Pré-visualização gratuita Você
Um dia patéticamente normal. O brilho morno do sol de outono, migrava em meio aos prédios da avenida Paulista. Só mais um pálido dia de trabalho na loja de livros A Curva do P. Mas daí, eu vi você.
Olá! Quem é você?
Pelas roupas e idade, uma universitaria. Entrou caminhando em sua calça folgada e camisa solta. Você não se vestiu para ser notada. Mas o batom vermelho, diz o contrário. Você busca intensidade. Algo autêntico como a sua coragem.
Seguiu para a estante de ficções menos populares. Você não faz o tipo insegura. A bolsa cara deve ter sido um presente. Você não gostava de ostentação. Não encontrou o que procurava. Seguiu pelas sessões olhando aleatoriamente. Esbarrou em um senhor no corredor de estantes muito estreito.
Pediu desculpa soando arrependida. Sente-se envergonhada por ser uma boa garota, ou...?
Você se aproxima e, dirige a sua primeira palavra para mim.
_ Olá! Você trabalha aqui? _ sorriu
_ Culpado _ sorri de volta _ Posso ajudar?
_ Procuro Horace Walpole.
Como pensei! Ninguém procura por livros antigos, hoje em dia. Você gosta de intensidade _ É um clássico. Vem comigo _ você me seguiu até a estante de literatura estrangeira.
Sorriu _ Horace Walpole ao lado de William Shakespeare? É a minha sessão preferida, com certeza.
_ Gosto interessante. A maioria lê estes livros por obrigação.
_ É como droga. A primeira dose você não sabe se quer realmente, mas quando se vê lendo O Castelo de Otranto, como se a sua vida dependesse disso, você sabe que não pode mais viver sem.
_ O que mais gostou neste livro?
Sorriu _ O que gosto nestes livros _ destacou o plural e sorriu _ é o conflito entre razão e fantasia, ciência e fé.
_ E, de que lado você fica?
_ De fora. Observando, enquanto eles fazem amor.
Sua resposta me surpreendeu com um súbito calor que se apossou do meu corpo de surpresa sem que eu tivesse uma defesa. Fiquei sem reação. Todas as palavras me fugiram. Mas para quebrar o clima, antes que ele se instalasse, você sorriu. Isso não quebrou o clima, piorou a minha situação. Meus olhos se fixaram nos seus lábios e tudo o que eu sabia era que eu queria o seu beijo nos meus lábios.
_ Tem alguém trabalhando aqui? _ um cara mau humorado que entrara pouco antes de você e, havia pego um item em promoção, me intimou.
Olhei para ele fugindo da visão dos seus lábios vermelhos e carnudos, ainda com eles em minha mente. Pelo olhar que o cara me lançou sentia inveja do clima da nossa conversa.
_ Ele é um babaca _ você falou baixo, em seu apoio à mim.
Sorri, pois gostei disso.
Atendi o meu amigo solitário. Sabendo que ele nem queria aquele livro. Sua real vontade era ir para casa, se entupir de uma massa bem calórica e b*******a vendo um vídeo pornô. Cobrei o livro e o entreguei dentro da sacolinha. Em seguida, ele saiu apressado para a sua vida vazia.
_ Eu vou levar este _ você sorriu me entregando o livro escolhido.
_ Boa escolha! _ coloquei o livro na sacola em cima do balcão _ Já leu Ann Radcliffe?
Sorriu _ Não, mas está na minha lista.
Você tirou o cartão e me entregou. Mas você tem dinheiro para pagar por isso. Então, deve querer que eu saiba o seu nome.
_ Maria Eduarda _ movi os lábios em uma expressão neutra.
_ Madu.
_ Daniel _ olhei em seus olhos ao falar.
Você me estendeu a sua mão que, eu apertei com agrado.
Depois de passar o cartão e te dar o recibo, estava tudo certo. Você caminhou porta a fora e, eu te segui com o olhar até te perder no meu ângulo de visão.
Contudo, eu não te deixei ir realmente.
A vida frenética da grande cidade, as vezes só te deixa tempo para uma vida virtual de poucas horas antes de dormir, para começar tudo de novo, amanhã. O bom é que assim, todos nos encontramos afinal.
Digitei o seu nome impresso naquele cartão de crédito. Era isso o que você queria, não?
Muitos amigos fakes. Será que você sabe disso? Um deles se chama Dadinho e sua foto é um desenho do Bob Esponja.
Os seus amigos reais estão em fotos que você postou. Descolados. Perto deles você se apaga, Madu. Como será você conheceu eles?
Entrei no perfil de um dos seus amigos. Ele era um ator não reconhecido. Algumas fotos postadas eram de uma peça teatral em andamento e olha você alí. Você está fazendo teatro e este deve ser o seu professor.
E através do seu amigo eu fiquei sabendo onde você estuda teatro. É perto da livraria. Você terá aula depois de amanhã.
Não ser o único trabalhando na livraria era ótimo. Não ter um patrão pegando no meu pé era melhor ainda. Assim eu posso ir te ver, Madu.
Fui encarregado de tomar conta do negócio, quando o meu patrão ficou velho demais para sair de casa. Eu só o vejo de vez em quando.
Segui você até a sua casa, não muito distante. O que era bom. Mas o lugar não parecia algo que você pudesse pagar. A casa não era sua, exatamente. Sem cortinas, eu pude ver o interior com armários embutidos e a mobília era antiga. Uma casa mobiliada.
Você sumiu por uns minutos e apareceu com um sanduíche acompanhado de refrigerante. Sentou na cama com o seu notebook. Devia estar postando algo nas redes. Te busquei no meu smartphone. Nada. Devia estar conversando no privado.
Sumiu novamente, por uns minutos e, voltou de calcinha e sutiã. Tinha uma toalha sobre os ombros. Vestiu jeans e camiseta. Calçou os sapatos e ajeitou o cabelo em frente o espelho. Por fim, o batom vermelho. Saiu de casa apressada.
Para onde você está indo?
Segui você até a faculdade. Por que será que, isso não está no seu perfil? Será que você está sendo obrigada a fazer faculdade?
Sabendo mais sobre você, voltei para os meus livros e minha rotina desinteressante.