonas limpava o rosto após mais um discurso emocionado. No fundo da sua gaveta, o rádio comunicador chiava. Uma voz desconhecida, vinda de uma facção rival de Dante, falava baixo: — O serviço está feito, Pastor. O morro dele está um caos. Mas o corpo da menina não apareceu nos escombros. Jonas fechou os olhos, uma veia saltando em sua testa. — Se ela não está morta, ela é um problema. Encontrem minha filha antes que ele a use contra mim. A guerra não tinha acabado. Estava apenas mudando de cenário. E agora, Lara não era mais o prémio em disputa, ela estava se preparando para ser o carrasco. *** O quarto do sítio estava mergulhado em uma penumbra alaranjada, vinda do pôr do sol que se filtrava pelas frestas das persianas de madeira. O som da respiração de Lara era o único ruído, além do zumbido distante de um inseto contra o vidro. Ela estava deitada sobre o peito de Dante, ainda nua, sentindo o sobe e desce ritmado de sua caixa torácica. A pele dele era um mapa de relevos com cicatrizes de balas, cortes de faca e a tinta n***a da fênix. Lara passou a ponta dos dedos sobre a tatuagem no pescoço dele. — Por que uma fênix? — ela perguntou, a voz suave, desprovida da rigidez que exibira durante o treino de tiro. Dante segurou a mão dela, a levando aos lábios e beijando as juntas dos dedos que agora carregavam o cheiro de pólvora e óleo. — No meu mundo, você morre muitas vezes antes do seu corpo parar de respirar — ele respondeu, os olhos fixos no teto. — Cada vez que tentaram me destruir, eu voltei mais frio. Mais forte. A fênix não é sobre beleza, Lara. É sobre a fúria de quem se recusa a ficar nas cinzas. Ele se virou, ficando por cima dela, os braços estendidos para suportar o peso. — E você? O que vai ser quando as cinzas da sua vida antiga acabar? Lara olhou para o monitor da TV, que ainda mostrava imagens de arquivo dela cantando no coral, a Santinha do Morro que o morro da Fênix agora lamentava. — Eu vou ser o que ele mais teme — ela disse, e não havia hesitação em sua voz. — Eu vou ser a prova de que ele não pode controlar o destino de ninguém. Nem o meu, nem o daquelas pessoas que ele engana todos os domingos. Dante sorriu, um brilho de orgulho c***l nos olhos. — Então vamos dar o primeiro passo. Cicatriz ligou. O seu pai está organizando uma vigília pela paz amanhã à noite, no pé do morro. Vai ser um evento com bastante mídia. Políticos, câmaras, a elite que ele quer impressionar. Ele vai usar a sua morte para selar uma aliança com o governo para uma nova intervenção no morro. Lara sentou na cama, o lençol caindo para revelar a pele marcada pelos beijos de Dante. — Ele quer vender o meu sangue por votos. — Sim. — Dante levantou e caminhou até um guarda-roupa embutido, tirando de lá uma peruca de fios curtos e loiro-platinados e um conjunto de roupas que Lara nunca usaria: couro sintético, botas pesadas e óculos escuros de grife. — Você vai nessa vigília, Lara. Mas não como a filha dele. E sim como uma sombra. Ele jogou um dispositivo eletrônico sobre a cama. — Isto é um gravador de longo alcance. Jonas vai se encontrar com o emissário da facção rival nos fundos da tenda principal, logo após o discurso de a******a. Ele precisa garantir que o serviço de te encontrar e eliminar seja concluído antes que qualquer corpo real apareça. Lara pegou o dispositivo. O peso da missão parecia assentar sobre seus ombros, mas não a esmagava mais. — E se eu for descoberta? Dante se aproximou e segurou o queixo dela com firmeza, forçando a olhar para ele. — Se você for descoberta, os meus homens estarão em cada canto daquela praça, disfarçados. O Cicatriz vai estar no telhado com uma mira telescópica apontada para a testa do seu pai. Mas você não vai ser descoberta. Vai entrar lá, pegar a confissão dele e sair como o fantasma que é agora. Lara sentiu uma descarga de adrenalina que quase a fez tremer. A ideia de estar a poucos metros do homem que a bateu, o homem que ela amou e agora desprezava, era aterrorizante e excitante ao mesmo tempo. — Tá pronta para ver o d***o sem a máscara, Lara? — Dante perguntou, o polegar pressionando o lábio inferior dela. — Agora eu durmo com o d***o, Dante — ela respondeu, puxando-o para um beijo que selou a conspiração. — Ver o meu pai sem máscara vai ser apenas um reencontro de família. Dante soltou uma risada sombria e a puxou para fora da cama. — Então se veste. Temos de praticar a seu disfarce. No meu mundo, o primeiro erro é geralmente o último. E eu não pretendo perder a minha rainha antes mesmo da coroação. Naquela noite, sob a lua da lua, Lara deixou de ser a aprendiz. Ela começou a planejar o movimento que daria início à queda do império moral do seu pai. Enquanto isso, no morro, a fumaça ainda subia, mas as chamas reais estavam prestes a começar, e desta vez, seriam alimentadas por um anjo que aprendera a amar o fogo. A praça da Harmonia, aos pés do morro da Fênix, estava transformada. Onde antes imperava o som dos motores das motos e o riso das crianças, agora havia um mar de velas brancas, flores de plástico e um silêncio coreografado. O palco montado para a vigília pela paz era imponente, adornado com uma foto gigante de Lara — a versão dela que usava vestidos florais e um sorriso tímido. Lara observava tudo de dentro de um carro comum, estacionado a duas quadras dali. A peruca loira curta e as lentes de contato cinzas faziam com que ela parecesse outra pessoa; uma estranha para si mesma. — Dez minutos para o discurso — a voz de Cicatriz veio pelo ponto eletrônico escondido sob o seu cabelo. — Estamos em posição. Lembra: entra, grava, sai. Lara apertou o gravador no bolso da jaqueta de couro. — Eu sei quem eu sou agora, Cicatriz. Ela desceu do carro e caminhou em direção à multidão. O cheiro de parafina queimada era enjoativo. Ao passar pelos fiéis, ouviu os soluços e as orações. Era bizarro ver pessoas que ela conhecia desde a infância chorando por um cadáver que não existia. Ela sentiu uma vontade súbita de gritar, de dizer que a tragédia era uma farsa, mas a mão de Dante, que ela imaginava em seu ombro, a mantinha focada. No palco, seu pai surgiu. Ele usava um terno preto, o rosto pálido e os olhos vermelhos. Ele parecia um homem destruído pelo luto. — Meus irmãos... — a voz dele falhou propositalmente no microfone, gerando uma onda de améns e choros na plateia. — Eles tiraram de mim o meu tesouro. Tiraram desta comunidade a nossa voz mais doce. Mas eles não tiraram a nossa esperança! O sangue da minha Lara clama por justiça, e eu não descansarei até que cada antro de pecado neste morro seja derrubado! Lara sentiu um gosto de bile na boca. Ele estava usando o sangue dela para pavimentar o caminho para a invasão que Dante tanto temia. Enquanto o pai continuava a oratória inflamada, ela se afastou da luz principal, movendo-se pelas sombras laterais da tenda de apoio aos fundos do palco. A área estava protegida por seguranças particulares do pastor, homens que não usavam fardas, mas tinham o mesmo olhar de mercenários que os soldados do tráfico. Lara usou a distração do momento em que o coro começou a cantar para se esgueirar por trás de uma pilha de caixas de som. Jonas desceu do palco, sendo amparado por dois assessores. Ele entrou na tenda, sinalizando que queria um momento a sós com Deus. Lara posicionou-se do lado de fora da lona, encostada na estrutura metálica, e ativou o gravador de longo alcance. — Ele já chegou? — a voz de Jonas mudou instantaneamente dentro da tenda. O tom sofrido deu lugar a uma ríspida impaciência. — Está nos fundos, Pastor — respondeu um dos assessores. Passos pesados foram ouvidos. Uma nova voz, rouca e carregada de sotaque das ruas, surgiu: — O serviço foi m*l feito, Jonas. O Fênix escapou e não achamos o corpo da sua cria. Meus homens estão nervosos. Se o Dante volta, ele vai querer cabeças. — Ele não vai voltar! — Jonas rebateu, a voz subindo de tom. — O governo vai mandar o exército amanhã graças ao circo que eu montei aqui. O que me importa é o acordo com a sua facção continua de pé. Vocês ficam com os pontos de venda do setor norte, mas as propriedades da encosta sul vêm para o nome da minha fundação. Eu quero o controle territorial sem o cheiro de pó nas minhas mãos. — E a guria? Se ela aparecer viva, o seu teatro cai por terra. — Se ela aparecer, vocês terminam o que começaram. Lara foi uma boa filha enquanto serviu aos meus propósitos. Se ela se tornou uma ameaça, ela deixa de ser minha filha para ser um obstáculo. E Deus sabe como eu trato obstáculos.
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