Pré-visualização gratuita CAPÍTULO 1 Stella
A chuva golpeia meus sapatos conforme caminho na calçada de uma das avenidas mais movimentadas da cidade, rezando para que dessa vez eu não chegue atrasada. O som do meu estômago roncando faz com que eu solte uma das mãos da sombrinha e agarre meu próprio corpo.
Lidar com a chuva pode até ser fácil, eu poderia tentar secar o cabelo no secador de mãos do banheiro novamente, mas hoje trabalhar será difícil, não conseguirei passar na padaria e contar minhas últimas moedas. Nem chegamos à metade do mês e meu salário já foi quase inteiro embora.
Paro em frente ao sinal e espero abrir para atravessar em direção ao prédio da Fiori Security, uma das filiais da maior empresa de segurança italiana e por um milagre depois de ter sido demitida do meu último emprego de babá consegui uma vaga se secretária.
Deus abençoe minha mãe no dia em que me obrigou a fazer aquele curso.
Meu pé desliza dentro do salto molhado quando entro no saguão de mármore branco e dourado, chamo o elevador e subo para o vigésimo andar da presidência. Não consigo perder tempo admirando a vista das janelas panorâmicas, sigo direto para as portas duplas de vidro onde minha mesa vazia está a minha espera.
— Bom dia, Stella. O clima está h******l hoje.
Minha chefe abre a porta da sua sala separada e se aproxima da minha mesa carregando uma pilha de papéis.
— Senhora Bianchi, me perdoe, o trânsito estava h******l, eu tente...
— Não precisa se explicar — ela levanta um dedo — Recomponha-se e comece o trabalho, sei que conseguirá compensar.
— Sim, senhora.
Espero até que o barulho dos seus sapatos se encerre ao fechar a porta e desabo na minha cadeira. Fiorella Bianchi é a representante e CEO da filial brasileira, braço direito do seu irmão, uma mulher bem-sucedida e um pouco ranzinza, mas que me estendeu a mão.
Sempre com os cabelos castanhos perfeitamente ondulados e perfeitos caindo pelas costas, em vestidos italianos caros e finos e uma postura impecável. Seus olhos azuis são muito afiados e detectam erros a metros de distância.
Ela é bonita que chega a me faltar o ar, e fico me perguntando como devem ser seus outros dois irmãos. Ao todo a Fiori possuí duas filiais, no Brasil, e Bélgica, além da matriz em Roma, cada uma muito bem regida por um dos irmãos Bianchi.
Já procurei foto dos três na internet, mas elas não fazem menção a beleza real, pelo menos não da minha chefe.
Se bem que isso não me interessa muito.
Desde que eu mantenha meu bom rendimento e continue deixando sua vida funcionando de forma organizada, consigo ter um bom dia de trabalho e receber um salário descente no final do mês.
Empurro a cadeira e sigo para a copa no final do corredor das outras salas, coloca a cafeteira para funcionar e encosto no balcão conferindo as contas que ainda não foram pagas. Ainda estou quitando os custos do tratamento da minha mãe.
Um câncer a levou de mim, minha única família restante e além de um coração dilacerado, fiquei com as suas dívidas hospitalares que há três meses estão acabando com a minha saúde financeira e me obrigaram a mudar para um cômodo em um dos piores bairros de São Paulo.
— Bem, o banco vai ter que esperar mais um mês, posso não ter armários, mas ainda preciso colocar comida nas gavetas que me restam.
Sirvo o café na xícara e antes de sair, Amanda a secretária que trabalha para um dos nossos advogados me encontra.
— Bom dia, Stella. Dia péssimo, quase caí em uma poça do lado de fora.
Ela pega uma das xícaras e se serve.
— Não tive muito mais sorte que você, o ônibus quebrou e precisei fazer o resto do percurso a pé.
— Meu Deus amiga, será que em algum momento nós vamos ter sorte?
Ela me acompanha pelo corredor, mexendo nas pontas loiras do cabelo.
— Preciso acreditar que sim, pelo menos nas histórias que eu leio.
— Por falar em histórias, ficou sabendo que o chefão estará aqui amanhã?
Aperto os olhos um pouco confusa.
— O chefão?
— Matteo Bianchi, o irmão da sua chefe, ele chega amanhã. Está vindo supervisionar a empresa de perto.
Balanço a cabeça pouco interessada.
— Bom, isso não mudará nada para nós, meras secretárias.
— Não, mas pelo menos poderemos admirar o bonitão.
— Fale por você, tenho cinco pautas para digitar meus olhos ficarão apenas no computador.
Me despeço de uma das minhas poucas amigas, puxo a cadeira, respiro fundo e estico os dedos, pronta para enfrentar mais um dia.
Pronta para desejar que as coisas mudem, preciso acreditar.