Sentada envolta da pouca luz da sala, tentava absorver o que me havia sido dito.
Katerina estava morta.
Minha mente havia tentado imaginá-la morta, mas não conseguia,
mesmo tendo lhe desejado a morte muitas vezes, agora não
conseguia acreditar que realmente havia morrido.
A segunda coisa que pensei, foi como dar a notícia para Dona Rosa
e em seguida em como reagiria, a notícia poderia fragilizar a sua
saúde e mais tarde ela me culparia por não ter sido mais sensível.
Chegando a esta conclusão, decidi “adiar" a notícia.
Mas isso não queria dizer, que iria até o México reconhecer seu
corpo e lhe dar um sepultamento digno.
Deixo a sala de estar decidida a ir para meu quarto, colocando
como alternativa em minha mente, esquecer que um dia recebi
aquela ligação, se necessário, até interromper a linha telefônica,
para que Juan ou qualquer outro funcionário do IML ligasse.
Depois de um banho quente e demorado, as palavras de Bruce
retornam, me puxando de volta para o escuro, juntamente com a notícia da morte de Katerina.
Meu sono acaba por ser conturbado, gritava Bruce em meu sonho,
na tentativa de fazê-lo parar, voltar para mim, porém cada vez que
tentava ir até ele, estava distante, fazendo minha tristeza
aumentar.
Até que...
Katerina aparece.
Deslumbrante como sempre ou...até um pouco vulgar, com suas
roupas justas demais e em tons vermelho e preto.
Seus olhos estavam mais escuros do que lembrava, parecendo um
demônio, enquanto um sorriso malvado surgia em meus lábios
pintados de vermelho.
O vestido preto com vermelho, destacava com precisão suas
curvas e seus cabelos lisos, o jeito que sempre gostava de mantê-los, já que odiava as ondulações naturais. Parecia até uma deusa ,
impotente, em minha frente.
Seus olhos estreitam e quando dá um passo na minha direção,
acordo, completamente suada e com minha camisola grudada em
meu corpo.
Acabou que não consegui mais dormir, me sentia sobrecarregada com tantos sentimentos. Mas o que prevalecia, era o ódio por Bruce e o desejo de puni-lo.
E sim, acabaria que com o nascer do sol, essa ideia se fixasse ainda mais, estava mais do que disposta em fazê-lo sofrer.
- Vai sair logo cedo? – Mamãe pergunta, diante da janela da sala de estar, quando desço os degraus da escada rapidamente.
- Volto antes do almoço – Caminho em passos largos para fora da casa, aonde havia um táxi me esperando.
Encaro o relógio de pulso pela segunda vez, nos últimos minutos, imaginando quando os futuros papéis sairiam de casa.
Até que finalmente a porta da frente abre, Valerie sai levando no seu antebraço uma bolsa vermelha da Gucci, caminhando em direção de seu carro atrás do de Bruce.
Concluo que Bruce não a acompanhara, quando a mesma dá partida quase sumindo de vista.
- O que estamos esperando? – O motorista pergunta, algum tempo depois, claramente entediado.
- Minha deixa para entrar – Ele me olha pelo retrovisor, erguendo uma sobrancelha.
- Está pretendendo engravidar?
Reviro os olhos impaciente.
- Isso com certeza não está em meus planos.
Estreito os olhos quando Valerie sai da clínica em direção ao seu carro.
Saio do táxi em direção á clínica, ajeitando a roupa no corpo.
Uma atendente de cabelos curtos cacheados num tom loiro -claro, digitava algo no computador.
- Bom dia, posso ajudá-la?
Levo a mão ao peito com a respiração acelerada.
- Teria como usar o banheiro? Não estou me sentindo bem.
Ela arregala um pouco os olhos levantando rapidamente.
- Precisa de um médico?
Nego com a cabeça, enquanto me guia até o banheiro.
Respiro algumas vezes ao me ver sozinha, mentalizando novamente o que tinha que fazer.
Abro a porta do banheiro devagar, me deparando com o corredor vazio, no qual caminho olhando com atenção às placas nas portas.
Até que uma me chama atenção: Exames. Entrada somente de funcionários.
Sorte ou não, a sala estava vazia e sobre uma mesa, havia alguns papéis com o nome de Valerie Julian Evans e três pequenos recipientes com amostras de sangue.
Troco os exames com o primeiro que vejo, deixando tudo aparentemente intocado antes de deixar a sala.
- Está se sentindo melhor? – A atendente pergunta, quando venho do “banheiro".
- Ah, sim. Com certeza foi minha pressão.
Ela sorri como resposta e com isto deixo a clínica.
O resto do dia fiquei imaginando a reação de Bruce se descobrisse se sua querida esposa Valerie não pudesse ter filhos. O divórcio voltaria a ser uma opção? Ele voltaria se rastejando para mim? Era algo que gostaria de ver em primeira mão, porém não acreditava que minha saúde mental não permitiria.
- Veio cedo hoje – Moe comenta, servindo uma dose de tequila.
Sorrio de canto sem saber o que dizer.
Apesar de tudo, me sentia vazia, sozinha.
A sensação que tinha era que ninguém me amava e que dificilmente alguém me amaria.
Parecia que estava fadada a passar minha vida em um apartamento escuro, cercada de gatos.
- Me sirva o mesmo dela – Olho para o lado baixando a cabeça no mesmo instante.
- Fiquei sabendo que foi afastada por causa do...Bruce – diz Sara hesitante.
- Sei que quer falar “Eu avisei”.
Ela dá de ombros.
- ...ele nunca quis nada sério com você – murmurra.
- Impossível agradar todo mundo, não é? – Viro a dose da tequila, saboreando a ardência que causava em minha garganta.
- Você merece coisa melhor.
- Não acha que essa frase já está batida, Sara?
Ela vira o corpo na minha direção, inclinando a cabeça para o lado.
- Não é uma pessoa má, Kathléia, aí dentro tem um coração bom. Mas por tanto sofrer, prefere sustentar essa imagem inabalável e camuflar quem realmente é.
- Já aceitei meu destino. Viver sozinha é melhor do que ter outra decepção amorosa.
- Não deveria – Ela vira toma a dose de tequila – Tenho certeza de que irá encontrar alguém que valha cada pensamento seu – Ela me olha novamente, franzindo o cenho – Aconteceu mais alguma coisa?
Suspiro encarando o balcão.
- Minha irmã morreu e tenho que ir ao México liberar o corpo.
A expressão de Sara se torna surpresa.
- Káh, eu...
- Não sinta – A interrompo – Não éramos próximas e não tínhamos uma relação de irmãs.
- Precisa ir pro México.
- Eu não vou.
- O quê!?
- Não tenho motivos para ir. Sempre nos odiamos.
Sara n**a com a cabeça, segurando meu rosto com uma mão de forma que a olhasse.
- Mas apesar de tudo, ela continua sendo sua irmã. Não pode deixar simplesmente que seja enterrada como indigente – Ela solta meu queixo, umedecendo os lábios – E sua mãe, como está?
- Ela não sabe e pretendo que continue não sabendo.
Ela levanta parcialmente com raiva.
- Você irá para o México, dará um enterro digno a sua irmã m, se não quiser que eu conte para Dona Rosa seus planos.
- Sério que irá me ameaçar? – pergunto não muito surpresa, já que este era um dos métodos de persuasão de Sara.
- Esqueça uma vez que a odeia e faça isto pelo seu pai – Sara tira algumas notas do bolso , colocando sob o balcão, saindo do bar em seguida.
Mamãe estava na sala de estar diante da TV quando entro em casa.
- Disse que voltaria antes do almoço – diz em bom som.
Caminho em direção á escada.
- Tive um imprevisto.
Ela ri.
- Lá vem você com suas desculpas esfarrapadas – Ela se balança na cadeira – Posso saber que tipo de “imprevisto” foi este?
- Terei que viajar.