Sentindo o corpo de Alex remexer-se na cama e em seguida afastar-se do meu, saindo da cama, com movimentos cuidadosos para não acordar-me, desperto. Seus esforços foram em vão, pois meu sono é leve.
— Alex? — chamo, com minha voz arrastada pelo sono.
— Oi. — senta-se na cama novamente e leva a mão ao meu cabelo, acariciando levemente. — Não quis te acordar, loira.
— Que horas são? — observa seu celular.
— Três da manhã.
— Para onde você vai?
— Para meu quarto. — diz, desviando o olhar do meu.
— Fica aqui. — peço.
— Não posso.
— Pode sim. — suspiro. — Tem algo a ver com a ligação de mais cedo, não é?
— Sim.
— O que aconteceu?
— Está um pouco tarde, melhor você dormir. — acaricia meu rosto. — Pela manhã conversamos.
— Me diz, por favor. — me observa por alguns instantes, antes de falar.
— Valentina, durma. — n**o.
Sento-me na cama e acomodo minhas costas nos travesseiros atrás de mim. Encaro o moreno à minha frente, esperando uma resposta.
— Outro corpo foi encontrado. Próximo da sua casa. — fico sem palavras. Sinto as lágrimas descendo pelo meu rosto, uma sensação de angústia. — Por isso não quis dizer.
Me puxa para um abraço.
— As coisas ficarão bem. — murmura.
— Estou com medo. — confesso, em um sussurro.
— Eu sei. Mas não irei permitir que ninguém te faça m*l.
Mais uma garota. Mais uma vida ceifada.
— Valentina. — chama.
— Oi.
— Aconteceu mais uma coisa. — afasto-me dele, observando seu rosto, preocupada.
— O que houve? — questiono, nervosa.
Em questão de segundos, milhares de teorias passam pela minha cabeça. Desde um novo corpo, à um novo sinal, ou até mesmo que tal assassino possa ter prejudicado ou atacado algum de meus amigos.
— Ember está viva. — suspira.
— Como assim? Ela estava morta, não? — me sinto confusa.
Como essa mulher poderia estar viva?
— Sim. Vi seu corpo, fui ao seu velório. Vi sua sepultura. — diz.
— Isso é uma loucura. — afirmo, ainda tentando entender o que houve. — Se ela estiver viva, o que você irá fazer? — me sinto apreensiva pela sua resposta.
— Eu não sei. — passa a mão pelos seus cabelos, confuso.
— Você a ama? — não me responde.
Apenas levanta-se, pega suas roupas e vai embora. Enquanto isso, permaneço imóvel, sozinha e confusa.
Sinto um aperto no peito e uma estranha sensação de vazio ao lembrar-me que mesmo que eles não sejam namorados, ele ainda a ama, e com seu retorno, provavelmente irão ficar juntos.
É nítido o sentimento dele por Ember. Ela mexe com ele, muito. A conversa no dia do bar sobre Ember, que o deixou incomodado, a ligação, nossa conversa de poucos minutos atrás, são provas disso.
Mas há algo errado nisso tudo e que de certa forma, me deixa com dúvidas. Como ela sobreviveu? Alex afirmou ter visto seu corpo, fez o reconhecimento. Se Ember está viva, como alguém tão similar à ela foi encontrado nos destroços do acidente? E se na verdade, Ember nunca esteve naquele veículo, por qual razão esconder-se por anos?
Para meu próprio bem, deveria esquecer esse assunto. Tenho trabalho pela manhã, devo descansar e deixar tais problemas para sua família e para Alex. Deito-me outra vez naquela cama, agora tão espaçosa sem ele comigo. Hades, como se percebesse que estou incomodada, sobe na cama e deita-se ao meu lado, no vão do meu pescoço, fazendo barulhinhos fofos até dormir.
E mesmo tentando distrair-me com meu pequeno bebê, não consigo esquecer tudo que ouvi. Uma nova garota encontrada, Ember e seu retorno dos mortos. Meus pensamentos estão confusos, todos, infelizmente, vão até Alex.
Após minutos na cama, tentando dormir outra vez — uma tentativa falha, devo ressaltar —, afasto Hades de mim, com cuidado para não acordá-lo e ergo-me da cama. Tomo um banho rápido, quente, tentando com ajuda da água morna, tranquilizar-me. Outra tentativa falha.
Tento ler algo, mas é como se as palavras daquele livro — A Casa das Marés, de Jojo Moyes — não fizessem sentido algum para mim. Passei minutos em uma única página, com meus pensamentos embaralhados e confusos pelos acontecimentos da noite.
Ansiosa e sem paciência, levanto-me da poltrona e saio do quarto, sendo seguida por Hades. Desço as escadas com o pequeno indo em minha frente. Ao entrar na cozinha, ele se direciona até seu pote de ração, vazio. Coloco comida para ele e verifico sua água.
Observo ao redor e percebo que a porta da cozinha está aberta, com algumas das luzes do jardim acesas. Curiosa, caminho até a porta. Ali, nas extremidades do local, estão dois seguranças. Perto da piscina, nas cadeiras macias, está Alex. Olhando para o nada, perdido. Viro-me para ir para o quarto outra vez, porém ele percebe minha presença.
— Valentina? — me viro em sua direção, encontrando seus olhos castanhos fixados em mim.
— Oi. — sinto-me envergonhada, por ser vista o observando.
— Sem sono? — assinto.
— E você?
— Também. — com a cabeça, indica o lugar vazio ao seu lado. — Vem cá.
Movida pela minha curiosidade, vou até ele. A noite está muito bonita, o céu estrelado, um clima agradável. Sento-me ao seu lado, esperando que diga algo.
— Ember era minha namorada, nos conhecemos no ensino médio, último ano. — começa. — Ela era minha amiga de início, uma das poucas que eu tinha, pois nunca fui muito popular. Eu era louco por ela, afinal ela era linda, simpática e muito inteligente. Chamei para sair algumas vezes, até que um dia ela aceitou. Fomos ao cinema, vimos um filme h******l. — ele ri. — Mas ficamos naquela noite, pela primeira vez. E assim foram as noites seguintes. Até que eu a pedi em namoro, e ela aceitou.
— Alex, tem certeza que quer continuar? — questiono. Sei que esse assunto deve ser difícil.
— Sim, Valentina. — suspira. — Após cinco meses juntos, Ember me contou que estava grávida. Sim, éramos jovens, era cedo para um bebê, mas não nos importávamos. Ficamos felizes, mas os pais dela não. Eles queriam que a filha fosse modelo, e o bebê estragaria o sonho deles. — seus olhos castanhos brilham, pelas lágrimas. — Eles pediram para que Ember abortasse, falando que seria melhor e que ela não deveria ser mãe. Eu pedi que ela ficasse com o bebê, eu poderia cuidar, amá-lo, sem precisar da sua ajuda, porém ela recusou. — as lágrimas caem pelo seu rosto.
Ele se cala, e eu me aproximo, envolvendo seu corpo em um abraço. Sinto as batidas rápidas do seu coração, a respiração descompassada, algumas lágrimas que caem no meu ombro.
— Ela abortou nosso filho. Nosso bebê. — respira fundo, limpando suas lágrimas.
— Eu sinto muito, Alex. — acaricio seus fios castanhos, enquanto sua cabeça permanece apoiada no meu ombro.
— Após isso, nós terminamos. Ember envolveu-se com pessoas erradas. Começou a beber, usar drogas e ir para festas. — suspiro. — Lembro que ligava para mim durante a madrugada, pedindo ajuda. Seja dinheiro ou carona.
— E você sempre ajudou. — completo.
— Sim. Eu sempre fui, pois sentia que devia isso à ela, pois a amava. Até que uma noite eu saí com uns amigos e bebi demais. Ember me ligou, pedindo para ir buscá-la em uma festa. Eu disse que nunca mais queria vê-la, que sentia ódio dela, pedi pra não me ligar mais. — suas lágrimas retornam. O abraço apertado, sentindo um aperto no peito em vê-lo assim. — Horas depois me ligaram, avisando que ela havia se envolvido em um acidente de carro e que estava morta.
— Alex... — dessa vez, eu choro.
— Foi minha culpa.
— Não foi. Nada é sua culpa. Ela está viva, está bem. Não precisa culpar-se por isso.
— E agora, Ember está viva. — suspira. — Eu estou confuso, Tina.
— Vai ficar tudo bem, Alex.